CASAMENTOS IMPERFEITOS II

Imagem Movimento Casamentos Imperfeitos 2

 

“Como nasce do fundo do poço escuro
A água cristalina para matar nossa sede,
Há de vir do oceano ou de um fundo de um rio
A nossa esperança envolvida na rede.”

In: Ruínas do Sol – de Oswaldo Montenegro

 

 

Tudo indica que para que o amor possa se expressar livremente devemos transformar um relacionamento de dependência em uma relação de igual para igual. Sem subterfúgios.

Simples?

Claro que não!

Todo casal é formado por depositários das projeções e expectativas do outro. Quer dizer: um espera que o outro se molde dentro da “imagem idealizada” que traz de todas as vivências passadas. Daí, um se torna responsável por fazer seu parceiro feliz, como se a felicidade dependesse apenas dele. Para isso, ele deve lhe preencher as lacunas e mitigar todos os seus desejos.

Papai Freud já nos ensinava que, de um jeito ou de outro, acabamos mesmo reproduzindo o vínculo maternal, independente da qualidade dele. Este amor primário e narcisista é o que vai estruturar a forma como o sujeito vai aprender a se ver e a se amar.

A plenitude sentida, ou não, desde os primeiros momentos de nossa vida inscritos em nossa memória, nos levará, inconscientemente, a buscar em nossas relações a compensação do que perdemos ou a reprodução do que tivemos.

Portanto, se os momentos de plenitude foram experimentados com mais frequência do que os de frustração, essa memória gravada no inconsciente nos tornará aptos a amar. No entanto, muitos de nós jamais se sentirão livres para tanto. Ainda que acreditem ser.

Conheço um casal que está junto há mais de 40 anos. Seus desentendimentos remontam a fase do namoro onde ela, invariavelmente impaciente, reclamava a todo o momento dele que, por outro lado, parecia viver para aborrecê-la com suas manias irritantes além da incontestável ausência de sensibilidade em relação às suas queixas.

Mesmo assim, os dois se casaram com todas as pompas e com direito a lua de mel na Europa, rateada entre os pais que, acredito, não suportavam mais assistir as frequentes – e públicas – brigas entre os “pombinhos”.

Consta que, ainda durante as bodas, foi possível ouvir seus gritos enquanto se arrumavam para a viagem, no andar de cima da casa onde a festa transcorria. Mas desceram sorridentes e tudo pareceu em ordem nas fotos registradas durante o evento.

E assim seguiram a vida e assim brigaram por qualquer pedacinho que lhes cabia, desde o nome de cada um dos três filhos até a cor de todas as paredes da casa.

Não sei sequer dizer se alguma vez percebi algo de verdadeiramente amoroso entre eles. Considerando que os dois eram divertidos quando se encontravam em grupo e que também recebiam com muito gosto e hospitalidade todos os amigos, posso afirmar que ambos, acima de tudo, sabiam aparentar um entusiasmo e uma alegria absolutamente convincentes.

Mas não me lembro de presenciar algum abraço carinhoso, ou um afago roubado longe dos olhares curiosos, nem um olhar amável de um em direção ao outro.

Recordo-me, isto sim, de vê-los sempre muito distantes em todos esses acontecimentos públicos e notáveis.

Confesso, também, que experimentei um verdadeiro desalento ao constatar que haviam desistido de explorar melhores possibilidades em nome do medo de se separarem.

Atualmente, para tristeza de todos, eles encontram-se bastante doentes apesar de serem ainda relativamente jovens: ela está com 71 anos e ele com 72. Dependem dos filhos para tudo e, aparentemente, escolheram a filha mais velha como cuidadora, pois sei que esta abriu mão das próprias motivações para tomar conta do par. Não sem altas doses de revolta e de rancor.

A doença deles é degenerativa e progressiva. E ainda é difícil, para mim, compreender como chegaram ao ponto em que se encontram hoje sem darem-se conta de que a vida deles transformava-se lentamente, dia a dia, num verdadeiro martírio.

Segundo a filha, que é minha amiga, agora eles sequer se olham ou conversam entre si. “Suportam-se apenas” – conta ela com pesar.

E, então, o que antes era escamoteado e encoberto como um crime que não podia ser revelado, hoje se desvela de maneira penosa.

Não existem mais as festas, os churrascos ou os grandes encontros. Desconfio muito que tudo isto buscava esconder o tremendo vazio de suas existências.

A saúde segue mal, a rotina vai péssima e a família inteira sofre com este desfecho. Todos, no fundo, tornaram-se vítimas de uma equivocada escolha e, de alguma forma, preparam-se para reeditar a mesma fórmula de relacionamento que se acostumaram a ver no decorrer de suas vivências.

Uma recente pesquisa envolvendo uniões mais duradouras, que avaliou parâmetros como apoio mútuo, envolvimento emocional e frequência dos desentendimentos em relação a filhos e finanças assim como a qualidade do sexo, indicou que o estresse causado por sérios desentendimentos, além de muito desgastante, pode provocar não só doenças fisiológicas como, principalmente, depressão tanto nos homens quanto nas mulheres.

Já sabemos que dentre as doenças psicofisiológicas encontram-se, dentre outras, transtornos cardiovasculares, transtornos respiratórios, transtornos endócrinos (hiper ou hipotireoidismo, por exemplo), alterações das glândulas paratireoides, hipoglicemia, diabetes, transtornos gastrintestinais, transtornos dermatológicos (alopecia, psoríase, herpes, vitiligo), dores crônicas (lombalgias, cefaleias, dor pré-menstrual, fibromialgia), artrite reumatoide, transtornos imunológicos como lúpus e depressão imunológica inespecífica. E não se pode negar a relação entre estresse, depressão e câncer.

Desejar que o casamento seja capaz de nos tornar realizados e satisfeitos com tudo de uma maneira geral, seria cômico se não fosse tão trágico. E doloroso.

A experiência em consultório demonstra que cerca de 80% dos sofrimentos psicológicos advêm, justamente, dos conflitos dentro das relações familiares. A maior parte das doenças psicossomáticas, considerando aqui também o uso de tóxicos e a depressão, vem de casamentos destituídos de uma dose razoável de companheirismo, confiança e alegria.

O que posso afirmar é que as pessoas, de maneira geral, e depois de uma certa idade, passam a acreditar que não possuem mais tempo para construírem um caminho mais prazeroso e feliz. Aparentemente abdicaram da possibilidade de um projeto mais produtivo e estimulante. Mas a verdade é que abandonaram este desejo lá atrás, em algum momento muito anterior de suas pálidas existências.

Desta forma, seguem preenchendo sua trajetória com aparências e frivolidades. Acomodam-se no que decretaram ser ‘o caminho certo’ e passam a aguardar, com alguma aflição, a morte. Quem sabe, um aniquilamento final veloz, mas que foi tecido no decorrer de anos de uma convivência triste e amargurado – tão bem disfarçada na sua faceta pública e notória.

As pessoas temem o desconhecido – é este parece ser um instinto básico. Mas não fazem a menor ideia de que perdem muitas chances de recontar suas histórias de forma diversa e sob diferente ângulo, quem sabem, muito mais feliz.

A possibilidade de afastar-se do companheiro (a) torna-se um suplício porque infeliz dentro, mais infeliz fora – reza a máxima inventada por alguém que, sem coragem de seguir seus mais honestos anseios, vaticinou tal bobagem como verdade incontestável.

E, daí, nasce o medo e a culpa que impedem a possibilidade de se refazerem amorosamente com outros parceiros. Logo, permanecemos em relações falidas por evidente covardia.

As mulheres, aparentemente, estão mais sujeitas a desenvolver sintomas fisiológicos da chamada síndrome metabólica que envolve problemas de saúde como obesidade, hipertensão e colesterol alto e que podem levar a doenças cardíacas, diabetes e derrame.

Muitos estudos epidemiológicos associam raiva e depressão à esta síndrome que também contribui para o acúmulo de gordura abdominal, aumento da pressão arterial e da resistência à insulina – o que desencadeia o diabetes.

Mesmo para os médicos mais céticos, existe uma espécie de consenso apontando para o fato de que a manutenção de um relacionamento falido perpetua o ciclo de estresse, diminuição da autoestima e ausência de boas perspectivas frente ao ‘futuro’.

A depressão é, sem sombra de dúvidas, a doença do século. E permanecer dentro de relações falidas aprofunda o mal, posto que provoca a queda da autoestima e da esperança de uma existência mais satisfatória.

Logo, casais insatisfeitos e infelizes (geralmente as duas condições andam de braços, mãos e pernas juntas) tendem a produzir famílias disfuncionais mergulhadas em conflitos tão improdutivos quanto potencialmente devastadores.

Portanto, mais amor, viu? Daqueles que nos acordam e nos estimulam a seguir, muito mais radiantes, em frente.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima 

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s