O SUICÍDIO DO MEU PAI (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Gota D'água

“Já lhe dei meu corpo, minha alegria,
Já estanquei meu sangue quando fervia.
Olha a voz que me resta,
Olha a veia que salta,
Olha a gota que falta pro desfecho da festa.
Por favor….
Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não,
Pode ser a gota d’água.”

In: Gota D’água – de Chico Buarque

 

 

 

“Eu sobrevivi ao suicídio do meu ente mais querido.

Não gostava de falar sobre isto porque, no começo, escolhi pensar que este evento pertencia a outra vida que não a minha.

Meu processo de cura foi longo e doloroso. Às vezes, me sentia muito sozinho com meu sofrimento. Outras vezes, completamente perdido. 

O problema com o suicídio é que ninguém sabe o que dizer ou como reagir. Então, as pessoas sorriem, fazem um sinal e tentam mudar de assunto. 

A maioria evita pronunciar a palavra. Vira um tabu e, desta forma, aqueles que sobrevivem ficam absolutamente isolados.

Nos dias, semanas, meses e até anos após a morte do meu pai, permaneci dominado por uma confusão de sentimentos. Continuei pensando no que poderia ter feito e não dormi mais. Passava meus dias em constante estado de fadiga. 

E se eu não tivesse saído naquela noite? Ele teria mudado de ideia se ouvisse minha voz? Que conversa deixei de ter? O que foi que permiti que escapasse sem entender?

Enfim, passei a me sentir culpado por ainda estar vivo.

Chorava muitas vezes. Ou me conservava imóvel, observando as ondas quebrando na praia, esperando por um sinal que me avisasse que meu pai estaria melhor onde se encontrava. Às vezes eu não queria ver nada, ou fingia falar com um Deus – em quem nem sequer acreditava – ou com ‘alguém lá de cima’. Perdi a conta das vezes em que supliquei para que algo o fizesse  voltar. Um dia antes. Uma hora. Dez minutos. Daí, eu faria tudo o que deveria ter sido feito e que ninguém percebeu.

Faça com que ele volte! Eu implorava enquanto gritava. – Preciso de mais uma chance!.

Por que nós? Por que eu? Por que ele?

Evidentemente eu também sentia muita raiva.

Precisei passar por uma série de emoções antes de conceber meu luto. Mas nunca pensei – nem por um segundo – que o suicídio dele fora um ato egoísta. Podia ser muitas coisas, mas nada tinha a ver com egoísmo.

Demorei muito tempo para entender que nós cometemos suicídio porque estamos desesperados e nos sentimos sozinhos no mundo. A depressão clínica é um buraco negro. Depressivos podem se sentir como um fardo para os que os rodeiam, não conseguem sair de seus problemas e sentem-se presos, perdidos e totalmente sem saídas.

As pessoas que dizem que o suicídio é um ato egoísta sempre se referem a quem fica. Eles julgam que é egoísta abandonar os filhos, esposa ou marido, ou outros membros da família. Imaginam que aquele que cometeu suicídio não pensou nos que ficaram. 

O que essas pessoas não sabem é que é precisamente pelos entes queridos que os depressivos muitas vezes mantêm-se vivos por mais tempo. Eles pensam naqueles que permanecerão, provavelmente até o último momento. Mas o manto da depressão que os cobre é tão espesso e envolvente que os leva a crer que não têm outra escolha. Que a única maneira de encurtar o sofrimento é encerrá-lo. 

E tenho certeza do quanto é difícil não sucumbir a essas ideias sombrias e devastadoras. O quanto foi penoso, para meu pai, desistir de continuar vivendo.

Enquanto você não tiver experimentado a depressão, até que você não tenha se afogado neste oceano de trevas e solidão, você não terá o direito de julgar quem está lá. 

Cansei de ouvir gente falando de ‘falta de Deus’, de ‘amor pela vida’ e sei lá mais o que.

Você pode até pensar o que bem desejar, do alto do seu desconhecimento ou da sua arrogância, mas transmitir suas ideias não servirá para ninguém. Pelo contrário. Só vai conseguir machucar muita gente.

Eu sei que a morte de uma pessoa que decidiu dar um fim à própria vida cria um sentimento de desamparo e incompreensão em quem permanece. Muitas perguntas e quase nenhuma resposta.

Você pensa: como a depressão poderia se sobrepor a um homem aparentemente tão alegre? 

E meu pai parecia feliz!

No entanto, sabemos que muitas pessoas sentem esta dor lancinante todos os dias enquanto a escondem dos demais, como meu pai fez.

Portanto, saiba que alguns irão cometer suicídio. Outros tentarão. Outros sobreviverão. A maioria não conseguirá pedir a ajuda de que precisa para superar sua agonia.

Hoje penso que, depois de me despir de todo e qualquer julgamento, poderia ajudar alguma pessoa percebendo os sinais.

Descobri que entre 50 e 75%, dos que querem cometer suicídio, conversam com alguém antes. Ou tentam se expor.

Preste atenção nas pessoas ao seu redor. Olhe-as nos olhos. Mostre que você as entende. E, por favor, solte o seu celular e mostre sua humanidade.

Cuide dos amigos que podem estar deprimidos. Mesmo que eles se escondam, não atendam o telefone ou se recusem a recebê-lo, faça um esforço para mostrar que você está lá para eles. Ouvindo-os e se disponibilizando.

Entre em contato com pessoas cujos entes queridos se suicidaram. Pratique usando as palavras “suicídio” e “depressão” até se tornarem tão naturais como “maçã” e “chiclete”. Ouça suas histórias. Pegue suas mãos nas suas. Seja compreensivo (a). E abrace-as toda vez que você as vir.

Incentive-as a pedir ajuda. Procure se informar sobre quem pode cuidar delas profissionalmente a fim de que possam recorrer quando necessitarem. Não hesite em trazer novidades regularmente. Não tenha medo de mostrar que você se importa com elas. 

Uma pessoa pode contribuir para transformar a vida de alguém que sofre de depressão desde que haja um mínimo de abertura para tanto. Porque, infelizmente, existem aquelas que já tomaram sua decisão e nada nem ninguém as fará mudar a ideia.

Assim, acredite, você vai precisar entender que o gesto final pertence a cada ser humano como dono da própria existência.

Compreendi que meu pai fez a escolha que conseguiu conceber. E que ele, só ele, foi o responsável por esta escolha. Não havia o que fazer diante desta decisão tão radical e do seu silêncio.”

Depois deste depoimento (autorizado), achei importante registrar que no Brasil estimativas indicam que em 2017 cerca de 30 pessoas cometeram suicídio por dia, principalmente em regiões mais desenvolvidas economicamente. Ocorre mais de uma tentativa de suicídio por hora em nosso país. O problema atinge, na maior parte, homens (79% dos casos), dentre idosos, jovens, crianças e adultos. Nesta ordem.

Se você me perguntar: quais os melhores remédios para combater a vontade de morrer? Felicidade, trabalho, solidariedade, prevenção? Como evitar que alguém cometa suicídio? Como antever a barreira prestes a ser atravessada e como parar a caminhada do outro na sua direção?

Eu não seria capaz de fornecer uma única resposta para estas perguntas porque, sinceramente, acredito que o tema suicídio não envolva apenas um caso para ‘especialistas’, mas, sobretudo, o modelo de sociedade onde o humano já não tem seu espaço e onde, como consequência, o individualismo e a indiferença ganharam o lugar de destaque.

Então, de volta à minha indagação, por que tantos suicídios?

Pense: quem, honestamente, tem tempo para prestar atenção àquele que não está indo bem no mesmo momento em que está sobrecarregado com uma montanha de problemas? Quem pode ouvir o outro sobre suas dificuldades diante das suas próprias mazelas?

Quem é feliz o suficiente em sua própria vida para dar uma mão a todos aqueles que precisam ser ouvidos?

Desta forma, posso afirmar que o problema irá avançar cada vez mais.

O suicídio não é um ato inútil ou aleatório. Para as pessoas que pensam em acabar com suas próprias vidas, ele representa uma resposta a um problema de alguma forma insolúvel ou uma saída para algum dilema insuportável. É uma escolha que parece ser preferível a outro conjunto de circunstâncias temidas e que envolve muito sofrimento emocional  – que a pessoa receia mais do que a própria morte.

Passou da hora de pensarmos sobre os horrores que a nossa sociedade tem produzido. A desesperança redundando em suicídio é, desgraçadamente, um deles. 

Importante lembrar do Centro de Valorização da Vida (CVV), no número 141, para quando precisar de alguém pra conversar.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.

2 pensamentos sobre “O SUICÍDIO DO MEU PAI (DEPOIMENTO)

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s