POR QUE É TÃO DIFÍCIL IR EMBORA?

Imagem Movimento Cais 2“Mas vá embora 
Antes que a dor machuque mais meu coração,

Antes que eu morra me humilhando de paixão
E me ajoelhe te implorando pra ficar comigo

Não diz mais nada.
A dor é minha eu me aguento pode crer.
Mesmo que eu tenha que chorar
Pra aprender como esquecer você.”

In: Separação – de Paulo Sérgio Valle

 

Por que a dor de uma separação é sempre tão pungente?

O sofrimento associado aos rompimentos amorosos é, por vezes, desprezado e estranhamente subestimado.

Ainda que muitos considerem separações como “parte da vida”; ainda que pesquisas apontem que um entre cada três casais acaba se separando – e é muito possível que os dois restantes se equilibrem entre a teimosia e a frustração – ainda assim, cada separação continua sendo uma situação extremamente difícil de atravessar.

Desilusão, rancor, mágoa, culpa, melancolia, enfim, uma infinidade de emoções confusas nos invade e nos sobrecarrega a ponto de não enxergarmos mais nenhuma luz ou alguma réstia de equilíbrio.

É importante não evitar nenhum desses sentimentos. É fundamental entender que, por um tempo, não seremos aquela pessoa bacana, alegre e cheia de iniciativas.

A dor é uma espécie de portal pelo qual todos terão de passar a fim de alcançar algum nível de serenidade. E o primeiro passo, para tanto, é acolher todas as emoções incômodas entendendo que são – todas elas – pequenas partes de nós ali desveladas.

Então, aceite não ser bom (ou boa) por um tempo. E dê-se o tempo do silêncio, do não-falar, do não-fazer. E do não-parecer.

Muitos de nós, no entanto, no afã de nos livrarmos rapidamente das lembranças que teimam em nos perseguir, procuramos esquecer a angústia persistente que parece não ter mais fim, inventando atividades, ocupações e uma série de projetos que sabemos que não irão vingar.

Eu mesma, poucos dias após o final de um relacionamento, resolvi entrar num grupo de meditação. No dia seguinte, me inscrevi numa academia de ginástica e contratei um personal trainer no mesmo local. Em seguida, procurei uma escola de música e iniciei aulas de violão, de leitura musical e de canto – com diferentes profissionais! Entrei numa trupe de pedaladas, num grupo de dança e num coral. Tudo ao mesmo tempo.

Resultado: de uma hora para outra, todos os meus momentos livres se entupiram de ocupações tão variadas quanto inconciliáveis. E isto incluía todos os horários do final de semana.

Quinze dias depois, fui finalmente alcançada por um verdadeiro esgotamento que me deixou de cama pelo restante do mês, ou seja, por vinte intermináveis dias.

Descobri que meus joelhos estavam inflamados, um calo vocal aparecera me deixando totalmente sem voz, uma lesão se instalara no meu punho me impedindo, inclusive, de pentear ou escovar os dentes com a mão direita.

Não dormia bem e me alimentava muito mal. Tive um princípio de gastrite e precisei recorrer a remédios para interromper o processo.

Enquanto procurava ‘não pensar’ no meu sofrimento, meu corpo tratou de sofrer sem que eu me desse conta.

Logo eu, tão ‘ciente’ dos mecanismos inconscientes, deixei que a inconsciência tomasse conta da minha vida.

O medo de pensar naquilo que me doía me fez imaginar que preencher a vida de maneira insana me livraria da dor.

Descobri, na pele, que quem evita os sentimentos faz o corpo adoecer. E isto me fez pensar muito nos motivos que tornam partir algo tão difícil.

Afinal, quantas vezes permanecemos num relacionamento a fim de repararmos feridas da infância quando, no fundo, continuamos nos ferindo nutrindo no outro – emocional e intelectualmente – aquilo que acreditamos garantir um ‘casulo’ seguro? Ainda que doloroso. Ainda que pouco amoroso?

É como se encontrássemos lucros neuróticos e inconscientes naquela relação.

Já parou para pensar o que pode levar tantos a manterem um casamento sem alegrias? 

Muitas vezes, o medo da solidão. Principalmente se tivermos experimentado, em algum momento de nossas vidas, aquele terrível gosto do abandono.

Quem não teme enfrentar o vácuo íntimo, capaz de criar ansiedade, além de tédio, aflição e desespero?

Prevalece, aí, o medo de repetir o passado. Ou melhor, a desesperança já vivida. Daí nega-se a possibilidade de tentar ser feliz de outro jeito. E com outra pessoa.

A mesma negação é frequentemente encontrada em casais desprovidos de algum tipo de sexualidade. É comum encontrar mulheres com medo de seus desejos e homens que tem medo do desejo das mulheres – porque é preciso dois para se realizar o amor.

Mas também é preciso dois para ser infeliz junto. 

Inegável concebermos que há uma ligação real entre parceiros que vivem em conflito, dividem problemas ou, mesmo, sobrevivem à falta de carinho na relação.

Estas pessoas, com alta fragilidade narcisista, possuem grande dificuldade em gerir qualquer tensão interna. Elas anulam o poder de suas emoções, razão pela qual sequer chegam a perceber que seus relacionamentos vão mal.

Os casais evitam as perguntas difíceis. Colocam a culpa na “situação”, no passado, no futuro, nos filhos, nas finanças, no Papa, quando, na verdade, sabem que qualquer pergunta mais honesta evocaria respostas capazes de colocar muitas coisas às claras. 

E perguntas certas têm o poder de desenterrar cadáveres insepultos e este é o risco pelo qual poucos ousam passar.

Até o dia em que não haja resposta melhor que não seja sair daquele lugar e ir embora. Entendendo que o outro é o objeto errado, o simples e inadequado depositário de uma raiva equivocadamente suportada.

É quando o vínculo de amor é confundido com uma relação de ódio e esta sensação vem com uma força formidável. E devastadora.

Logo, trancado em seu microcosmo, o casal não poderá mesmo conceber uma solução. Quando o inconsciente lidera o caminho, as razões objetivas para a separação não têm influência sobre nenhum dos dois. 

Considere o caso extremo da mulher que permanece com um parceiro abusivo. Algumas, de verdade, não reconhecem a ausência de amor naquela atitude que provoca dor.

Elas parecem precisar viver dentro daquele drama para se sentirem vivas. Muito provavelmente tanto sua mãe quanto sua avó deixaram mensagens implícitas que apontavam para a frágil convicção de que “o amor dói”, e elas inconscientemente reproduziram a mazela sem refletir ou questionar.

Ninguém deveria se sentir forçado a ficar quando não há mais qualquer satisfação ou prazer e cada um deveria aprender a sair no momento certo para não acabar odiando – e não há nada mais triste do que viver envenenado com a droga chamada ressentimento.

Por outro lado, para evitar arrependimentos e a dor do luto, a maioria (os famigerados “outros”) critica os que têm coragem de se separar. Esta estratégia evita a análise objetiva sobre as causas das separações – e das próprias resistências.

Resumidamente, podemos concluir que uma parceria chega ao fim quando o ‘contrato’ implícito que se criou caduca. Porém, nada impede a ‘negociação’ de termos para a configuração de uma nova aliança.

Quando existem perspectivas promissoras para que um novo casamento, dentro do velho, ocorra, é razoável que, antes da separação definitiva, os parceiros procurem uma pausa temporária. Uma chance de ver de maneira mais clara o que anda ocorrendo.

Um certo distanciamento é capaz de fazê-los sair do conflito, ponderar em voz baixa para, assim a certa distância, conceber a medida mais clara do compromisso que sentem ter um pelo outro, sabendo que estão ambos no mesmo processo.

Esta etapa permite que o casal encontre uma maneira mais branda de decidir (ou não) uma separação.

Entender que, como toda a patologia, precisamos nos desintoxicar da presença do outro – seja visual, seja em pensamento.

Desintoxicar para recuperar.

Durante este período, é interessante manter um diário de bordo. E assim que sentir que está prestes a se decidir, reler o que foi registrado durante este sofrido processo. Isto vai ajudar vocês passarem por este penoso ritual.

E que o reencontro se torne mais feliz – independente da decisão que tomarem.

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