O QUE O ÓDIO E O RANCOR PODEM NOS REVELAR

Imagem Movimento Máscara

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para…

Enquanto todo mundo espera a cura do mal,
E a loucura finge que isso tudo é normal,
Eu finjo ter paciência.

O mundo vai girando cada vez mais veloz,
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência…”

In: Paciência – de Lenine

 

 

O rancor é um sentimento que nos induz a susceptibilidades extremadas assim como a uma profunda rigidez psicológica. Aqui, dois tipos de perfis podem ser identificados. O primeiro é o “eu sou menos / o outro é mais“, produzido por uma sensação de inferioridade. Este tipo de perfil, não possuindo um sistema de defesa ou de capacidade de resposta racional, escolhe fugir daquilo que entender ser uma ‘disputa’ inglória. O segundo, “eu sou mais / o outro é menos“, envolve uma personalidade mais narcisistas que experimenta um temor constante de passar por algum tipo de rebaixamento ou humilhação e contra-atacará o ‘preconceito’ sofrido – sendo ele real ou não.

Por trás desses dois tipos encontramos uma dependência significativa dos outros. Da opinião alheia. Da aceitação geral.

Quanto mais você estiver ressentido, menos certeza você terá acerca de si mesmo. O rancor nutre muitas expectativas infundadas em relação à amizade e ao amor e será sempre, inevitavelmente, fonte de graves e dolorosas frustrações.

Então, nunca é demais perguntar:

Sua vida está do jeito que você desejava?

Responda honestamente: se você olhar ao seu redor enxergará as coisas que queria reunir e reconhecerá, perto de si, as pessoas que ansiava ter por ali? Estará satisfeito(a) com o rumo que sua experiência pessoal tomou assim como as escolhas que fez para atingir aquilo que desejava?

Aliás, pensando bem, você realmente fez o que almejou? Descobriu suas melhores possibilidades e suas mais claras perspectivas  e, desta forma, foi atrás de realizá-las da maneira mais plena possível?

Você teve a sorte de poder ser aquilo que aspirava, mesmo que em detrimento do que esperavam de e para você?

Lembre-se de que a palavra desejo vem do latim de-sid-erio. Sid, da língua zenda, significa estrela; seguir o desejo é seguir a estrela: é estar orientado. É ter sentido.

Porque se você não estiver minimamente feliz com algum ou muitos aspectos da sua vida, com certeza, será um (a) forte candidato (a) ao papel de predador dos pobres coitados que, desavisadamente, aproximarem-se de você.

Terá enormes chances de se preocupar muito mais com a vida alheia do que com a própria e a única explicação para tamanho desajuste será exclusivamente sua falta de contentamento em relação à sua existência.

Porque uma vida sem realizações, sem um grau de satisfação mediano, torna-se, de fato, um farto quase insuportável de se carregar.

Daí, a solução encontrada pela psique humana é fugir da realidade monótona e incômoda deixando de olhar para as próprias coisas e escolhendo fixar-se em tudo o que estiver “fora de si”.

E o que anda acontecendo com esta porção de gente nas redes sociais que, ingenuamente, acredita que pode mudar a situação do país com algumas simples e vorazes “tecladas”? Existem algumas pela quais me compadeço porque a primeira coisa que me vem à cabeça, ao ler insultos e declarações intolerantes proferidos por detrás desta telinha protetora (que, absolutamente, não nos esconde sequer de nós mesmos), é o grau de sofrimento pessoal que aquele ser suporta. Penso logo no quanto esta pessoa sente-se mal realizada, embrutecida e abandonada. Este é um caso. Os demais, representam pessoas ruins mesmo. De péssimo caráter. Infames, incompetentes e ignorantes.

Surpreendente-me, ainda, observar como muitos são capazes de mudar de papéis sem se darem conta do que estão fazendo. De “injustiçados” rapidamente se transformam em “algozes”. São capazes de convidar, com um sorriso leve e amistoso nos lábios, uma pessoa para os acompanhar numa ideia para, segundos depois, se transformarem em zangões enfurecidos diante de uma recusa.

A melhor forma de compreender os sentimentos que mais nos mobilizam é, inicialmente, contracenarmos com eles – e com os grupos com os quais partilhamos tais afetos. Depois, afastarmo-nos deles para podermos perceber o que ouvimos, dissemos e sentimos efetivamente. Permitir que a sincera reflexão se dê depois do ato – muitas vezes puramente reflexo – é o segredo do autêntico amadurecimento.

Desta forma, o indivíduo ‘desarma-se’ e consegue perceber a si próprio de maneira mais honesta e genuína. Olhar para si sem medos ou subterfúgios: existe exercício mais profundo e  importante do que esse? Mesmo porque este é um caminho a ser trilhado solitariamente e, talvez por isto mesmo, experimentado por poucos.

E apenas depois conversar. Conversar muito. Pois é conversando que se entende o que cada um entende. Para poder olhar por detrás do que é mera aparência. Ou alguém aqui duvida que todo o ódio social que assistimos eclodir não foi discreta e milimetricamente fomentado nestas pobres cabeças?

Mas talvez se sobreponha o temor de enxergar-se de verdade. E falte coragem para assumir os equívocos praticados.

Portanto, preste muita atenção: se alguma pessoa próxima a você perdeu as estribeiras e passou a destilar ódios, rancores e venenos para todos os lados, sossegue. Não se preocupe nem dê bola para tais desatinos.

Esta criatura está apenas fugindo desesperadamente das questões que lhe são insuportavelmente próprias. Muito provavelmente sua vida está um caos que ela não dá conta de resolver.

Gente com baixa autoestima, geralmente se deixa acompanhar por pessoas pouco acolhedoras ou parceiras e, daí, carrega um sentimento agudo de solidão e isolamento. Desse modo, pessoas que não se sentem amadas, foram e são pouco acarinhadas ou precariamente apoiadas; gente que nunca é abraçada (essa falta provoca doenças físicas e emocionais) deve ser olhada com muita condescendência e tato.

E, na pior das hipóteses, devem ser deixadas de lado. Até que abandonem a cegueira e a arrogância a fim de buscar a ajuda de que tanto necessitam antes de se transformarem de bodes expiatórios em doentes crônicos e, muitas vezes, incuráveis.

Mesmo que insuflem ódios e rancores despropositados. Afinal, se você não é responsável pela desumana desordem que se instalou ao redor de todos nós, simples humanos, não pode ser o estopim de uma guerra que não entende, de fato e de direito.

Cuide-se bem. E mantenha a calma.

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