QUANDO NÃO É AMOR

Imagem Movimento Coração Ferido

“Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em que esbarro toda hora
No espelho casual;
É feita de sombra e tanta luz,
De tanta lama e tanta cruz,
Que acha tudo natural.

In: Essa Mulher – de Ana Terra 

Me impressiona um bocado a capacidade que algumas pessoas adquirem no decorrer da vida e que as torna tão capazes de suportarem dores, aflições e desesperos.

Mulheres que, de uma maneira geral, parecem que são talhadas para isto. Veja bem: “parecem”. Pois o que ocorre, na verdade, é que aprendem desde a infância a ser demasiadamente tolerantes, compreensivas e continentes. Isto, em grande medida, é a base da incômoda e impressionante ‘submissão feminina’.

E para que serve esta herança?

Para manter o status quo socialmente preestabelecido, onde ‘família’ é para ser ‘isto’ mesmo. Uma rua sem saída, E esta visão ainda se encontra muito cristalizada, como num sistema fechado que ninguém questiona. 

Não é à toa que nossos dicionários registram SISTEMA enquanto: “1. um conjunto de princípios verdadeiros ou falsos, donde se deduzem conclusões coordenadas entre si, sobre as quais se estabelece uma doutrina, opinião ou teoria. 2. Corpo de normas ou regras, entrelaçadas numa concatenação lógica e, pelo menos, verossímil, formando um todo harmônico. 3. Conjunto ou combinação de coisas ou partes de modo a formarem um todo complexo ou unitário: Sistema de canais. 4. Qualquer conjunto ou série de membros ou elementos correlacionadosSistema de força. ”

Logo, é possível perceber que todas estas são “construções” humanas e, portanto, absolutamente falíveis. Certo?

Ora, se a família, enquanto uma instituição histórica e socialmente produzida, veio em nome de manter os indivíduos exatamente dentro daquele sistema de crenças e valores defendidos por uma ideologia dominante, para isto, evidentemente, ela precisou desenhar uma representação ideal de si própria.

E como deve ser um (bom) casamento? Quem manda e quem obedece? Que atitudes precisam ser cegamente reproduzidas para que todos decorem o que se pode e, principalmente, o que não se pode fazer? Quais regras devem ser impostas para que a herança seja mantida dentro dos muros litigiosos daquele grupo familiar – independente dos verdadeiros laços de afeto e amizade?

Outro casamento? Nem pensar. Homem infiel? Passível de compreensão. Mulher infiel? Impossível admitir.

De qualquer forma, homem (ainda) pode matar a mulher com machadadas, com sete tiros no rosto ou estrangulada, esquartejada, tanto faz. Os atenuantes são históricos e socialmente tolerados.

Homem tem mais força, tem a sanha assassina. Não quer ser contrariado. Então, pode.

Mulher é toda feita de amor. Doce, permissiva, algumas vezes muda, surda e cega. Então, não pode.

Existe maneira mais maniqueísta de se enxergar a correlação de forças entre seres humanos? Pode haver um jogo tão repleto de erros quanto este?

Não é isto o que você deseja que seus filhos reproduzam em suas vidas, certo? Ou seria este exato viés que você  ‘ingenuamente’ ensina a eles? 

Conheço histórias recentes dando conta de homens que abandonaram suas esposas justamente no momento mais difícil da vida destas: ou quando um filho estava doente, ou quando ela mesma se encontrava enferma. E, ainda assim, são eles aceitos e compreendidos pelos filhos e, principalmente, por suas filhas.

Três delas sempre me chamaram a atenção.

Numa, o pai deixou a mulher assim que percebeu que ela era portadora de um transtorno mental. Este aprofundou-se assim que ela teve o terceiro filho do casal. Sim, o terceiro! E ele não titubeou em abandonar os quatro à própria sorte, mudando-se de cidade e afastando-se de todos os parentes e conhecidos. Depois de muitos anos, meses após o falecimento da mãe, uma das filhas conseguiu reencontrá-lo com sua nova mulher e seus novos filhos e, atualmente, todos se reúnem em datas festivas e parecem se dar muito bem.

Noutra curiosa família, o pai abandonou a mãe com seus cinco filhos e foi viver com outra mulher. Nunca deu qualquer assistência à esposa da qual jamais oficialmente se separou temendo, muito provavelmente, a necessidade de dividir os bens. Mas manteve algum contato amistoso com os herdeiros, seguindo com sua vida numa aparente e surpreendente paz. A relação entre os irmãos nunca foi tranquila pois estes se dividiam nas opiniões sobre o progenitor. Quando a mãe faleceu, houve ainda algumas discussões sobre divisões de heranças e coisas afins. No final, o apartamento onde a mãe residia com uma filha foi vendido e o homem ainda exigiu a metade do valor sem se importar com as necessidades dos filhos. Mesmo assim, duas das filhas ainda o defendem e afirmam que ele seguiu sendo um pai presente – o que todos sabem não ser verdade.

Outra história fala de um homem que abandonou a mulher e seus oito filhos e fugiu para uma pequena cidade no exterior onde viveu coisas impensáveis para um homem cheio de responsabilidades e dependentes, como ser zelador de um mosteiro. A mulher precisou virar-se sozinha com a ajuda da família e dos filhos mais velhos sem poder esperar do marido qualquer tipo de auxílio. Muitos anos depois (creio que mais de vinte) ele, já bastante combalido pelos excessos praticados nesta aventura, foi resgatado pelas filhas que, durante todos estes anos, o visitavam periodicamente sem nunca esboçarem qualquer tipo de crítica à nenhuma de suas ações. Este homem ainda tentou viver e ser “cuidado” pela ex-mulher – da qual também jamais se divorciou – que não aceitou viver esta esdrúxula situação ainda que as filhas achassem tudo muito “natural”.

Do ponto de vista das mulheres, histórias envolvendo ausência de críticas ao comportamento masculino, ou porque é sempre tido como aceitável ou porque acreditam piamente que ‘não se condena homens nas suas decisões’, são escandalosamente fartas e se sobrepõem de maneira inacreditável às críticas ferozes e contundentes que as mesmas fazem ao comportamento feminino de uma maneira geral.

Como na recente e conhecida história da jovem que foi estuprada pelo noivo da melhor amiga de quem seria, inclusive, madrinha de casamento. A amiga não só se recusou a acreditar nas evidências físicas (como presença de esperma, hematomas, etc., comprovados em exame de corpo de delito), como afastou-se da vítima, casou-se com o criminoso, ainda que ele tenha sido condenado a sete anos de prisão algumas semanas depois da cerimônia.

Existe história mais emblemática do que essa?

Sim, existe. Uma porção delas. Infelizmente.

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