OS MEUS, OS SEUS E OS NOSSOS

Imagem Movimento Crianças 1

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa,
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa,
A vida é tão rara
.”

In: Paciência – de Lenine

Embora muitos de nós tenhamos percebido intuitivamente, agora existe uma ‘ciência’ por trás da afirmação de que “O amor é tudo o que você precisa”.

Um estudo longitudinal de 75 anos realizado  por pesquisadores de Harvard sugere que o amor é realmente fundamental para uma vida feliz e gratificante.

Ora – você vai pensar agora – grande novidade!

Mas acredite: enquanto o amor parece ser um atributo de valor universal, a definição dele em termos comportamentais pode se tornar um verdadeiro desafio. 

Como relatou o pesquisador principal do estudo de Harvard, Dr. George Eman Vaillant, sobre as descobertas de sua equipe, dois ingredientes essenciais ficaram comprovados na correlação com uma existência feliz: “Um é o amor. O outro é encontrar uma maneira de lidar com a vida que não afaste o amor “.

Parece simples. Mas definitivamente não é.

Muitos de nós, mesmo desejando viver uma paixão, enfrentamos inúmeros obstáculos para tomar atitudes que permitam que o amor flua livremente ao longo de nossas vidas e relacionamentos. Mas, afinal, por que dificultamos tanto as coisas neste sentido?

Porque, infelizmente, aprendemos muitas maneiras de nos defendermos contra o amor. Reproduzindo, por vezes, o desamor vivenciado em casa. Tendo medo de nos apegarmos ou nos entregarmos. Confiar, também, é uma outra dificuldade.

Mesmo diante da constatação de que podemos lutar para dar e receber amor com facilidade, abertura e honestidade.

Com o amor sendo tão intimamente ligado ao significado e à satisfação de nossas existências, é fundamental conceber o amor como uma ação ou série de ações que podemos tomar para nos aproximarmos das pessoas que valorizamos.

Uma história real:

Quando Caroline participou de um concurso onde seus responsáveis precisariam ser entrevistados, seus pais, há tempos separados, sem nenhum problema compareceram juntos. E, nesta época, encontravam-se já casados com outras pessoas.

Um dos coordenadores da avaliação dos jovens concorrentes comentou, posteriormente, que pesara na escolha o fato de todos os integrantes da comissão julgadora terem percebido, com indisfarçada admiração, que a consistência do respeito entre os pais mantinha-os em terreno amistoso e fraterno, não obstante o fato de estarem divorciados há mais de 8 anos.

A garota, hoje adulta, gosta de recontar esta história com certo orgulho, pois sabe que representou um inquestionável exemplo de que é absolutamente possível a convivência entre parceiros que mesmo abrindo mão do casamento não o fizeram em relação à amizade que, preservada, continuava a uni-los de maneira inequívoca.

Muita gente, ainda hoje, continua achando estranho todos comparecem juntos aos aeroportos, às festas de formatura e, por vezes, aos almoços em família.

O ex-marido, sua atual esposa e sua enteada fazem parte da família formada pela ex-esposa, seu atual marido e o filho deste, junto aos filhos que tiveram em comum.

E foi observando estas e outras experiências, também edificantes, que envolvem generosos bocados de tolerância misturados com abundantes porções de afeto genuíno e de valor inestimável, que desenvolvi uma tese que aqui exponho no sentido de propor uma reflexão acerca dos descaminhos que muitos experimentam na difícil experiência de retomar o rumo depois de uma separação.

Parágrafo único do único artigo possível para se alcançar uma convivência pacífica entre tantos ex, atuais e futuros: em uma nova constituição familiar ou cabem todos ou não cabe ninguém.

Porque aquele que alija um membro, seja por que motivo for, estará segregando também o parceiro que o escolheu.

Portanto, anote aí:

Se sua atual companheira ou seu companheiro, assim como os filhos (seus, dele ou dela), forem apartados de uma convivência familiar ou de algum evento desta ordem, aparte-se você também. Fique de mãos dadas com a pessoa que você escolheu e mantenha-a perto de si, junto com todos aqueles que fazem parte deste novo grupo familiar. Quem desejar a sua presença deverá fazer por merecê-la, requisitando e abrindo um confortável espaço para aqueles que agora convivem com você. E isto, com certeza, não pode tolerar nenhum tipo de negociação.

Conheci um homem muito rico, separado, que tinha cinco filhos sendo que três eram mulheres. Ou seja: dois homens e três mulheres para cuidar e sustentar além da ex-esposa. As jovens eram absolutamente fascinadas pelo pai e pelo que almejavam receber dele. Por outro lado, e supostamente, ele não sentia-se no direito de apaixonar-se por ninguém sob pena de ‘enlouquecer’ as moças, tão apegadas quanto exageradamente dependentes.

O problema é que este pretenso e egoísta amor servia como desculpa para recorrentes e sutis invasões no terreno onde o pai deveria estar ocupando o controle das próprias escolhas. Desta forma, engendravam quase imperceptíveis manobras que visavam sabotar toda possibilidade de êxito das eventuais relações que ousassem se anunciar. Agiam invariavelmente como esposas possessivas e ciumentas e o homem até se envaidecia com as demonstrações deste estranho e desmoderado ‘apreço’.

Outro caso envolvia uma mulher cujos filhos não admitiam que ela se relacionasse com ninguém depois de ter se separado do pai. Como eles moravam com este, negavam-se a conviver com o novo parceiro da mãe e só a visitavam com a condição de que ele não estivesse presente. A mãe submeteu-se à chantagem emocional em nome do que preferia chamar de amor materno e os filhos, vitoriosos, presenciavam a inevitável derrocada do casal. Tempos depois, o companheiro da mãe desistiu da relação alegando não suportar mais ser colocado à prova de maneira tão declarada.

Outras histórias também dão conta de mães e pais, candidatos a torturadores, manipulando filhos no sentido de tornar a vida do ex ou da ex um verdadeiro e quase insuportável martírio.

Também não faltam histórias para contar sobre alguns filhos que conseguem, muitas vezes por conta de seus próprios medos, somados aos dos pais, destruir relações promissoras em nome de preservar laços que já não têm a menor condição de serem refeitos, mesmo que cerzidos ou colados.

Pessoas sem limites carregam o DNA perfeito para tornarem-se manipuladores em potencial. E coitado daquele que se interpuser diante destes inflexíveis algozes.

O problema é que quem cede a exigências descabidas, inoportunas e impiedosas, participa da ‘doença’ que, muitas vezes, acomete os membros daquela família que já não existe em sua configuração original.

E se você não terma menor condição de controlar os desatinos de um(a) ex-parceiro(a) tem a obrigação de ensinar aos seus filhos uma sólida noção de limites e respeito. Ou isto ou nada. E não vale, mais uma vez, fazer barganhas neste terreno. Afinal, já decidimos, lá no parágrafo único, que ninguém deve deixar de ser acolhido, respeitado e bem tratado sob nenhuma circunstância, certo?

Portanto, filhos sem limites tornam-se abusadores ilimitados. O que quer dizer que se você permitir que seu/sua ex-companheiro(a) ou seu filho ditem normas, exijam condutas e estabeleçam regras tão exageradas quanto inapropriadas, estará, por sua conta, ajudando a edificar um intransponível muro capaz de impedir uma possível – desejável – (re)integração dentro deste novo arranjo familiar. Assim como dizimando o amálgama da solidariedade, da amizade e da confiança que tanto necessitamos.

Ou seja, todas as qualidades elencadas lá naquele primeiro exemplo – e que foram capazes de assegurar àquela sensível família laços de amor e de fraternidade que, seguramente, produziram pessoas  mais felizes e equilibradas – terão ido para o espaço sideral cujo endereço, lamento informar, não se encontra registrado em nenhum mapa local.

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