A ETERNA VÍTIMA

Imagem Movimento Buraco sem Fim.gif

“Neste grande, imenso, pet shop
A cultura é um sabão.
Artigo de fim de estoque,
Aproveite a ocasião.
Mundo mundo mundo cão,
Mundo mundo cão.
Ser verdadeiro nesse mundo é difícil,
Eu acho que são os ossos do ofício.

In: Mundo Cão – de Zeca Baleiro

As sanguessugas são animais invertebrados e hermafroditos que têm uma enorme diversidade morfológica. Existem mais de 600 espécies delas. Todas são carnívoras ou hematófagas sugadoras. As carnívoras alimentam-se do sangue das suas vítimas, podendo ingerir uma quantidade 500 vezes superior que seu próprio volume corporal.

Ao aderir ao corpo do ser vivo de que se alimenta secreta um anticoagulante que leva o sangue a circular sem estancar prolongando, assim, a hemorragia. Tem uma mucosa bucal equipada com dentes que usa para cortar a pele de suas vítimas, além de vasodilatadores e um anestésico local para evitar que o animal atingido perceba sua presença.

Se ao ler esta descrição você lembrou-se de alguns seres aparentemente humanos, não se assuste. Muitos são ou agem assim mesmo, feito verdadeiras sanguessugas.

A maior parte destes indivíduos sugadores parece muito legal. Geralmente são muito simpáticos, sorridentes e de boa lábia. Expressam-se com simplicidade e aparentam continuamente precisar de alguma coisa – embora finjam tentar esconder tais “necessidades”. São fontes inesgotáveis de aflições e apuros e criam vínculos onde se colocam como receptores – jamais como doadores.

Um buraco sem fundo, em outras palavras.

São aquelas criaturas que lhe veem comprando algo e, imediatamente, arrematam com um: “Nossa, que bárbaro! Pena que nunca vou poder ter nada igual…”- ao mesmo tempo em que você jura ter captado um triste olhar marejado – o que, invariavelmente, lhe faz sentir-se a pessoa mais miserável do mundo.

Numa divisão de despesas, demoram muito para ’simular’ que desejam participar da conta, como se não tivessem entendido a demanda e, demonstrando uma consternação que não sentem, rapidamente recolhem o braço quando alguém os salva com um “deixa que hoje eu pago!” fingindo não saber que este “hoje” será sempre reiterado.

Os sanguessugas, por pensarem exclusivamente nas suas próprias necessidades, sabem perfeitamente contar histórias melancólicas e desafortunadas: infância difícil, problemas de famílias, falta de amor, de carinho e de dinheiro (esta é infalível); muita labuta e pouco retorno; ausência de reconhecimento e experiências com injustiças, enfim, todas as lamúrias que fazem parte da ladainha que, sutilmente, vão repetindo e repercutindo nos corações dos incautos que, maquiavelicamente envolvidos, se transformam em inocentes e preferidas presas.

Duas amiguinhas de minha filha, ainda na infância, viviam apreciando as roupas e os sapatos que ela possuía. Até que uma delas contou que desde que o pai fora dispensado da universidade onde lecionava, nunca mais havia ganhado um par de sapatos sequer.

Foi o suficiente para que eu, dias depois, na minha ingênua credulidade, promovesse um pequeno bazar de doação com as roupas que todos em casa julgavam desnecessárias. Combinamos de dizer às meninas que esta era uma prática familiar muito comum e, no final, saíram ambas muito contentes carregando pares de tênis, sapatos e sandálias, além de diversas roupas de crianças e adultos.

Feliz por estar ensinando um pouco sobre solidariedade para meus filhos, senti-me muito satisfeita até que, no mês seguinte, descobri que as duas meninas haviam sido enviadas para passar o período de férias com uma tia na Alemanha ao mesmo tempo em que os pais, sorrateiramente, mudavam-se do prédio deixando, para trás, uma dívida de nove meses de aluguel fora as taxas condominiais.

A proprietária do apartamento precisou arcar com o rombo uma vez que aceitara alugar o apartamento apenas com a garantia de um depósito caução que, posteriormente, descobriu que já havia sido resgatado. Explicou que também se comovera com a história daquela família tão simpática, cuja mãe aparentava um profundo zelo e cujo pai, professor universitário, batalhando por um futuro melhor para as filhas, conseguira matriculá-las “de favor” em uma escola alemã próxima dali.

Tudo mentira!

A locadora constatou que o casal mantivera a mesma prática em todos os imóveis anteriormente alugados e que, por conta disso, ambos tinham nomes sujos na praça.

Então, no lugar de ensinar sobre a importância da solidariedade dentro das relações humanas, passei a refletir, junto aos meus atônitos filhos, sobre a necessidade de nos acautelarmos em relação às pessoas que, exageradamente parecem “simpáticas, boas, coitadas e vítimas demais”.

Estes seres, insidiosamente, apropriam-se da boa vontade alheia como se esta existisse apenas para servi-los. Suas vítimas transformam-se em ‘muletas’ que, quase sempre constrangidas, sentem-se coagidas a manter a farsa e a doença – da qual efetivamente acabam participando.

São criaturas tóxicas que, no final, atacam a autoestima e dignidade dos demais indivíduos de boa fé e, mirando naquilo que estes trazem de melhor, como a fé na humanidade, são capazes de, além de manipulá-los, deixá-los física e moralmente muito doentes.

Portanto, muito cuidado. Gente fraca demais, vítima demais, coitada demais, não merece pena. Exige cautela redobrada diante de uma eventual aproximação e, em muitos casos, tratamento – psicológico ou penal.

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