PARA QUEM SERVE O RACISMO, AFINAL?

Imagem Movimento Black or White

“Seja você negro, branco, índio ou oriental,
Não importa a pele ou nacionalidade.
Somos todos iguais, todos sentimos dor,
Todos podemos amar, somos todos humanos,
Somos todos, todos iguais…

O racismo não deve, não deve
Não deve existir!

O racismo é uma doença que gera a violência.
Temos que nos unir, temos que reagir
Contra o racismo que só quer nos destruir.
Não importa a pele, somos todos iguais,
Somos todos, todos iguais…”

In: O Racismo Não Deve Existir – de Deserdados

Podemos afirmar que existem três níveis de preconceito que se sobrepuseram ao longo do tempo: preconceitos culturais, preconceitos das principais religiões históricas e preconceitos xenófobos.

Todos eles são produtos dos efeitos negativos das diferentes formas de identidade coletiva. Eles resultam das frustrações sofridas por indivíduos submetidos a vários traumas da vida social e são, regularmente, incentivados ou mesmo organizados por grupos que desejam ver a sociedade dividida.

Mas o racismo vai além dos preconceitos culturais. Ele possui uma natureza diferente.

O termo racismo aparece no início do século XX. Isso não significa que o fenômeno em si date daquele tempo, mas que essa consciência se dá nesse momento. O racismo se distingue dos preconceitos culturais pelo seu caráter ideológico.

Basicamente, o racismo é uma visão do mundo que se recusa a admitir a unidade da espécie humana e afirma que essa espécie é e sempre será dividida em raças superiores e inferiores. O mecanismo em ação no racismo se baseia na desconsideração da natureza das situações de desigualdade decorrentes das ações históricas de outros homens – da mesma espécie, afinal.

A ideologia racista é um produto da história da colonização das Américas, África, Ásia e Oceania, realizado desde o século XVI pelas burguesias ocidentais para seus próprios interesses.

A partir do século XIX, essa ideologia se cristalizou como justificativa e racionalização dos impérios coloniais existentes.

Enquanto os egípcios, persas, gregos e romanos consideravam a escravidão como um estado resultante da guerra e suas consequências, os europeus modernos, cujas sociedades e estados reivindicavam oficialmente o cristianismo, não podiam praticar a captura, compra, venda e exploração escrava de seres humanos sem uma ‘ideologia’ específica que tentasse explicar a contradição flagrante entre essas práticas e os valores espirituais formalmente proclamados.

No Ocidente, no final da Idade Média, os papas e os conselhos debateram a questão sobre se os africanos, os índios americanos, os asiáticos, etc, tinham uma alma ou não, como faziam há muito tempo em relação as mulheres.

Ora, se essas pessoas não têm alma, então estão fora da humanidade, e a escravidão pode ser ‘permitida’. Se, por outro lado, elas têm, a escravidão é permitida enquanto esses indivíduos estiverem fora da luz da “fé verdadeira”. E, melhor ainda, a escravidão pode ser apresentada como o meio para levá-los a essa ‘luz’.

Aqui no Brasil, um dos mais conhecidos historiadores brasileiros do início do século passado, Gilberto Freyre, pernambucano, descendente de portugueses, espanhóis e indígenas, caracterizou em seus livros a escravidão no Brasil enquanto uma relação ‘consensual’ entre senhores bondosos e escravos submissos.

O mito do bom senhor de Freyre, na verdade, tentava colocar as flagrantes contradições do escravismo como deslizes desimportantes que não tinham o poder de desconstruir aquilo que ele, o historiador, enxergava como harmonia entre exploradores e explorados naquele período. A famigerada e discutível miscigenação deveria ser um processo auxiliar – em tese – dentro do almejado processo de enriquecimento racial e cultural das civilizações e, por conta disto, deveria ter – também em tese – a capacidade de produzir sociedades democráticas e igualitárias.

Mas sabemos que no Brasil, historicamente, a miscigenação de raças NUNCA existiu como um processo voluntário e natural e, muito menos, enquanto resultado da união fraterna entre diferentes povos.

Ao contrário, constatamos que a dignidade e a honra da mulher negra foram cotidianamente violadas tanto no aspecto humano e moral quanto no sexual – quando era obrigada a servir seus patrões com “relações” mantidas pela força e pelo medo e onde as crianças eram concebidas sem pai, sobrevivendo como escravas – o que comprova vigorosamente que não existiu NENHUM tipo de engrandecimento racial ou cultural de civilização alguma neste período que, infelizmente, nos alcança até hoje – ainda que nos mesmos e em outros aspectos e em muitos grupos sociais.

É urgente que não confundamos a desfiguração da história de um povo através de violência sexual – ou de qualquer outro tipo de brutalidade – com “democracia racial” (igualdade entre raças), pois onde não existe possibilidade de escolha não existe liberdade.

O mesmo Freyre em seu livro Casa Grande e Senzala, declara:

Nenhuma casa-grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O folclore da nossa antiga zona de engenhos de cana e de fazendas de café, quando se refere a rapaz donzelo, é sempre em tom de debique: para levar o maricas ao ridículo. O que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido com raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Femeeiro. Deflorador de mocinhas. E que não tardasse a emprenhar negras, aumentando o rebanho e o capital paternos”.

Na minha experiência pessoal lembro-me muito bem de alguns tios, primos e primas que, nas minhas infância e adolescência, eram servidos pelas diversas pessoas que, em suas casas, trabalhavam sem receber nenhum tipo de salário. Observava esta realidade quando passava férias no interior do país e não conseguia entender porque é que uma priminha com a minha idade precisava gritar pelo nome da filha da empregada que, durante o dia, brincava com a gente, para que esta se levantasse da sua cama, onde já bastante cansada dormia, e lhe alcançasse um copo d’água na cozinha ali ao lado.

Recordo também de perceber o machucado no pescoço de uma jovem empregada (ou seria escrava?) provocado por uma violência sexual cometida pelo titio pervertido ou pelo priminho, filho deste,  nas suas primeiras investidas na área – e sob a conveniente cegueira da titia e de todos os demais familiares.

Muito comum ainda hoje, em diversas regiões do Brasil, este tipo de “escambo” ser tratado como justo e natural. Ou seja: estas “ajudantes domésticas” nada mais são do que escravas contemporâneas vivendo dentro de uma cínica sociedade que ainda prefere se enxergar justa. E míope.

Hoje compreendo que esta mentalidade é o que leva muita gente a odiar e, por conta disto, lutar contra as políticas que defendem os mínimos direitos desta e das demais sofridas camadas de nossa sociedade.

E é essa mesma gente que hoje acha lindo ver “sua doméstica” trajando um asséptico uniforme branco enquanto serve os patrões – ainda que todas as suas demais roupas sejam simples e surradas.

E que também acha normal que suas babás cuidem com enorme devoção de suas crianças enquanto as delas são largadas aos cuidados de sabe-se lá quem – isto quando não ficam entregues à própria sorte ou, o que é mais comum, ao próprio azar.

Afinal, para grande parte destas impiedosas pessoas que podem pagar por esta preciosa força de trabalho, nada mais natural do que servir-se à exaustão de quem não tem outros meios ou condições de sobreviver de outra maneira. Por enquanto.

E, para finalizar, interessante comentar que segundo o estranhíssimo – para dizer o mínimo – livro Não Somos Racistas, de Ali Kamel (Ali Ahamad Kamel Ali Harfouch), atual diretor geral de jornalismo da TV Globo, devemos todos acreditar que “No Brasil, não há barreiras legais contra etnias ou grupos…. o traço dominante de nosso povo é a convivência pacífica, intensa e harmoniosa entre pessoas de todas as cores. Nossa miscigenação é a maior prova disso.”

Ainda que este senhor tenha nascido na Bahia e seja de origem síria (seu pai e avô materno são imigrantes muçulmanos), e ainda considerando que o preconceito contra os nordestinos tenha raízes no racismo, principalmente porque mulatos, negros e descendentes de índios integram significativa parte da população das regiões norte/nordeste – ainda assim – a odiosa comparação destes com os imigrantes europeus brancos que se fixaram no sul e no sudeste do país sustenta uma postura cega e descabida que se registra na tentativa obtusa de encobrir chocantes diferenças.

É bem possível, também, que a negação da realidade racista em nosso país se origine, acima de tudo, no sofrimento pessoalmente experimentado por quem tanto necessita esconder dilacerante dor.

Isto talvez nos auxilie entender tamanha falta de lucidez.

O fato é que, infelizmente, alguns psiquismos muitas vezes reagem assim. Desgraçadamente assim.

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