O ESPELHO ONDE NÃO ME RECONHEÇO

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“Eu sou maior do que era antes.
Estou melhor do que era ontem.
Eu sou filho do mistério e do silêncio,
Somente o tempo vai me revelar quem sou
.”

In: Maior – Dani Black

 

 

Se você olhar direitinho e com bastante atenção, vai descobrir coisas incríveis, e muitas vezes perturbadoras, a seu respeito – justamente examinando tudo aquilo que você pensa sobre as pessoas que lhe cercam.

Talvez venha a sofrer um bocado quando estes óculos, acomodando uma imagem mais nítida no fundo de sua retina, lhe fizerem enxergar que quase sempre você não demonstra com honestidade o que sente, o que pensa e o que faz quando ninguém está observando.

Enxergamos nos outros o que tememos ver em nós mesmos. Portanto, desvalorizar as pessoas que nos ‘incomodam’ pode nos deixar ‘melhor’. Aparentemente.

A projeção é um fenômeno fascinante que, infelizmente, não nos ensinam na escola. 

É uma transferência involuntária do nosso próprio comportamento inconsciente para outros. Por conta disto é que nos parece que essas ‘qualidades’ realmente existem nas outras pessoas e não na gente. Quando temos ansiedade diante das nossas emoções ou partes inaceitáveis ​​de nossa personalidade, atribuímos – como mecanismo de defesa – essas ‘qualidades’ a objetos externos e/ou pessoas. Quando temos pouca tolerância para com os outros, por exemplo, é provável que atribuamos a sensação da nossa própria inferioridade a eles. 

E, claro, há sempre um “gancho” que nos convida à este exercício projetivo. 

Alguma sombra ou suposta ‘imperfeição’ em outras pessoas pode ativar algum aspecto sombrio ou oculto de nós mesmos que requer nossa atenção. Então, o que quer que não possamos suportar a nosso respeito, nós projetamos em outras pessoas.

Simples assim.

Podemos pensar em termos de energia. Imagine ter uma centena de tomadas elétricas diversas em seu baú. Cada saída representa uma qualidade diferente. As qualidades que reconhecemos e abraçamos possuem interruptores sobre elas. Logo, encontram-se em segurança dentro de nós. 

Mas as qualidades que não estão equilibradas dentro da gente têm uma carga, digamos, desencapada. Então, quando nos aproximamos daqueles que possuem essas qualidades, estas se encaixam nestas nossas ‘tomadas abertas’. 

Por exemplo, se negarmos ou estamos desconfortáveis ​​com a raiva que sentimos, atrairemos pessoas irritadas para nossas vidas. Vamos suprimir nossos próprios sentimentos de raiva e julgar as pessoas que vemos com raiva. Uma vez que nos enganamos sobre nossos próprios sentimentos internos, a única maneira de encará-los é observando-os em outros.

Reclamamos instintivamente de nossas próprias projeções negativas. É mais fácil examinar aquilo que paradoxalmente nos atrai do que o que repelimos. 

Se eu me ofender com sua arrogância, é porque não estou compreendendo a minha própria arrogância. Esta arrogância que demonstro sem me dar conta. Se eu me ofender com a sua, vou precisar olhar atentamente para todas as áreas da minha vida e me fazer estas perguntas: quando eu fui arrogante? Estou sendo arrogante agora? 

E eu não respondo a essas perguntas sem me olhar realmente, ou sem perguntar aos outros se eles já experimentaram o meu ser arrogante. O ato de julgar alguém é arrogante, então, obviamente, todos nós temos a capacidade de ser arrogantes. Se eu acolher minha própria arrogância, não ficarei chateado com a dos outros. Posso notar isso, mas isso não me afetará. A minha saída de arrogância terá um interruptor. É somente quando você estiver mentindo para si mesmo ou odiando algum aspecto seu que você terá espaço para receber a carga emocional do comportamento de outra pessoa. Irá se misturar à ela. Não terá o menor discernimento para avaliar quem quer que seja.

Assim, parece razoável afirmarmos que costumamos projetar nossas próprias deficiências nos outros, reclamando do que deveríamos confessar a nós mesmos. Logo, quando julgamos os outros, estamos, na verdade, evitando nosso próprio julgamento.

Se você constantemente se depara com pensamentos negativos, você vai confrontar as pessoas ao seu redor – verbal, emocional e fisicamente – ou vai focar esta energia em si mesmo, de maneira inconsciente, desconstruindo alguma área de sua própria vida. O que você faz e o que você diz não é uma coincidência, não é acidental. Aliás, nada é ‘acidental’  nesta vida que criamos. Neste mundo holográfico, todo mundo é você e você estará sempre falando consigo  e sobre si mesmo.

E você saberia dizer se quando nos percebemos negativamente teremos mais probabilidade de ver outras pessoas da mesma forma negativa? 

Uma recente pesquisa realizada no Canadá (coordenada pela Universidade de Alberta, em Edmonton) deu conta de que uma pessoa assolada por algum sentimento negativo (raiva, no caso) estaria mais propensa a enxergar o outro como estando com este mesmo sentimento. Esta pesquisa também apontou que uma pessoa avaliada como ‘desonesta’ revelaria uma forte tendência de acreditar que os outros seriam mais desonestos que ela. Em contrapartida, aqueles que avaliavam os outros como desonestos também se achavam sempre mais honestos que estes.

Ou seja, quando as pessoas são levadas a acreditar que têm um traço negativo , elas ficam mais propensas a ver esse traço negativo em outros. E ainda mais: ao fazê-lo, elas ficam menos propensas a pensar que possuem esta mesma característica.

O que significa que ao ver a outra pessoa de maneira desfavorável muitos passam a ter uma espécie de cegueira em relação àquela característica dentro de si.

Isso é consistente com a pesquisa mostrando que quando a nossa autoestima está ameaçada (como quando nos dizem que somos pouco atraentes), é provável que prefiramos degradar os outros no lugar de cuidarmos de nós mesmos.

Isto faz algum sentido pra você?

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