SIMPLICIDADE

Imagem Movimento Menino ao Vento

“São casas simples
Com cadeiras na calçada,
E na fachada
Escrito em cima que é um lar.
Pela varanda
Flores tristes e baldias,
Como a alegria
Que não tem onde encostar.
E aí me dá uma tristeza
No meu peito,
Feito um despeito
De eu não ter como lutar.
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente,
É gente humilde
Que vontade de chorar.”

In: Gente Humilde – de Vinícius de Moraes e Chico Buarque

  

Não sei como é pra você. Mas para mim, quando viajo, seja para onde for, a coisa que mais me encanta e comove, a ponto de me fazer vir lágrimas aos olhos, é admirar as pessoas simples em suas rotinas diárias, livres das parafernálias tecnológicas atuais.

Aliás, se me permite afirmar, é para esta simplicidade que se voltam as câmeras digitais com suas lentes de precisões milimétricas e seus megapixels que, no fundo, tentam apreender aquilo que a alma humana tem de mais fascinante e inviolável: a verdadeira e insubstituível simplicidade.

Pego-me pensando nessas coisas, todas as vezes que avisto uma imagem, dentre as recorrentes protagonizadas, por exemplo, pelo jogador Neymar, espalhadas em revistas e outdoors, ou em algum outro veículo comunicador (prefiro esta palavra no lugar de “veículo de comunicação” uma vez que comunicação subentende pessoas trocando ideias, conversando, o que, convenhamos, não é o caso).

Um menino simples que, por conta de alguma variável, provavelmente nada aleatória, alçou uma posição que precisava ser ocupada. Sim, porque a sociedade humana contemporânea necessita desses “heróis” etéreos e efêmeros, como a vida, para afirmá-la enquanto uma experiência extraordinária.

Pura balela.

Esses “astros” nada mais são do que meios para alavancar modismos, ideologias, propagandas e mais um monte de bobagem.

Neymar, seguindo o previsível e enfadonho enredo, vai percorrer o mesmo caminho dos demais astros (pré) fabricados. Vai ter três times inteiros de namoradas. Ou mais. Vai  ser obrigado a assumir filhos que não desejava ter. Vai engordar. Tornar-se empresário em outra área e, quem sabe, tentar a carreira política. Talvez grave um disco com sua voz desafinada (ídolos inventados parecem poder cantar desafinadamente). Talvez escreva um livro através de algum ghost writer (aqueles escritores que se prestam a escrever pelos outros) e, quem sabe, até consiga uma cadeira na Academia Brasileira de Letras onde, numa tarde fria, à semelhança do que ocorre na Academia Francesa, envergará um fardão verde escuro, com folhas bordadas em ouro, e vestirá um chapéu de veludo negro com plumas brancas e, desta forma, tomará um chazinho sem precisar nunca ter escrito uma mísera linha sequer.

E assim seguirá a vida cuja beleza continuará se perdendo por entre esses atalhos sombrios que a frieza da produção desumana de bens pouco duráveis inventa.

Por isso, vamos adquirindo “necessidades desnecessárias” a cada instante que, segundos depois, nos fazem perguntar como foi possível viver sem aquilo até então.  Vamos consumindo, de maneira obsessiva, itens totalmente dispensáveis sem nos darmos conta da loucura. E, deste jeito, nos afastando daquilo que possuímos de mais precioso e transcendental: a verdadeira simplicidade.

Senão, pense comigo: quando você vai para uma cidade diferente, ou visitar um local onde nunca esteve, você logo saca sua máquina para registrar alguns momentos marcantes, certo? O que você prefere? Fotografar shopping centers abarrotados de gente e fachadas de lojas de grifes fingindo que ali gastou horrores ou mirar aquelas pessoas sentadas em suas calçadas, pensando no nada e, simplesmente, sorrindo?

Aquela criança postada ao lado da linda floreira que cresce desorganizada no meio da praça ao invés daquele buquê de noiva produzido pela conhecida florista? Aquele homem recostado na cadeira de balanço carregando uma enternecedora expressão no lugar da jovem modelo e sua pose artificialmente composta?

Penso que é quando nos afastamos da simplicidade que ficamos verdadeiramente doentes. Quanto mais cheios de operações complexas que exigem uma atenção sobre-humana, mais desencontrados das coisas que nos são próprias ficamos. Quanto menos atenção podemos dar aos nossos sentidos próprios, menos paz teremos em nossos corações.

Por isso, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que é preciso reaprender a perceber as coisas com simplicidade.

Aprendi com minha mãe algumas práticas interessantes que só há pouco tempo percebi que faziam muito sentido para mim. Como manter, em casa, apenas o número de roupas de cama necessário para o uso, assim como cobertores e toalhas, panos de louça, copos, pratos, talheres. Em sua casa não havia nada daquilo que não precisava. Ou seja: não perdia tempo com o dispensável nem ocupava espaços com bobagens.

Logo, sobrava-lhe tempo para conversar com as pessoas e, principalmente, pensar sobre o que conversava; ler bons livros na paz de seu recolhimento cotidiano; pesquisar receitas com as quais nos contemplava nos almoços dominicais; ouvir as notícias e se atualizar constantemente; manter o espírito aguçadamente crítico em relação às coisas que lia, via ou ouvia, posto que lhe “sobrava” tempo pra reflexões profundas.

Tudo isso vai na contramão da rapidez patológica com a qual as coisas vêm e vão atualmente ou não?

O que hoje é “moderno” em pouquíssimo tempo será passado! E ultrapassados nos sentiremos se não tivermos o último iPhone ou o mais novo modelo de notebook. A maravilhosa câmera digital que adivinha nomes. O par de óculos capaz de enxergar o passado, o presente e – pasme- o futuro intergaláctico!!!! Não existe? Ora, isso é apenas uma insignificante questão de tempo. Ou timeline, quem sabe?

Ficaremos todos muito doentes nesta alucinada e enlouquecedora auto imposta missão de vivermos atualizados. Isso se não percebermos que atualizar-se está muito mais próximo do estar conectado ao próprio “self” (ou a si próprio) do que em qualquer outro tipo de tomada.

Minha última viagem produziu em mim uma necessidade muito grande de estar em silêncio já que, por vezes, a comunicação em um idioma que não é o seu cansa bastante o raciocínio. A experiência ajudou-me, também, a reabilitar algumas das simplicidades da minha vida que pareciam perdidas. Escrever de uma forma menos densa, deixando o pensamento simplesmente fluir, como agora faço, era uma delas.

Afinal, sou uma gotinha num oceano. E não quero ser mais do que isso. Apenas com alguma felicidade. E com toda a simplicidade que conseguir, com alguma sorte, recuperar.

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