SOBRE O DIREITO DE FRAQUEJAR

Imagem Movimento Céu Estrelado 1

“Medo de ter, medo de perder.
Cada um tem os seus
E todos tem alguns.
Suando frio, as mãos geladas,
Coração dispara até sufocar.

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos.
Homem que nada teme
É homem que nada ama.”

In: Medo – de Pitty 

 

 

Perdi uma querida amiga poucos dias atrás. Estávamos afastadas há mais de um ano por tolas questões que nem sequer importavam mais. Nem a ela nem a mim. Alguns meses antes de falecer, já combalida por uma doença que preferiu esconder daqueles que lhe eram próximos, me escreveu pedindo desculpas pelo nosso distanciamento. Sentíamos saudade da nossa amizade e isto ficou evidente naquela curta e afetuosa troca de mensagens. Respondi-lhe que nada havia para ser desculpado, embora estranhasse o teor da mensagem. Só depois entendi tratar-se de um registro de partida na qual não pude me despedir.

Foi em seu velório que fiquei sabendo que, mesmo diante do flagrante avanço da doença, ela decidira não mudar sua vida ou mesmo diminuir o ritmo de trabalho, ao mesmo tempo em que relatava sua fé e confiança no sucesso dos tratamentos aos quais se submetia.

Era como se a dor não fosse dela. Nem suas trágicas vicissitudes. Guardou de todos os graves percalços – até que não foi mais possível esconder.

Demonstrando confiança e otimismo extremados, penso que ela perdeu uma grande oportunidade de aquietar seu coração e buscar, sem medos, o cuidado que tanto precisava, dentro do momento profundo e precioso que é no qual se desvela o temor mais íntimo e solitário que alguém pode experimentar: a possibilidade de morrer e de, finalmente, entender-se existencialmente solitário. Como somos todos no final.

Sua bela figura que, aviltada pelos processos quimioterápicos – ainda que camuflados sob seu lindo e cativante sorriso além de sua potente racionalização – parecia tentar sustentar a aparência de uma força que, provavelmente, já se esvaia.

Esta impressão me fez recordar a história de uma famosa ex-modelo e atriz que durante sua luta contra o câncer, que durou quase três anos, gravou alguns programas que apresentava para que seu público ‘não percebesse’ sua ausência. Ainda que já experimentasse uma série de manifestações da doença, incluindo as físicas, ela aparentemente nunca foi aconselhada a abandonar esta frágil representação de si mesma. Sua doença era tão patente que apenas isto já teria sido o suficiente para que fosse desaconselhada a permanecer numa tarefa desta complexidade.

Mas ninguém a ajudou. E, assim, ela morreu como se a morte não fosse dela.

Lembrei-me também de um político e ministro brasileiro falecido em 1998.

Este homem muito me impressionou quando, acometido por uma gravíssima inflamação pulmonar desenvolvida a partir de uma bactéria inalada através do ar-condicionado de seu gabinete, apresentava-se nos expedientes e entrevistas coletivas carregando um tubo de oxigênio que, vez por outra, publicamente inalava. Como se fosse esta uma ‘atividade’ banal.

Tive, também, vários pacientes que ficavam verdadeiramente mortificados quando, por exemplo, sofriam um acidente que, de alguma forma, os incapacitava. Sentiam vergonha da fragilidade (passageira ou duradoura) que os acometia e faziam absolutamente tudo para esconder a angústia de sentirem-se um ‘peso’ que necessitava de cuidados alheios.

Outra paciente assim que descobriu um câncer no seio decidiu rapidamente retirá-lo e, em menos de 20 dias, o fez. Porque ‘não tinha tempo para desperdiçar’, ‘tinha muito o que fazer’, ‘filhos e marido para cuidar’, tentava explicar. Tão rápido que quase ninguém soube ou acompanhou o episódio. Tirou o tumor, mas não resolveu o conflito de base que, evidentemente, desembocou em problemas mais complexos e dramáticos que, ainda hoje, passados cinco anos, busca tratar.

A pior coisa que fazemos com nossas vidas não é camuflarmos o que temos de ‘ruim’, mas, principalmente, escondermos tudo o que de bom trazemos e que também é feito de dor, de medos, de ternura, de generosidade, arrebatamento, de aflições, de carinho e amor.

Não conceber isto é não nos aceitarmos como somos nos impondo reedições tolas de gestos medíocres e empobrecidos que nos reduzem a figuras patéticas. Tudo para passarmos em “branco”, para sermos “normais”, para parecermos “iguais”, para não chamarmos a atenção em relação àquilo que temos de mais humano e, portanto, mais verdadeiro.

Se minha amiga tivesse exercido o direito de sentir a dor e o medo que experimentou; se não tivesse temido julgamentos acerca do que percebia como ‘fraqueza’; se não se preocupasse com nada disto, quem sabe, não teria partido de uma maneira mais serena? Com menos sofrimento e dor?

Se a atriz tivesse mandado tudo às favas enquanto tratava de ser simplesmente feliz? E se o ministro tivesse largados suas ‘obrigações’ escolhendo morrer num leito cercado de paz, placidamente deitado e próximo dos seus? Com alguma sorte, reconfortado por gratas memórias?

Se reconhecessem em si próprios a necessidade de serem percebidos e compreendidos em sua mais pura e verdadeira dimensão, certamente teriam ajudado os demais a prestarem o socorro que tanto necessitavam.

Porque não há solidão maior do que aquela representada pela renúncia revelada no momento em que não nos deixamos tocar pelo que nos fere ou aflige.

Somos animais vulneráveis. E a negação desta fragilidade vem da cegueira e da rejeição do óbvio: chegamos ao mundo inacabados e incapazes para fazer uma porção de coisas – e isto nos torna dependentes dos outros. E é por isto que passamos boa parte da vida consolidando nosso ser, crescendo e amadurecendo antes do nosso inevitável desaparecimento. A negação desta vulnerabilidade nos deixa isolados dentro de uma falsa fortaleza.

E o que a força não pode, a fragilidade pode. Posto ser ela uma presença que não ameaça ninguém. E só desativando as reações de medo e de desconfiança é que poderemos nos ligar e nos conectar com o mundo e com nós mesmos.

Para saber como ser vulnerável basta não ocultar o medo e ter coragem de pedir ajuda. E atingir tal plenitude é um dos principais fatores capazes de nos tornar mais resistentes e fortes. Prontos para viver plenamente. E para morrer.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “SOBRE O DIREITO DE FRAQUEJAR

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s