A FALTA QUE UM ABRAÇO FAZ

Imagem Movimento Pessoas Caminhando

“Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado,
De bater na porta do vizinho,
E desejar bom dia.
De beijar o português
Da padaria.”

In: Telegrama – de Zeca Balero

Um seco estampido irrompe na noite fria da pacata cidade e acelera dezenas de corações assustados. Um fogo de artifício fora de hora? Uma champanhe aberta para comemorar algo fugaz? Um inocente escapamento de moto?

Não. Era o primeiro dos vários tiros que se seguiram. Disparados contra três vidas que sequer tiveram tempo de entender o drama que ali se instalava.

Tudo começou com um pequeno atrito. Um grave ruído na comunicação daquelas pessoas que, simplesmente, queriam seguir com suas vidas. Em frente.

Os jornalistas tentaram encontrar explicações “científicas” para o triste episódio. Os vizinhos, justificativas racionais. Os amigos, razões emocionais.

O jovem casal, do andar de cima, aparentemente, guardava projetos importantes para os muitos anos de vida que ainda tinha diante de si. O mais significativo, certamente, seria acompanhar o crescimento da filha ainda pequena.

O casal de meia idade, do andar de baixo, certamente mais combalido, desejava viver os anos restantes em paz e harmonia. E, com alguma sorte, plenos de alegria.

Portanto, como disse meu filho, “essa conta não fecha”.

O que faltou para que aqueles cinco minutos de raiva não transformassem a vida de todos numa tragédia? O que não foi dito, ouvido ou compreendido por eles e pelos que lhes cercavam?

Certamente, a morte dos três encerrou a possibilidade de alcançar respostas plausíveis a estas incômodas indagações produzindo a dolorosa notícia que, por semanas, preencheu manchetes sanguinárias e frias: 

“Em condomínio de luxo, idoso mata casal de vizinhos após discussão por causa de barulho e, em seguida, se suicida.”

Por outro lado, no entanto, a tragédia poderia nos abrir a chance de reavaliarmos nossas próprias atitudes frente às dezenas de conflitos com os quais diuturnamente nos deparamos: na sala de casa, no elevador do trabalho, no trânsito, na fila, no mercado, no banco, na loja, no hospital, em todos os cantos.

Lidamos, diariamente, com os mais diferentes tipos de pessoas e humores.

Gente sofrendo coisas que a gente sequer pressente. Gente como a gente, parada na frente da gente, olhando amedrontada, desconfiando, se escondendo. Como a gente – padecendo.

Ideal seria que jamais nos confrontássemos com aqueles nos quais não nos foi dado confiar – unicamente porque não nos são próximos. Pois devíamos saber que confiança tem a ver com tempo, contato, amizade e, principalmente, intimidade. Quer dizer: dá muito ‘mais trabalho’ criar laços de confiança. Sai ‘mais em conta’ mantermos as pessoas afastadas e apartadas de nossas vidas. Será?

E se, cinco minutos antes de nos antagonizarmos, tentássemos simplesmente nos ‘colocarmos’ no lugar do outro? Sem dúvida, entenderíamos os sentimentos que, mesmo sem querer, poderíamos estar provocando.

E se, além disso, o ouvíssemos de verdade, considerando o que ele fala como uma possibilidade?

Pois nem sempre o que é correto é algo que se encontra em oposição ao que é errado.

Existem infinitos modos de ver a mesma coisa. Diferentes possibilidades de interpretações. Nuances, detalhes, cores e sons que escapam aos sentidos mais aguçados.

Porque insistimos em querer que todos contemplem as coisas da mesma forma que a gente?

A produção irrestrita do eu nos leva ao meu. Individualista e solitário meu edificado pelo egoísta e insensível eu.

E quem pode afirmar, com toda a convicção, de que lado está o certo e onde se esconde o errado?

Somos mestres em observação e julgamento sumários. E muito pouco escolados na delicada trilha da tolerância

Mas, se apenas uma vez, experimentássemos o que a leveza que a falta de certeza nas coisas pode proporcionar, não nos deixaríamos cegar pela cólera insana do (vão) convencimento que entorpece nossos mais nobres (e necessários) sentimentos humanos.

Pediríamos com muita humildade, quem sabe, a mediação de um amigo afetuoso ou, ainda, daquele parente compreensivo. Talvez até do vizinho gentil capaz de nos ajudar a recriar a ponte fraterna que nossos gestos rotineiros, abruptos e pouco amistosos destroem sem que sequer nos demos conta disso.

E, então, o tal silêncio não seria realizado desta forma tão brutal e irreversível.

Como o que, dentre outras tragédias, ocorreu há dois dias com dois irmãos, que também eram sócios em uma concessionária, quando o mais velho foi assassinado pelo mais novo, no final da ‘festa de confraternização’ da empresa.

Triste final para ódios recalcitrantes que jamais são assumidos e, desta forma, tratados.

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