CASADA COM UM PSICOPATA (da série “DEPOIMENTOS”)

Imagem Movimento Tapas na Cara

“E aí
Eu comecei a cometer loucura,
Era um verdadeiro inferno,
Uma tortura
O que eu sofria
Por aquele amor.
Milhões de diabinhos martelando
O meu pobre coração que agonizando
Já não podia mais de tanta dor.”

In: Loucura – de Lupicínio Rodrigues

 

 

 

O Depoimento

“Fui casada com um psicopata que não só não aceitava o diagnóstico (que nunca buscou) como também era inteligente o suficiente para disfarçar os sintomas, fingindo perceber coisas que não enxergava ou sentir o que não era capaz de sequer identificar.

Desde o dia em que nos conhecemos achei-o um homem bastante interessante e singular. Atraente, charmoso e muito inteligente, era versado em temas que muito me cativavam, como alimentação saudável, músicas de todas as épocas e filmes inesquecíveis. Ele, que era um pouco mais velho do que eu, surpreendentemente lembrava-se de todas as coisas que me marcaram.

No dia em que passamos uma tarde relembrando jingles antigos e propagandas de TV’s da minha infância, rindo como dois adolescentes, concluí ter encontrado o homem mais incrível do mundo. O ‘homem da minha vida’

Empolgada, nosso namoro disparou da atração intelectual para uma paixão avassaladora. Em quatro meses estávamos morando juntos e em menos de um ano, oficialmente casados.

Esta sequência frenética de acontecimentos, somada a minha atividade profissional muito absorvente como assistente social e uma família cheia de problemas, provavelmente foi uma das razões que me fizeram não enxergar direito aquele homem com quem decidira me casar.

Os compromissos sociais sempre pareciam muito difíceis para ele, mas eu acreditava que isto se devia a uma introspecção que eu, até então, considerava um aspecto um tanto ‘charmoso’ de sua personalidade.

Depois de um tempo, percebi que ele não sabia mesmo como se relacionar com estranhos e que não conseguia jamais encontrar as palavras certas nos momentos necessários, apesar do aparente desejo de conexão humana – que na verdade nem existia. Eu é que imaginava.

Como no primeiro dia em que fui a uma festa onde se encontrava toda sua família e ele fez com que sua irmã mais nova me apresentasse à todos enquanto ele contava viagens que nunca fez aos primos que detestava.

Aquilo me pareceu tão ofensivo que levei dias para falar sobre o ocorrido. Ele fingiu entender e despistou a humilhação alegando tratar-se de um equívoco, já que tinha ‘certeza’ de que eu me sentiria melhor com a irmã – e achei a desculpa tão bizarra que resolvi acreditar.

A partir de então comecei a perceber que havia muita coisa fora de foco. Umas vezes parecia extremamente calmo – ainda que em situações extremas como num acidente de carro – e, em outras, parecia totalmente descontrolado – como quando alguém lhe passou a frente em uma fila de mercado e ele gritou como se tivesse sido esfaqueado.

Uma das suas características emocionais que claramente se revelou, logo depois do casamento, foi uma total falta de remorso ou culpa. Isto explicava porque ele não se ressentia de enganar a irmã sobre valores referentes à herança dos pais que ele administrava assim como se negar a ajudar o irmão – que ele jurava amar – em algum momento de aperto.

Quando sua sobrinha, que ele dizia adorar, lhe pediu um empréstimo ele simplesmente mentiu sobre dificuldades financeiras que nunca teve e eu precisei ouvir isto calada sem que ele se incomodasse de descaradamente mentir diante de mim.

Fui olhando para aquele homem, cada vez mais estarrecida, como se fosse um completo e terrível desconhecido com o qual dormia todos os dias.

Com quem me casara, afinal? Onde havia ficado aquele homem sedutor e cativante que sabia músicas de cor e me levava a lugares fantásticos?

Íamos de mal à pior. De amante criativo, de uma hora para outra, transformou-se num homem apagado, sem nenhuma graça ou atrativos. Paramos de transar três meses depois.

As desculpas iam desde doenças que não existiam até inventar uma experiência de abuso durante a infância – que o irmão mais velho e uma tia categoricamente desmentiram.

De repente, seus pais passaram a serem responsáveis por todas as suas mazelas – presentes e passadas.

Até eu descobrir que ele mantinha relações com inúmeras mulheres durante as suas várias ‘viagens de negócios’,

Chorei, sofri e quase morri de desespero. Mas, antes de completarmos o segundo ano juntos, me desvencilhei fugindo pra bem longe, uma vez que ele ameaçara me matar caso o deixasse.

Hoje, passados quase dez anos, ainda sinto muitas dificuldades de me relacionar com homens. Confio desconfiando, acredito duvidando, nunca mais consegui ter serenidade dentro de uma relação.

O estrago feito por este casamento me fez muito mal e deixou marcas terríveis. Mas a terapia tem me ajudado a voltar a confiar nas pessoas e me devolvido a fé no amor. Sei que mereço ser amada e que um dia o serei.”

Minha Contribuição

Apesar de difícil, a primeira regra é aceitar o fato de que algumas pessoas literalmente não possuem uma consciência e que nem todas elas terão a aparência de um Charles Manson ou um serial killer descabelado e ensandecido. 

As características mais impressionantes do psicopata envolvem sua falta de empatia, sua insensibilidade, sua capacidade patológica de manipular e mentir, além da flagrante arrogância, resistência a mudanças, necessidade de domínio e a forte tendência à agressividade e à impulsividade. Mas tudo isto, via de regra, muito bem acobertado.

Portanto, é preciso muito cuidado para não entrar no seu jogo. A obscuridade é sua melhor ferramenta. Resista à tentação de competir com um psicopata sedutor, de parecer mais esperto(a) do que ele, de tentar psicanalisá-lo ou até mesmo de brincar com as contradições que percebe . Nunca esqueça do mais importante: proteger-se deste tipo de pessoa.

Lembre-se de que ela jamais terá a capacidade se ligar a você, ainda que no início de seus relacionamentos íntimos, ele pareça excitado e estimulado pelo(a) parceiro(a). Este estado pode ser facilmente confundido com ‘ligação’, paixão, etc. No entanto, isso se deve ao estágio desenvolvido pela dopamina do amor romântico que pode ser percebido como uma atração viciante. Uma vez que isso desaparece, o interesse também. Neste ponto, o psicopata costuma mostrar desdém pelo(a) parceiro(a).

Psicopatas muitas vezes demonstram um estilo cíclico previsível de relacionamentos íntimos. Eles idealizam, desvalorizam e depois descartam seus parceiros, sem se preocuparem com a dor que deixam para trás. Uma vez que eles nunca tiveram um vínculo real, sabem como se afastar do relacionamento com pouco ou nenhum desconforto. 

Aliás, muitos sentem-se felizes por se mudar para o próximo alvo.

Afinal, a psicopatia é uma desordem que dificulta ou impede a capacidade de sentir culpa e remorso. Devido a funções cerebrais ‘defeituosas’, existe uma tendência ao envolvimento em comportamentos imorais. Quando machucam alguém ou causam danos, normalmente não oferecerão desculpas. Sua postura será tipicamente a de expressar algo do tipo “Dane-se“, “Pode ir embora“, “Você é sensível demais!” ou “Por que você ainda está falando sobre isso? Já passou!

Não é incomum estas pessoas terem ‘vidas secretas’ ou duplas, pensamentos que alimentem ódios profundos ou um padrão consistente de comportamentos violentos. 

Desta forma, a melhor maneira de proteger-se de um psicopata é evitar ou recusar qualquer contato ou forma de comunicação. Psicólogos normalmente não recomendam isto, mas neste caso eu faço uma exceção muito deliberada. O único método verdadeiramente eficaz, se você está lidando com um psicopata que tenha identificado, é rejeitá-lo completamente em sua vida.

E partir para outra, assim que puder. E o mais rápido possível.

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