O AMOR É A FORÇA MAIS SUTIL DO MUNDO (por CAROLINE CABRAL)

Carol África 1Ó, Deus do céu da África do sul,
Do céu azul da África do sul.
Tornai vermelho todo sangue azul,
Tornai vermelho todo sangue azul.

Senhor, irmão do Tupã, fazei
Com que o chicote seja por fim pendurado.
Revogai da intolerância a lei,
Devolvei o chão a quem do chão foi criado.”

In: Oração Pela Libertação da África do Sul – de Gilberto Gil

 

 

Com mais de um bilhão de habitantes, a África é oficialmente considerada o continente mais miserável do mundo. No entanto, e paradoxalmente, é o continente mais rico também. Por que dizemos que a África é rica, mas os africanos são pobres? Quais são as causas desta pobreza? E como acabar com ela?

Diante de questões como estas, a jornalista Caroline Cabral esteve recentemente em Uganda para participar de uma reunião de jornalistas de diversos países na capital Kampala, junto ao escritório da Unicef que atende crianças desamparadas daquela região.

A partir daí escreveu um texto superlativo e comovente que só pessoas sensíveis são capazes de produzir.

Ah! Ela é também minha filha e sou uma mãe muito orgulhosa, claro.

O texto, a seguir.

O amor é a força mais sutil do mundo.

“Olhamo-nos por um bom tempo enquanto ela cantava e dançava uma música sobre borboletas que voam alto, alto, alto (seus bracinhos repetiam o bater das asas). Não falamos a mesma língua, mas dominamos a linguagem que nos conecta com olhares profundos e sorrisos imensos, vastos, capazes de abraçar o mundo.

Espiamo-nos por um bom tempo, reconhecendo o que havia de mais belo na outra. Tímida, ela se aproximou com um passinho. Sorri. Deu então outro passinho. Consenti novamente. Até que criou coragem para tocar a primeira mulher branca que lhe cruzou o caminho. O clique capturou este momento que vai durar infinitamente dentro de mim. Mas escrevo para falar de outra coisa: o que eu vim fazer em Uganda, na África.

É bastante frustrante não saber explicar o que estou fazendo em Uganda com a UNICEF.

Serei honesta: eu não conseguia – e talvez ainda não consiga – transmitir o real significado do projeto e da viagem. Complicadíssimo assinar uma sentença dessas enquanto jornalista. Lido com palavras o tempo inteiro. Quando elas fogem de mim me vejo abrindo a boca incapaz de emitir sons; um grunhido sequer. Penso em começar um post e fracasso ao constatar que nada traduz o universo interior que me contém. Fico vulnerável.

Sinto-me uma eterna estagiária a serviço dos meus textos: nunca pareço boa o bastante pra eles.

Cheguei a Kampala, capital de Uganda, no domingo. Aqui conheci jornalistas extraordinários que fazem um trabalho fantástico cobrindo temas relativos à Primeira Infância – período que vai da gestação aos 8 anos de idade e é determinante na formação de QUALQUER ser humano. Pequenos e grandes gestos nessa época da vida farão com que a criança exerça, ou não, todo seu potencial na fase adulta.

Independente da sua atual capacidade de aprendizado, garanto que você nunca mais aprenderá tanto quanto aprendeu nessa época de crescimento e formação. Crianças são esponjas, absorvem absolutamente tudo que lhes rodeia.

Então, a convite do ICFJ Anywere, com apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e da UNICEF Uganda, comecei um trabalho sobre Primeira Infância há quatro meses. Descrição da tarefa? Cobrir o tema de maneira acessível para nossas leitoras, transmitir a mensagem e impactar pessoas. Publiquei matérias na Revista AnaMaria (desde meditação para crianças – amo  – até a importância do aleitamento materno exclusivo e, também, do nutrir filhos com AMOR) e me dediquei a entender um mundo até então desconhecido.

Inocente de tudo, percebo agora que desconhecia, também, a urgência dessa pauta. Se quisermos construir uma sociedade melhor para nossos filhos vamos precisar começar pelas crianças de hoje. Não é um trabalho para amanhã, é agora!

As ricas conversas com representantes da UNICEF, jornalistas, médicos, políticos e colegas de outros países abriram um portal na minha mente que dificilmente fechará: existe um mundo que a gente desconhece. São vários deles e os chamo de realidades paralelas. Mas basta que uma delas se incline – um pouquinho só – e as linhas paralelas se tocam. É aí que o impensável passa a ser real, o estranho nos parece íntimo e a gente se perde num mar de pensamentos que trazem dor e alívio.

A dor é óbvia, anunciada: miséria é um produto desumano. Crianças não deveriam pagar altos preços pelas escolhas da sociedade (e não só dos pais, está bem? é responsabilidade do meio criar todas as novas vidas que o habitam, não só de pai e mãe).

Dói constatar que miséria tem cor, endereço, nome, idade, gênero… Mas a despeito das grandes dores sofridas por seus pequenos corpinhos em formação, a miséria é capaz de sorrir pra uma estranha.

Meu alívio vem da compreensão de que existe muita gente que se importa com o destino da humanidade. Que enxerga além de números, do lucro e das vendas. Pessoas reais, que trabalham para pagar as contas e são capazes de alcançar bocas famintas, olhos sedentos por um encontro e almas carentes de amor. Desamor é a pior praga recente e esses seres humanos estão provando que há um antídoto. Você pode, sim, ser uma jornalista incrível, seguir as diretrizes da sua empresa e casar com a visão romântica da profissão que, de véu e grinalda, lhe promete: ‘papel e caneta na mão e você pode mudar o mundo’.

Vim aprender com essas pessoas sobre uma realidade que foge de tudo que já vi. Nada tenho a ensinar aqui, sou mera aprendiz da vida que se vive. Conheci pessoas esmagadas por estatísticas cruéis de incidência de HIV, desnutrição, morte infantil, gravidez indesejada e outras legendas nada agradáveis. Sufocadas por elas, mulheres e crianças buscam suas forças na mãe terra para gritar o que sai como um sussurro exausto: “eu existo”.

E é porque elas existem que estamos aqui. Para que essas roucas vozes sejam notadas, crianças escondidas sejam vistas e o futuro pinte uma tela mais harmoniosa, como é o céu africano ao entardecer, tingido de laranja-cor-da-terra. Intenso, enche nossos olhos de esperança e, ao se despedir, deseja bons ventos para o dia que há de nascer amanhã. Nossas crianças são o amanhã, tratemos de cuidar delas hoje!”

 

Minha Nota: Pouco se fala, mas o continente Africano é um dos mais ricos do mundo em termos de recursos naturais.

A África possui 30% das reservas minerais do planeta, assim como 80% do Coltan (fundamental para a fabricação de todos os eletrônicos do mundo, incluindo os aparelhos celulares), 90% da platina, 50% dos diamantes, 40% do ouro, 11% da produção mundial de petróleo, 30% das reservas de bauxita e muitos outros como cobre, urânio, fósforo, carvão, algodão, cacau, gás, etc.

O que é fácil compreender é que a Europa quer saber das riquezas da África, mas não do seu povo desvalido por conta de tamanha expropriação. E, como afirmou a pesquisadora Fabiana Fogafnoli, especialista em assuntos ligados ao continente africano:

A cobiça das grandes empresas sobre as riquezas do continente é a raiz de todos os problemas. É mais fácil tirar petróleo de um país como a Nigéria, assolado por uma guerra civil, do que onde há regras e leis’’.

E quem, afinal, “alimenta” estas guerras que geram tantas desgraças e desterro a todo o povo africano?

 

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