O DEPLORÁVEL DIPLOMA DE ARROGÂNCIA

Imagem Movimento Diploma

“Se oriente, rapaz,
Pela constelação do Cruzeiro do Sul.
Se oriente, rapaz,
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece, 
Vê se não se esquece; 
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração.”

In: Oriente de Gilberto Gil

Semana passada, presenciei uma intrigante conversa envolvendo uma aluna da academia que frequento e o professor – um rapaz formado em Educação Física há 5 anos. A mulher exigia que ele esclarecesse minuciosamente dúvidas sobre alimentação, horários e frequência de exercícios parecendo desconhecer que outros alunos também necessitavam de sua assistência.

Ele, então, educadamente propôs que a mesma o procurasse para uma consulta particular e esta, muito ofendida, passou a reclamar do que chamou de “puro egoísmo” do orientador.

Neste momento, para surpresa da plateia, composta por atentos ouvidos, que agora se formava ao redor daquele curioso diálogo, o professor saiu-se com a seguinte colocação:

– Ok. Quer dizer, então, que você também acha que um médico ao ser consultado, em qualquer circunstância, deve fornecer suas orientações gratuitamente, sem nada cobrar pelo tempo e energia dispendidos nessa prática?

E a resposta veio de maneira rápida e acabada:

 – Oras, mas você não quer comparar seu atendimento com o de um médico que estudou anos, além de gastar muito dinheiro, para adquirir o que sabe, né? Não tem nem cabimento!

Diante disto ocorreu-me refletir sobre esta infeliz e obtusa ideia, exageradamente difundida em nossa sociedade, de que a medicina é uma prática exclusiva dos deuses que habitam um olimpo inalcançável.

Ficou famosa a frase cometida por um médico quando perguntado sobre o que sentia quando conseguia auxiliar na cura de um paciente. Aparentemente esquecendo-se do verbo “auxiliar” incluído na pergunta, respondeu o seguinte:

“Quando consigo curar um paciente com câncer e, assim, salvar-lhe a vida, sinto-me como um Deus. Tenho, então, que me beliscar para me perceber humano”.

Deste tipo de mentalidade é que se deriva grande parte das odiosas práticas como, por exemplo, as que apenas recentemente tornaram-se de conhecimento público – os abusos sofridos pelas jovens estudantes de medicina, perpetrados pelos seus próprios companheiros de turma e acobertados pelos dirigentes da academia. Ou as dos médicos que praticam graves delitos acobertados pelo cândido e inexpugnável branco de suas vestes.

Afinal, eles também podem mentir, matar, roubar e ludibriar como qualquer outro (quase) humano quando portador de desvios de personalidade ou de distúrbios mentais.

Segundo o dicionário Aurélio, arrogância (parente bem próximo do orgulho ostensivo) é o ato de atribuir a si mesmo, poder, direito ou privilégio. Veja bem: atribuir a si mesmo não significa possuir. Certo?

Acreditar que ostenta um poder quase sobrenatural em relação à vida é uma das fantasias muito perigosas que acometem não só os estudantes, mas, sobremaneira, os já formados há longa data.

As faculdades deveriam se preocupar em trabalhar com uma visão muito mais realista, além de humanista, na formação destes profissionais. Começando por esclarecer que a palavra medicina vem do latim ars medicinae (arte da medicina) porque, nos seus primórdios, esta ação de curar era concebida mais como arte do que técnica. Talvez por isto, medicus, em latim, designe tanto o artista médico quanto a pessoa que faz sortilégio/feitiçaria – que nada mais é do que o resultado da ação do feiticeiro que pratica magias ou bruxarias.

O que quer dizer que as mamães e os papais da “arte medicinal” nada mais são do que nossas injustiçadas bruxas e feiticeiras e suas infusões maravilhosas; nossos magos e suas incríveis alquimias; nossos milagreiros e benzedeiras sempre dispostos a receber os doentes, carentes e desprovidos com um gesto de carinho; nossos curandeiros e pajés com seus impressionantes rituais e mais uma porção de gente. Como a gente.

Então, doutores, não se esqueçam destas lições!

Vosso conhecimento advém das coisas simples da natureza e nada, absolutamente nada, além disso. Muitos, lá atrás, trabalharam exaustivamente para juntar experiências e saberes. Ervas, plantas, substâncias e princípios foram criados a partir da atenta e sensível observação humana em relação ao que é humano e este conjunto de conhecimento (que não foi criado por vocês e nem lhes pertence) jamais prescindirá do humano.

Lembrem-se de que onipotência, onisciência e arrogância geram incompetência, impaciência e preguiça. E este são sentimentos tolos e superficiais que invadem vossa profissão, além de muitas outras.

Sua prática não serve para nada se não houver alguém que desinfete seus instrumentos. Ou segure o seu bisturi na hora exata. Ou que o fabrique dentro das fábricas. Uma pessoa que limpe a sujeira das macas, já pensou se ela não existisse? Quem fabricasse o álcool, este fundamental coadjuvante? E o operário que maneja a máquina de onde saem os milhões de comprimidinhos que vocês receitam – como seria se ele simplesmente desistisse de produzi-los definitivamente? E a tinta da caneta com a qual você escreve sua receita, já pensou de onde ela vem ou como é fabricada? E se ela lhe faltasse? E se ninguém mais confeccionasse a folha de papel que registrou a última e preciosa descoberta que você não fez, mas que precisa estudar? Como sobreviveriam você e sua profissão?

Portanto, oriente-se, soldado!

Você é apenas uma peça a mais nesta complicada engrenagem e vale exatamente o mesmo que as demais.

Mire-se nos exemplos edificantes dos médicos que nem se parecem com um “doutor”, de tão iguais aos demais – como sabem e entendem ser. Aí reside a verdadeira sabedoria. É assim que alguém se torna imprescindível.

E como bem nos lembra o educador Luciano Castro Lima:

“A crítica à arrogância do ‘especialista’ é extensível à todas profissões – professor, treinador, economista, advogado, etc. Certamente cada uma em sua especificidade. A do médico, certamente, é achar que cura; mas há o outro extremo: o dos seres humanos que estão médicos e que se deprimem ante ao fracasso da morte do paciente, muitas vezes assassinado pela precariedade do sistema de saúde que considera a doença e o doente meras mercadorias”.

 

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