QUANDO NADA PARECE ESTAR NO LUGAR

Imagem Movimento Aspiral

“Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final;
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés…
E saudades fúteis,
Saudades frágeis,
Meros papéis.

In: Desencontro – de Chico Buarque

 

 

Quando um parceiro (ou parceira) parece ter se convertido em alguém que você não consegue mais reconhecer, é muito possível que uma linha invisível tenha sido atravessada sem que ninguém, até ali, tenha se dado conta.

É quando um trata o outro como inimigo ou mero desconhecido. Alguém que, no fundo, não importa; não faz a menor diferença.

Daí você se pergunta: O que faço agora? É uma coisa passageira? Uma crise permanenteHá algo muito mais complicado acontecendoÉ hora de arrumar as malas? Preciso atacar ou me defenderÉ momento de trabalharmos juntos esta relaçãoValerá a pena? Eu realmente desejo isto, afinal?

O fato é que não existem aqui regras rígidas e claras. Mas há uma necessidade danada de se prestar mais atenção nos próprios sentimentos e na própria intuição.

A única certeza é a de que uma parceria só pode ser saudável enquanto existirem duas pessoas sinceramente envolvidas. E que, como não há pessoas perfeitas, não há relações perfeitas também.

Eu não acredito que a longevidade de um relacionamento ou a falta de desentendimentos seja um incontestável indicador da sua saúde. As pessoas permanecem em relacionamentos por todos os tipos de boas e más razões e muitas ficam juntas por motivos muito diferentes do que os do seus parceiros.

Por outro lado, a maioria de nós nunca aprendeu a ter desentendimentos saudáveis ​​e, portanto, acabou acreditando que lutar pelo próprio ponto de vista ou se retirar da conversa, por exemplo, seriam as únicas alternativas.

Nunca entendeu que esse tipo limitado de luta ou resposta traz consigo duas consequências muito perigosas. Em primeiro lugar, desencadeia uma reação basicamente fisiológica e primitiva que faz nosso sangue fluir de tal forma que nos torna menos capazes de refletir. Em segundo lugar, coloca-nos num modo de resposta intempestiva onde vemos o nosso parceiro e o seu ponto de vista diferente como o antagonista com o qual estamos lutando e do qual precisamos fugir.

Desta forma, um dos momentos mais difíceis de uma relação amorosa invariavelmente se anuncia com frases do tipo: “Nossa, eu fiz isso?”, “Não foi minha intenção”, “Você entendeu tudo errado” ou “Eu não tinha a mínima ideia de que você se sentia assim” e, finalmente, “Você só enxerga coisas ruins em tudo o que eu falo, faço, penso e demonstro sentir”.

Isto faz algum sentido?

É mesmo possível, ou aceitável, que duas pessoas que partilham de alguns ou muitos aspectos de suas vidas possam simplesmente estranharem-se deste jeito?

Parece muito difícil, não?

E se tais expressões servem para salvaguardar algum sentimento que não se pretende ver exposto e apreciado – é porque existe o temor em relação ao que possa significar e ao seu poder devastador.

Afinal, alguma coisa ali, naquele momento, escapou. Algo se desvelou sem que ninguém quisesse abrir a porta tão cuidadosamente trancada. Alguma raiva e, quem sabe, muito rancor com tamanho zelo guardados. Um sentimento que, de tão reprimido, simplesmente explodiu – ainda que em cores tênues e pálidas. Mas que, definitivamente, apareceu e não há mais como apagar o vestígio.

Portanto, quem magoa, desconsidera, desqualifica e fere o parceiro “sem querer”, no fundo está, inconscientemente (ou não), confessando aquilo que tanto desejava esconder. E esta tentativa busca encobrir o que pode ser capaz de aniquilar a relação que parecia (e, muitas vezes, apenas parecia) estável e segura de si.

Mas uma coisa é certa: enquanto este sentimento não for identificado e esclarecido, a convivência permanecerá sendo uma aventura silenciosa e solitária – terreno mais que propício para que ressentimentos e ódios se aprofundem.

Porque entre companheiros verdadeiramente fraternos não pode existir o “sem querer” ou o “não faço ideia do que você sente”. Certo?

Afinal, este estranhamento sinaliza a condição de distanciamento progressivo que, fatalmente, desembocará na falência da convivência amorosa.

Quando os parceiros estiverem cada vez mais interessados em redecorar a casa, mudar os móveis de lugar, rearranjar os livros nas prateleiras, escutar músicas ou assistir filmes sozinhos (cada um no seu espaço individual), uma dimensão extremamente nociva para a relação se instalou sem que nenhum dos dois pareça ter se dado conta.

Esta fase pode indicar o início de um afastamento, de uma displicência ou de um desinteresse – que podem se tornar graduais e permanentes.

Aquela sensação de estar aprisionado entre grades invisíveis, a procura incessante de qualquer perspectiva na qual acreditar, a vontade de mudar os projetos, pintar os cabelos de verde, saltar de asa delta, fazer o curso de sânscrito, viajar para o Cazaquistão, sentir que tudo falta e nada preenche o buraco – são todos sinais de alerta indicando que algo vai indo mal, muito mal, acredite.

Não me sinto feliz com você“, “Não lhe desejo mais“, “Não lhe quero perto de mim“, “Quero ir embora daqui“, “Quero viver outras coisas”, “Não suporto mais“, “Deixe-me em paz“.

Acredite: seria muito mais produtivo e saudável procurar entender o que existe por detrás destes desabafos do que varrê-los para baixo do tapete praguejando um “que coisa mais insana e descabida!” ou “Para que mexer nisso agora?

Melhor ainda seria decodificar estes indícios como a confissão de que daquele jeito que está não é possível continuar.

E não é!

Uma vez que aqui se expressa uma inegável e evidente – para quem quiser ver – realidade:

“— Se continuarmos deste modo, entraremos naquele círculo vicioso de críticas veladas, agressões mútuas, silêncios incômodos, ausência de desejo, sentimentos de aversão e de monotonia insustentáveis desaguando na hostilidade e raiva que tanto tememos. ”

Proveitoso seria que todos considerassem seriamente estas expressões, ainda que disfarçadas sob o manto da normalidade que todos tentam desesperadamente imprimir à suas vidas. E dessem um tempo. Simples como deveria ser.

Distanciar-se do outro muitas vezes (para não dizer na absoluta maioria delas) é sinal de sanidade e vontade de transformar o que é tóxico em alimento salutar.

Afinal, ninguém consegue enxergar os detalhes de uma bela pintura se mantiver o nariz encostado na tela, concorda? Para se ter uma compreensão da mensagem do trabalho, ver seus detalhes mais significativos, é necessário dar alguns passos para trás. Manter certa distância. E o coração tranquilo.

E se ainda houver alguma beleza sob o rescaldo dos incontáveis incêndios, que muitos, equivocadamente, acreditam que conseguiriam apagar com o insuficiente sopro da indiferença, então persistirá esperança de renovar o amor.

E, desta maneira, encontrar não o mesmo velho e conhecido amor. Mas um novo que, edificado sobre os escombros do que foi ultrapassado, seja capaz de recriar maneiras e modos de ser e de produzir uma melhor intimidade. Se ainda existir a possibilidade de crescer junto, existirá também a condição de se (re) erguer uma fértil e promissora relação.

Se acontecer um retorno, não poderá ser um retorno de fato. Será uma experiência nova envolvendo duas pessoas renovadas e, portanto, diferentes “daquelas”.

Pois só se muda uma relação quando alteramos nossa rota interna e passamos a perceber o outro e a experimentar nossos sentimentos de maneira diversa. E permitir-se isso não é tarefa fácil. Mas absolutamente possível – pra quem quer. 

Preste bastante atenção nisso: PARA QUEM HONESTAMENTE DESEJA.

E, daí, atingir a felicidade de (re) encontrar um novo amor e não um arremedo do velho.

 E se nada disso der certo, respirar fundo, seguir em frente e deixar que sigam. Viver e deixar que vivam. Pura e simplesmente. E isto também, com toda a certeza do mundo, é amor.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s