COMO SEMEAR O ÓDIO

Imagem Movimento Raiva

“Histérica, histérica
Por sol, disritmia, por herança ou bruxaria
Histérica, histérica
Por droga, obsessão, por guaraná, religião
Histérica, histérica, histérica
E basta uma buzina pra eu perder o controle
Trincada, cocaína, como gaita de fole
E olho como procurando alguém que não conheço
E berro, e fumo, eu nunca esqueço
E sempre lembro e lembro…
Histérica, histérica…”

In: Histérica – de Oswaldo Montenegro

 

O principal resultado do ódio é a violência, porque só isso lhe dá continuidade. O ódio é como um apetite incontrolável, que parece nunca ficar saciado. É composto de raiva e rancor e porque sempre procura e sempre encontra uma razão para acender sua cruel chama mais uma vez.

Sem dúvida, trata-se de uma das paixões mais escravizadoras que os seres humanos são capazes de experimentar.

Coloquialmente as pessoas dizem “Você colhe o que você semeia.” Normalmente, a este provérbio é dado um significado positivo. Mas a verdade é que isso se aplica tanto a coisas boas quanto ruins. Ou seja, se você semear amor, você pode ser capaz de colher o amor. Mas se você semear o ódio é muito provável que, além de recolher mais ódio, também receba seu subproduto hostil e predador: a violência cega e corrosiva.

Há alguns meses, atendendo ao simpático convite de uma amiga, fomos até o Cine Belas Artes, ali no finalzinho da famosa Avenida Paulista.

Tratava-se da estreia do filme Sobre Amigos, Amor e Vinho e o programa, confirmado em diversos portais e folhetos previamente distribuídos, indicava uma palestra com a participação de um renomado sommelier assim como uma degustação de vinhos. Tudo, é claro, pelo valor de um ingresso normal.

Por conta da distribuição de taças de vinho a entrada foi um pouco mais lenta do que o normal. Mas, àqueles que não desejassem beber bastava a porta normal, sem qualquer problema. A sessão estava programada para as 21 horas e o acesso à ela teve início meia hora antes.

Enfim, sem maiores atropelos, nos sentamos e aguardamos o início da pequena explanação que seria acompanhada de alguns slides, por sinal, belíssimos além de bastante didáticos.

No entanto, e para surpresa da maioria ali presente, poucos minutos depois de iniciada a educada apresentação do palestrante, ouvimos um berro bem atrás de nossas cabeças:

Filme!!!! Eu vim aqui assistir filme!!!!

Dentre estupefatas e surpresas, dezenas de pessoas viraram suas cabeças para trás no intuito de entender o que acontecia e de onde vinha aquele estranho grunhido e, deste jeito, todos nos demos conta de que se tratava de um senhor de seus 60 anos, acompanhado de uma mulher, que continuou bradando em auto e audível tom sua insatisfação com a exposição.

Para maior espanto geral, ao mesmo tempo, levantaram-se mais algumas vozes que, aparentemente aproveitando o ensejo, engrossaram – em todos os sentidos – a gritaria:

– “Não vim aqui escutar idiotices! ”

Chega! Tenho uma adega em casa, entendo tudo de vinhos!

“Quem não entende que vá fazer um curso! ”

Filme! Filme! Queremos assistir filme!

“Tenho compromisso e não quero ouvir isto! “

Foi possível constatar que eram ao todo, e para nosso assombro, oito pessoas – três casais e duas mulheres – sendo que seis deles se localizavam bem do lado da gente. As duas senhoras em nossa mesma fileira e dois casais nas filas de trás.

Isto para esclarecer que a gritaria promovida por estas pessoas eclodiu diretamente em nossos ouvidos e nos dos demais que ali se acomodaram.

Consta que a sala 1 do cinema onde estreou a película tem capacidade para 300 pessoas. Descontando alguns assentos vazios, podemos imaginar que estivessem ali presentes cerca de 250 pessoas.

Pois foi exatamente nesta proporção que aconteceu o estranhíssimo episódio. Oito pessoas resolveram atrapalhar o divertimento das outras 242 que ali compareceram justamente para participar daquilo que, por algum motivo, essa minoria histérica alegava não ter tomado conhecimento. E decidiram que, então, ninguém ali teria direito de aproveitar a experiência para a qual a sessão se destinava.

Desta forma, em plena noite de um sábado que prometia ser divertido e ameno, uma peleja tomou conta daquela antes tranquila e convidativa sala de cinema, onde 242 pessoas tentavam explicar para 8 egoístas e insensatos fulanos que desejavam ouvir o especialista e que, para tanto, necessitavam de silêncio.

Mesmo diante da explicação da organizadora e de seu delicado pedido de desculpas, aquelas pessoas não desistiram e o resultado foi que, entre gritos histéricos dessas oito vozes que aparentemente não possuíam ouvidos para ouvir, pouco se aproveitou do que foi dito e todos saíram perdendo.

Mas o que lavou a alma de todos, sem a menor sombra de dúvidas, foi a resposta ouvida quando uma das histriônicas reclamantes – a mesma que rugiu possuir uma enorme adega em sua casa – vociferou, em meio a uma explicação, indagando se no final iria ganhar um diploma em enologia. Diante disto, alguém sugeriu que ela saísse ou ficasse quieta e ela replicou que ali ninguém ordenaria que ela se calasse. Neste momento, uma voz se sobressai entre tantas já bastante alteradas e diz:

“– Não, minha senhora. A senhora não vai calar-se porque é absolutamente histérica. E pessoas histéricas precisam de atenção. Mesmo que roubando, mesmo que incomodando todos os demais. Ainda que infernizando a vida alheia, pois gente assim não se incomoda com ninguém além de si mesma. A senhora não vai calar-se porque precisa provar para sua amiga que tem coragem, pois só assim consegue esconder sua profunda covardia. Pode gritar à vontade. Vamos, grite! Estaremos obrigatoriamente aqui para escutá-la!”

E, então, para comoção geral e irrestrita, foi possível perceber o tão almejado silêncio.

Quanto ao filme? Bem, uma história divertida e promissora sobre a possibilidade de transformar relações tóxicas em trocas mais saudáveis e compensadoras. No meu ponto de vista, não conseguiu atingir seu intento porque preferiu um final mais ao molde dos conto de fadas.

Mas nada disso arrancou de nossos rostos o sorriso de satisfação por termos conseguido silenciar uma minoria perturbada, truculenta e arrogante pronta para semear um ódio que, enfrentado, envergonhado se calou.

Saímos com a alma leve. Como deve ser a vida. Sempre.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “COMO SEMEAR O ÓDIO

  1. HELOISA LIMA , parabéns pelo seu sensacional texto e posicionamento sobre pessoas que relutam em serem mal educadas e covardes escondidas no escuro do cinema diante de uma plateia.
    Você lavou a nossa alma, uma empresa com 47 anos de tradição e excelência em atendimento que disponibilizou um profissional do mais alto nível apenas para enriquecer ainda mais o tema do filme “SOBRE AMIGOS, AMOR & VINHO”.
    Reitero aqui os nossos agradecimentos e sentimento de profunda indignação e asco a esse tipo de comportamento que ainda nos dias de hoje infelizmente podemos observar e ter o desprazer presenciar.
    Infelizmente não tivemos a “sacada” de gravar e compartilhar nas redes sociais o histerismo dessa minoria.
    Dá próxima vez celular na mão e “Share” assim quem sabe essa turminha de 8 aprende como se portar …
    Você foi brilhante HELOISA.
    Abraços Ana Luiza Bastos – Gerente Comercial da Loja Baccos

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