O MAL NÃO PODE SER BANALIZADO

Imagem Movimento Bomba 2

“Pensem nas crianças
Mudas telepáticas…
Pensem nas meninas
Cegas inexatas…
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas…,
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas.

In: Rosa de Hiroshima – de Vinícius de Moraes

Nunca, no Brasil, se viu tanta perversidade tomando forma e sendo livremente exercida e, o que é pior, amplamente tolerada.

Seres desumanizados destruindo seres humanos como se fosse algo banal.

O homem perverso parece ter encontrado aqui um lugar.

E como entender o que isto significa se não reconhecermos que estamos a um passo de vivermos absolutamente sob o domínio deste mal?

Para tanto, resolvi apresentar-lhes uma história (nada) exemplar.

Trata-se da trajetória de um homem aparentemente insuspeito que, por muitos anos, enganou a todos, incluindo a própria família.

O corretor Bernard Madoff, que até 2008 era considerado uma lenda no ‘coração’ de Wall Street e a encarnação do ‘sonho americano’, foi o protagonista de um dos maiores escândalos envolvendo um esquema multibilionário e fraudulento de pirâmide financeira conhecida como Ponzi.

Ele atraía investidores oferecendo níveis de rentabilidade que chegavam a 1% ao mês, o que significava mais de 10% de retorno no investimento por ano. Depois, utilizava o dinheiro dos novos investidores para pagar clientes antigos que queriam resgatar os recursos aplicados.

Nunca revelou seus métodos de operação no mercado ou como ele gerava tamanho lucro para os investidores que representava. “É uma estratégia do meu negócio. Não posso dar muitos detalhes”, dizia ele.

Começou como salva-vidas em Long Island onde criou seu primeiro fundo de investimento aos 22 anos de idade. Era conhecido pela ‘intuição’, ‘rapidez’, e também pela ‘ética’ dentro da tal comunidade financeira americana. Chegou ao ponto de se tornar o poderoso presidente da Nasdaq, a ‘prestigiosa’ bolsa de ações de tecnologia, entre 1990 a 1991.

Líder da comunidade judaica de Nova York, o “grande” financeiro foi muito ativo em atividades de caridade e culturais enquanto, na verdade, recebia através de seu fundo (Bernard Madoff Investment Securities) recursos para gerenciar uma mentira que alcançou a assombrosa cifra de 65 bilhões de dólares.

Muitas pessoas se suicidaram depois da descoberta da fraude (incluindo seu filho mais velho), muita gente adoeceu (seu filho mais novo morreu de câncer 6 anos depois) e todos os envolvidos perderam tudo.

No meio de todo este lamaçal – compreensivelmente estranho para nós, meros mortais – ainda foram revelados documentos que comprovaram que este fraudador também promovia orgias e encontros regados a drogas e prostituição, sendo que um dos envolvidos nos bacanais manteve um caso com Madoff por muitos anos.

Condenado a 150 anos de prisão, levou-se em consideração que este homem não terá jamais a capacidade de mudar. Nunca. Nada pode tirá-lo deste quadro de maldade voraz nem ativar dentro dele alguma réstia de consciência, remorso ou arrependimento. Simplesmente porque ele tornou-se desprovido destas habilidades. Elas jamais serão parte do seu repertório.

Uma vez carrasco, sempre carrasco.

Porque o narcisista perverso é uma pessoa completamente desprovida de empatia e, portanto, precisa ser aniquilado e retirado do lugar que para si usurpou para que os seres humanos possam sobreviver em busca de alguma paz.

São como os nazistas. Pensem no que eles fizeram para obter o que desejavam e quantas pessoas os defenderam. Apesar do inominável Holocausto. Pensem nos nazistas. Mas também pensem nos jovens de Hiroshima e em quem foi capaz de sobre eles atirar uma Bomba Atômica. Pensem em quem fabrica o Napalm que cola na pele para incendiar pessoas como fizeram no Vietnã. E fazem hoje na Síria. Pensem nas crianças palestinas da Faixa de Gaza queimadas pelo Fósforo Branco lançado pelo Exército de Israel. E pensem em quem ganha dinheiro vendendo armas que precisam de guerras para serem ‘úteis’. Pensem muito nisto antes que seja tarde demais para todos nós.

Porque o carrasco não tem personalidade. Ele forja máscaras com as alterações necessárias, muitas vezes, dotadas de inteligência maquiavélica, permitindo-lhes desenvolver armadilhas muito sutis.

Importante que se tome cuidado de sua aparência atraente. O narcisista perverso é um vampiro que suga a substância vital da vítima para destruí-la.

Mas, afinal, como reconhecer um perverso?

A palavra perverso vem do Latim PERVERTERE, levar ao caminho errado, corromper. De PER, totalmente e de VERTERE, virar. Perversão é outra palavra derivada da mesma raiz.

A tradução mais literal seria “colocar de cabeça para baixo” ou “fazer o mal“. No caso do ‘malfeitor’, envolve uma situação que ele impõe aos outros para alcançar outra situação que lhe satisfaz. 

A expressão narcisista perversa é a personificação de desvios associados a um conjunto de sintomas diretamente designados como perversão narcisista que foi descrita, pela primeira vez, pelo psiquiatra e psicanalista francês Paul-Claude Racamier em 1986. Entre agonia psíquica, negação psicótica e perversão narcisista, ele esclarece:

Perversão narcisista é uma espécie de luta interna que se organiza a fim de retirar das próprias costas contradições pessoais projetando-as nos outros que se transformarão em vítimas. Ela não só é acompanhada pela ausência de remorso, mas também por um profundo prazer.

Geralmente envolve indivíduos em posições de poder que crescem (por conta de circunstâncias sociais/financeiras) dentro desta condição e que se acostumaram a menosprezar os outros e, desta forma, aprenderam a evitar qualquer conflito interno, concentrando nos demais a responsabilidade sobre o que praticam.

Pessoas forjadas não na realidade da vida, mas na fantasia dos privilégios incomuns à maioria.

O manipulador é um enganador que faz de você um dependente que ele, no fundo, despreza.

Tudo é culpa do outro. E estabelece relacionamentos baseados no ‘poder’ e na força bruta, desconfiança e dominação e terror.

Os perversos consideram o outro como um objeto útil e, portanto, utilizável. Desnecessário e, portanto, descartável. Então, eles têm de dominar ou destruir qualquer um que se apresente como uma ameaça ao seu arbítrio.

Eles projetam toda a sua violência interna sobre quem poderia desmascarar ou fazê-los parecer fracos. O narcisista sente um perverso prazer em demolir qualquer rastro possível de segurança na identidade da vítima.

A sede de PODER (o poder absoluto dentro da sua fantasia) é a força motriz de todos os pervertidos narcisistas que não hesitam em usar o outro. Eles também estão dispostos a mentir sem escrúpulos para salvar sua imagem, para disfarçar os fatos, para esconder suas falhas e fraquezas.

Você deve saber que o narcisista perverso é alguém que usa a relação profissional, familiar, acadêmica ou amorosa para subjugar o outro. Podem ser encontrados entre chefes de Estado, políticos, militares, juízes, médicos, professores, religiosos, gestores, ou seja, dentro de numa lista enorme de atividades humanas que envolvem algum tipo de ‘poder’. Porque para esmagar alguém é preciso criar algum tipo de vínculo desvinculado de qualquer afeto, já que ele não se afeta de verdade.

Ou você já viu um governador morando na mesma vila que seus eleitores? Um prefeito entrando na mesma sala de consulta do orador da sua cidade? Filhos de deputados que estudam nas escolas que eles ajudam a tornar precárias?

Afinal, o outro é ‘menos’, é ‘inferior’, é ‘nada’ diante deste tipo de personalidade.

A perversão é o mais claro certificado do que entendemos como ódio. E apenas numa sociedade fraterna ela não teria como despontar. Jamais.

O mecanismo inconsciente de perversão narcisista serve, portanto, para reproduzir a imagem do outro integrada as minhas necessidades.

O outro existe para me servir, para ser por mim e para mim, porque sou superior e único diante dele.”

A realização lógica desta ‘manobra’, que é em grande parte consciente, justifica via categorização e designação (“as crianças, os pobres, os negros, os gays, os que detesto porque não são como eu”, etc.) elucida o ‘ideário’ do narcisista em tais linhas tortuosas.

Claramente, a perversão narcisista é uma tentativa de compensar a sensação de estar numa existência sem sentido. Logo, o comportamento perverso é assim tomado:

“Vou usar o outro para conseguir o que quero e o que tenho direito porque sou maior e melhor e vou fazer com que minha vítima se sinta culpada, inferior, submissa, sem forças ou esperanças e, acima de tudo, sem forças ou desejo de obter sua independência.”

Depois disto, pensem com quantos Madoff convivemos sem ao menos reconhecê-los e como isto pode ser perigoso para todos nós.

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