O USO DO CRACK NÃO É CAUSA. É CONSEQUÊNCIA.

Imagem Movimento Crack 1

“Onde hoje é tarja preta,
Lia-se frase otimista
E nela se acreditava,
Do cético ao humanista.
A ela todos se davam,
Amor de primeira vista.
Onde ontem era frase
Hoje é uma tarja na vista,
Hoje é uma tarja na vista.”

In: Tarja Cravada – de Sérgio Ricardo

Não é segredo que o crack e a famigerada “cracolândia” carregam um estranho e perturbador estigma. Enquanto o consumo de maconha, do álcool e da cocaína é tolerado e, muitas vezes, até incentivado em muitos círculos, o crack é considerado uma droga avassaladora, assim como era a heroína.

Portanto, o uso da cocaína em pó parece manter um elemento de glamour, presente e banalizado em diversos filmes de sucesso – principalmente os norte-americanos – posto que associado com a cultura das “elites” – de socialites aos comerciantes do Wall Street.

Em contrapartida, ainda que muitas pessoas acreditem que o crack seja uma droga devastadora, a maioria das afirmações sobre seu potencial de destruição revela-se falsa ou exagerada.

Segundo o neuropsiquiatra e pesquisador da Universidade Columbia, Dr. Carl Hart – autor também do livro High Price – a segmentação do crack em comunidades americanas negras provou-se mais fácil do que abordar preocupações mais graves como pobreza, desemprego e diminuição da ajuda federal para famílias em dificuldades. Logo, esta droga ganhou destaque em ambientes pobres e urbanos não porque tivesse uma força esmagadora, mas sim porque era uma fonte accessível de prazer para as comunidades privadas de recursos básicos. Se as pessoas tivessem alternativas produtivas em suas vidas, não escolheriam as drogas como forma de autodestruição.

E outro fato incontestável é que usuários frequentes desta droga específica são encontrados em todas as classes sociais.

Estudos realizados nos EUA revelaram que dentre os que admitiram usar cocaína 75% eram brancos, 15% negros e 10% hispânicos. Já em relação ao Crack, 52% brancos, 38% negros e 10% hispânicos.

Porém, a mesma pesquisa mostrou que 79% dentre 5.669 criminosos condenados eram negros, 10% hispânicos e apenas 10% eram brancos.

Algo estranho nesta equação, não?

Apesar disto, a sociedade norte-americana (e o resto da humanidade) seguiu acreditando que o consumo de cocaína e crack pelos afro-americanos continuava sendo uma ameaça à segurança da América branca.

Para o Dr. Hart, então, a mensagem era (e ainda é) de que os usuários de crack são irrecuperáveis e que se encontram, basicamente, entre pobres e negros. O principal resultado dessas imagens é fazer as pessoas acreditarem que o verdadeiro problema é o crack e que ele é que está fazendo as pessoas agirem tão mal.

Ora. Se o real transtorno é o crack, a solução é se livrar dele. Certo?

Para isto, então, basta convencer a todos de que tudo deve ser permitido para que tal ‘solução’ seja alcançada. Desta forma, pouco interessa questões como o desemprego, falta de formação profissional (ou de escolas), de condições de saúde, habitação, apoio governamental, etc. Basta você dizer que é necessário acabar com a droga na sociedade e está tudo resolvido.

Ninguém pergunta sobre as pessoas envolvidas, se estão amparadas, empregadas, em que condições vivem, se cometiam algum tipo de delito antes da adicção, etc.

Sobre a afirmação de que quem faz uso abusivo de drogas não tem força de vontade ou caráter, Dr. Hart observou:

Não há qualquer evidência científica que comprove isso. Outra coisa muito comum é dizer que o problema é genético, e para isto também não existe evidência científica. Há pessoas que são dependentes de drogas por causa de uma série de problemas psiquiátricos: depressão, ansiedade, esquizofrenia, etc. e esses problemas precisam ser tratados para se resolver a questão da dependência desta ou daquela droga. Mas a maioria das pessoas que tem problemas com drogas carece de toda sorte de habilidades para lidar com sua vida diária. E isto pode acontecer com os ricos também. São pessoas às quais não foram ensinadas algumas das mais básicas habilidades para lidar com o seu cotidiano como, simplesmente, ter responsabilidade. A verdade é que para essas pessoas, assim como para aquelas muito pobres, a coisa mais atraente é se drogar. E a satisfação que a droga proporciona passa a ser a grande e única fonte de prazer.”

Dr. Hart também nos lembra de que os problemas associados ao fato de que inúmeras destas pessoas venham de famílias disfuncionais, miseráveis, vivendo sob o clima de violência e desemprego, sem perspectiva de melhora ou de mudanças significativas para suas vidas, tudo isto, já existia no auge da chamada epidemia de uso do crack e continuam a atormentar as mesmas comunidades ainda hoje.

O que torna a cocaína crack mais potente não é a sua forma, mas o modo com o qual é consumida e a circunstância em que isto ocorre. No entanto as pessoas acham que ela é mais prejudicial potencialmente, assim como seus usuários são considerados mais perigosos.

Mesmo no apogeu da popularidade do crack, apenas de 10 a 20 por cento dos usuários se tornaram viciados – uma taxa semelhante à da cocaína e outras drogas.

Os usuários que se tornam dependentes são muito mais afetados por uma combinação de outros fatores, como a falta de reforços positivos, de estabilidade financeira e de algum tipo de rede social de apoio.

Hart afirma que a ideia de que o uso do crack pela primeira vez tenha o poder de tornar alguém definitivamente viciado ou violento é absolutamente irreal. Explica que a meia-vida de uma pedra de crack é de uma hora enquanto que a das anfetaminas e maconha pode durar até vinte e quatro horas.

Segundo ele, qualquer violência relacionada ao crack está mais estreitamente ligada ao comércio de drogas.

E sobre a ideia difundida de que o simples “diga não às drogas” tenha o poder de ser um contraponto as mesmas?

“Acreditar que se pode dizer não às drogas é uma grande estupidez, uma visão simplista e perigosa. Drogas de todo tipo sempre fizeram parte da história dos homens e eu não gostaria de viver num mundo sem drogas. Seria um mundo muito entediante, tenso, cheio de ansiedades e depressões. E é sempre bom lembrar que a maior parte das pessoas que usa drogas não abusa das drogas. Falar de um mundo livre de drogas é pura retórica política vazia.”

E sobre o uso medicinal da maconha? A maconha para uso medicinal foi legalizada em 29 estados americanos. Desde janeiro de 2014, a maconha para uso recreacional está legalizada em 8 estados. Chile, Uruguai, Holanda, Portugal, Espanha, Jamaica e Israel são alguns dos países onde o uso da maconha está liberado. E ela é bastante tolerada na Austrália, Canadá, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Bangladesh, Camboja, Coreia do Norte, Costa Rica, Ilhas Maldivas, Índia, Iraque, México, Nepal, Paquistão, Bélgica, Croácia, Estônia, Islândia, Itália, República Tcheca, Rússia, Suíça, Ucrânia. Nesses países o usuário praticamente não é incomodado.

Explica Hart:

“O interesse pela maconha medicinal tem crescido ano a ano nos Estados Unidos. Já se provou que a maconha tem efeitos benéficos em relação a vários problemas de saúde, como a perda do apetite nos casos de Aids, ou para redução da náusea provocada pela quimioterapia. A maconha também vem sendo usada para tratamento do estresse pós-traumático com sucesso. É claro que há outros medicamentos disponíveis para tratar desses problemas, mas a maconha deveria estar incluída entre as opções possíveis.”

Outro admirador do Professor Carl Hart, o brilhante pesquisador britânico, professor de neuropsicofarmacologia e especialista em abuso de drogas, Dr. David Nutt, conclui:

“O vício sempre tem um elemento social, e este é ampliado em sociedades com poucas opções de trabalho ou de outras formas de encontrar satisfação.”

E, então, como avaliar os resultados de pesquisas sobre o tema?

“Oitenta a 90 por cento das pessoas não são afetadas negativamente pelo uso de drogas, mas, na literatura científica, quase 100 por cento dos relatórios são negativos”, disse Hart. “Há um foco distorcido na’ patologia’. Nós, os cientistas, sabemos que teremos mais dinheiro se continuarmos dizendo aos governos que vamos resolver este ‘terrível problema’. A comunidade científica desempenha um papel desonroso na guerra contra as drogas”.

O próprio Carl Hart, entrevistado durante esta semana sobre a contestada operação policial deflagrada na área central de São Paulo, criticou veementemente a abordagem desumana e cruel planejada pela prefeitura desta cidade.

Finalmente, é importante frisar que a ideia sistematicamente difundida de que a dependência química é inevitável e perpétua mostra-se totalmente descabida e ABSURDA. A sociedade precisa entender isto, observar com muito cuidado o que se esconde por detrás destas conjecturas, assim como conceber a necessidade de oferecer oportunidades no lugar de estigmatizar usuários.

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