HOMENS PERVERSOS E SEUS PROJETOS INSANOS

Imagem Movimento Mulher Correndo Medo

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.”

In: Nada é Impossível de Mudar – de Bertold Brecht

 

 

Há poucos dias, nos Estados Unidos, o homem que estuprou uma menina de 12 anos recebeu a guarda compartilhada da criança nascida desta violação.

Em vários estados americanos, onde a legislação é mais favorável aos estupradores do que às mulheres, estes maníacos podem ter acesso, custódia ou mesmo direitos de adotar uma criança nascida de uma mulher que tenham estuprado. Importante ressaltar que o comitê americano por onde passa este tipo de legislação é composto unicamente por homens.

Nos Estados Unidos nascem, a cada ano, entre 17 mil e 32 mil crianças frutos do crime de estupro. E estes são dados oficiais. A realidade pode ser ainda pior.

Grávida em 2008 depois de ter sido estuprada por Christopher Mirasolo quando era apenas uma criança, esta jovem mãe viu a custódia de seu filho – agora com 8 anos – sendo parcialmente concedida ao  criminoso.

O juiz deu o endereço da vítima a seu estuprador, ordenou que seu nome fosse escrito na certidão de nascimento, tudo sem o consentimento da mãe e sem lhe dar a oportunidade de se opor“, disse Rebecca Kiessling, advogada da vítima, ao The Detroit News. A mãe da criança também será obrigada pela “justiça” a deixar a Flórida onde atualmente reside para se instalar em Michigan, perto do “pai”.

Esta notícia real horrorizou você?

Pois saiba que será exatamente por isto que, dentre outros horrores, as mulheres brasileiras, vítimas de monstros como Christopher Mirasolo, serão obrigadas a passar com a aprovação da PEC 181 proposta por 18 deputados homens.

Aos gritos de “sim à vida, não ao aborto“, alguns desses cínicos funcionários públicos levantaram bonecos de borracha representando ‘fetos’.

Imagine, então, você, sua irmã, sua filha, sua mãe ou sua melhor amiga numa situação, vivida por muitas mulheres no Brasil, como esta:

A moça caminha pela rua escura. Cabeça baixa, olhos vidrados no chão, respiração ofegante que denuncia um pavor que se expande. Aperta o passo ao ouvir outros atrás de si. “Faltam apenas duas quadras”, pensa tentando se acalmar. A noite está fria e, talvez por isso, existam menos pessoas transitando no local. Atravessa a pequena alameda sem olhar para os lados. Medo, muito medo, é o que sente. Seus passos ecoam pelo caminho cada vez mais deserto. O som dos outros passos que pareciam apagados voltam numa intensidade crescente. Seu coração parece querer explodir dentro do peito. Falta apenas uma quadra. Uma quadra para encontrar sua mãe e sua filha. Uma quadra para descansar seu corpo pequeno, fraco e moído de cansaço. Uma quadra para tomar um banho revigorante e para realizar as tarefas que ainda lhe aguardam. Uma quadra. Sente um baque. O que teria caído sobre sua cabeça? Passa a mão pela nuca e sente algo viscoso. Olha para a palma vermelha e grudenta. Um zumbido entra pelos ouvidos invadindo sua mente. Sente-se desfalecer e não vê mais nada.

Esta cena ocorreu, de verdade, há poucos meses na cidade de São Paulo. Esta e centenas de outras.

A mulher, de trinta e quatro anos, foi atacada por um homem às nove horas da noite de uma terça-feira, há poucos metros de sua casa. Depois da violação e da selvageria, o criminoso largou-a desacordada no chão de uma viela onde só foi encontrada por vizinhos, duas horas mais tarde.

A moça voltou a si, mas sua vida nunca mais voltou aos eixos. Conviveu, por dias, com a terrível possibilidade de haver engravidado. Desenvolveu uma série de fobias sociais e não conseguiu manter-se nem no emprego nem na casa onde morava.

Hoje vive de favor na casa de uma prima e já pensou em se matar diversas vezes. O que a mantêm viva é a filha que precisa ser criada. Não conta com ajuda de mais ninguém além da mãe que se encontra, também, bastante traumatizada.

Durante muito tempo precisou tomar o coquetel anti HIV oferecido pelo Hospital Pérola Byington. Sentiu náuseas, tonturas e precisou tratar a alergia que teve aos medicamentos. Isso sem contar as sequelas que carregará pela vida afora.

Ruim imaginar-se nesta situação, não é mesmo?

Mas continue tentando. Imagine, agora, que este marginal lhe tenha engravidado.

Uma vez que, logo após esta emenda, o famigerado, ignóbil e desumano Estatuto do Nascituro estará aprovado visto tratar-se, basicamente, da mesma matéria, você será obrigada a levar a gravidez até o final, não importando suas vontade . Caso não o faça, poderá ir para a prisão!

“Art. 12. É vedado ao Estado ou a particulares causar dano ao nascituro em razão de ato cometido por qualquer de seus genitores.”

Lembrando que hoje, em caso de estupro, o aborto é permitido em nosso país.

Com este projeto, ele deixa de ser. Em outras palavras: o embrião terá mais direitos do que a mulher violentada – seja ela criança, jovem ou adulta, não importa.

Imagine, portanto, se você for esta mulher. Pense em sua filha, sua mãe, sua irmã, tantas mulheres próximas e queridas, passando pelo horror da violência sexual e sendo obrigadas a manterem uma gravidez que vai gerar o resultado desta selvageria.

Agora, vamos mudar de posição.

Você é a criatura que nasceu desta violência. Vai precisar tomar conhecimento da história que lhe precede, é claro. Certamente não desejará conhecer seu ‘progenitor’. Mesmo que este “estatuto” obrigue o nome do estuprador constar como “pai” na sua certidão de nascimento.

“Art. 13. § 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.”

Você, então, saberá que foi fruto da violência de um homem contra uma mulher.

Terá consciência de que não houve afeto na sua concepção, na sua gestação e, consequentemente, em todo o restante do seu desenvolvimento.

Você gostaria ser o fruto gerado por esta violência? Você almejaria de estar no lugar da mulher estuprada? Você desejaria que uma criança, sua filha, sua irmã, neta ou vizinha, vítima de um pedófilo, fosse obrigada, por força da lei, a suportar esta gestação?

Se respondeu não a qualquer uma destas questões, vai permitir que este Proposta de Emenda Constitucional torne-se realidade?

Então, diga não a este desumano e cruel projeto! Porque a próxima vitima poderá ser você ou alguém por quem você tenha um verdadeiro afeto.

EM TEMPO:

Não é à toa que uma perturbadora série, inédita no Brasil, esteja fazendo tanto sucesso mundo fora. Trata-se de The Handmaid’s Tale, história que descreve uma sociedade futura, dominada exclusivamente por homens, onde mulheres férteis servem apenas para reprodução. Toda desobediência é castigada com penas físicas que envolvem desde a retirada dos olhos até a amputação dos membros. Nela, também, relacionamentos envolvendo pessoas do mesmo sexo podem levar à em morte ou à circuncisão feminina. As mulheres não têm direito ao seu nome, ao seu corpo e de sair à rua desacompanhada. Não decidem sequer o que podem comer e aonde ir. A série mostra a passagem entre o passado e o presente a fim de mostrar a transformação súbita de um mundo reconstruído em detrimento das mulheres.

Assim como parece estar sendo conduzido nosso país hoje, lentamente, no sentido da privação dos direitos mais fundamentais até a extinção de todos, diante da indiferença cega da maioria da população.

 

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