CASAMENTOS IMPERFEITOS

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“Ele tem um velho projeto,
Ela tem um monte de estrias,
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias,
Até o fim dos dias.

Ele às vezes cede um afeto,
Ela só se despe no escuro,
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro,
Até um breve futuro.”

In: O Casamento dos Pequenos Burgueses – de Chico Buarque

A entrevista corria leve e solta. Ao vivo e sem qualquer possibilidade de edição. O tema versava sobre um tal “casamento eterno” e os casais convidados se prestavam a atestar a existência desta suspeitíssima modalidade, confirmando, para tanto, o quanto seus enlaces eram ‘maravilhosos’ e ‘estáveis’.

Uma das mulheres ali presentes, bastante animada, mãos agarradas às do marido, descrevia seu relacionamento como uma eterna reedição da paixão inicial, sem qualquer tipo de conflito mais grave.

Declarava, com muita convicção, que os 54 anos de união haviam sido de puro amor e absoluta devoção.

Se derretia dizendo desconhecer outro homem tão extraordinário e terno quanto o seu e, desta forma, dava o tom da entrevista uma vez que parecia muito mais descontraída do que o marido que, naquela altura, só balançava a cabeça parecendo concordar com tudo o que ela afirmava.

Ao perceber isto, o apresentador apressou-se em envolvê-lo na conversa e de primeira, à queima roupa, lascou a seguinte questão: “- E o senhor nunca pulou a cerca? ”

E, então, o inesperado aconteceu: diante da pergunta o homem resolveu ser honesto e, sem titubear, respondeu:

 Olha, eu fui caminhoneiro…. não vou dizer que nunca pulei…”

A esta altura a esposa, desconcertada, ainda tentou remendar:

 Ô bem… você entendeu a pergunta? ”

Mas não havia mais jeito. O inevitável ali ocorrera. Um lapso de luz verdadeira se sobrepusera ao inútil e flagrante engodo.

Afinal, existiriam relações eternas? Casamentos que durem para sempre, do mesmo jeito e na mesma toada?

Algo é permanente? Alguma coisa pode ser considerada imutável?

E o que teria feito aquela simpática senhora afirmar, em rede nacional, algo que, certamente, não se configurava em sua vida – nem na de qualquer outra pessoa? Temor de ser igual às demais? Comum? Banal?

Porque a vida real é assim mesmo. Surpreendente e, ao mesmo tempo, tediosa, repleta de percalços e dissabores, surpresas ingratas, alguns momentos felizes, outros nem tanto. Com gente caindo e levantando. Sacudindo a poeira e, quando se dá conta, descobrindo que a sujeira ainda permanece ali grudada.

No entanto, muitas mulheres estacionam todos os seus anseios justamente na esquina onde paira a promessa do felizes para sempre. Ainda que o para sempre não exista e felicidade eterna seja apenas uma quimera.

Mesmo assim, infelizmente, muitas teimam em repetir a ladainha perpetuando, deste jeito, a Grande Mentira. Como se o único amor legítimo fosse o que necessariamente deságua no casamento inabalável.

E o que ninguém parece ter percebido naquela fatídica entrevista foi justamente o fato de que o casal falava fitando apenas o entrevistador sem trocarem, entre si, um único olhar. Não havia rastros visíveis de cumplicidade. A intimidade ali parecia há muito perdida. Ela falava e ele falou.

E falar, falar demais, é a melhor forma de não sentir. É a defesa que mais utilizamos contra a expressão sentimental. 

Quando não conseguimos sentir ou expressar uma emoção basta… falar! Verborragicamente, exageradamente, histericamente, demasiadamente, insuportavelmente.

Falar pelos cotovelos deságua sempre no excesso que não leva a outro lugar que não seja o beco escuro onde se esconde o medo de sentir, de perceber o que está lá… para quem deseja sinceramente enxergar.

Sabemos que o rancor matrimonial, muitas vezes, é o mais triste e amargo de todos pois carrega um poder devastador. Justamente por se esconder atrás da aparência do amor idealizado, da fantasia persistente do casamento romântico cujo par se mantém porque continua a se admirar, amar e desejar “tanto quanto” no começo. Quando, na verdade, o que se deseja esconder é justamente a dependência emocional, o medo de ficarem sozinhos, de perderem a referência que a presença do outro parece significar.

Um vira a muleta do outro – sempre pronta para sustentar suas fraquezas, suas limitações e seus medos. Não se trata mais de intimidade e apreço. Estamos falando de resignação. Ou prisão.

A intimidade acontece exatamente no momento em que, diante de outras oportunidades, permanecemos aonde estamos porque assim desejamos; mesmo que cientes de que um dia poderemos partir. E no ponto em que os olhares se encontram sem que seja preciso dizer nada além de se deixar levar pelo puro encantamento.

Amar é não precisar falar sobre o amor o tempo inteiro. É mergulhar na sensação sem precisar provar coisa alguma para ninguém, já que amar não requer comprovantes nem registros impertinentes. Apenas acontece para, assim, permanecer enquanto for de verdade. Sendo sensação na pele. E no coração.

Ah… a entrevista. É verdadeira. E não imagino no que desaguou. Mas se quiser acessá-la, basta digitar no google: “como acabar com um casamento de 54 anos“. Frase tola. Mas serve.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

2 pensamentos sobre “CASAMENTOS IMPERFEITOS

  1. Nunca tinha visto esse vídeo, quando fui mostrar agora há pouco pro meu irmão, ele disse que já tinha visto porque, segundo ele, já foi viral.
    Voltando ao texto: fico abismada com o quão superficial pode ser uma pessoa. Se você não tivesse mencionado a falta de carícias, olhares, cumplicidade que falta no vídeo, eu realmente não teria reparado. Mas é realmente isso. Se existisse esse dupla troca, ou seja, esse interesse há 54 anos, com certeza não teríamos assistido a respostas e gestos robóticos.
    Claro que não é sempre que temos paciência com alguém, ainda mais há tanto tempo, mas chega a ser patético o papel que ambos (não só apenas a mulher de idealizar um casamento, mas também o homem por aceitar fazer esse papel) realizam.

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