O VALOR DO SILÊNCIO

Imagem Movimento Rio Descendo Sob Sol

“Eu sou maior do que era antes.
Estou melhor do que era ontem.
Eu sou filho do mistério e do silêncio,
Somente o tempo vai me revelar quem sou.
As cores mudam,
As mudas crescem,
Quando se desnudam,
Quando não se esquecem.”

In: Maior – de Dani Black

 

 

Em um mundo de barulho e desordem, mencionar ‘silêncio’ pode parecer anacrônico. Para a maioria das pessoas o prazer e a vida parecem residir justamente na atividade agitada e ruidosa que, no fundo, é uma maneira de escaparmos de nós mesmos, especialmente das lembranças traumáticas e frustrantes. 

No entanto, em meio a esta realidade, o silêncio pode ser uma alternativa valiosa, na medida em que nos oferece a oportunidade de compreender melhor os acontecimentos que nos rodeiam. 

Ele muitas vezes nos assusta porque é tratado como uma ausência de ação da consciência. A mesma consciência que, atualmente, não é capaz de dar sentido às existências que preferem estar em conformidade com as tendências do momento a fim de tornarem-se anônimas em uma massa indiferenciada de seres humanos.

Os seres humanos fazem todos os esforços para não ver, não ouvir, não sentir e, para tanto, utilizam-se da ‘distração’ de si mesmos como forma de não olhar para dentro e descobrir tanto vazio e infelicidade.

Nossa sociedade bem que poderia ser dividido em dois tipos de pessoas: aquelas que dão voz a cada pensamento e aquelas que, naturalmente quietas, dão espaço para o ‘pensar’. Silenciosamente. As pessoas tendem a aceitar a primeira como normal enquanto se preocupam com a segunda, muitas vezes acreditando que a quietude é um problema que deve ser ‘corrigido’.

Longe de ser um problema, no entanto, indivíduos menos apressados em emitir opiniões, juízos ou dar respostas que ninguém pode dar (ainda) são, muitas vezes, mais capazes de expressar ideias significativas do que aqueles seres falantes demais. Ou dos que escrevem sobre tudo o tempo todo, julgando-se os suprassumos da inteligência. Os sabidões.

Cansativos e arrogantes, isto sim.

Os silenciosos, por outro lado, não nos inundam com todo tipo de raciocínio e opinião. Desta forma, suas palavras têm maior influência tanto numa reunião de amigos, por exemplo, quanto dentro da sociedade de uma maneira geral. 

É preciso escapar do barulho e do estardalhaço hoje tão comuns que causam esgotamentos nervosos, stress, confusão mental e depressão. Encontrar uma maneira de ouvir e comunicar-se com equilíbrio e uma boa dose de empatia.

O “ruído” também chama a atenção para tudo o que está fora e nos impede de exercer o que somos de verdade.

O silêncio tornou-se algo realmente incomum em nossas vidas e, por causa disto, sempre desperta uma verdadeira sensação de estranheza. Na mesma medida em que a solidão nos provoca medo, muitos são aqueles que desenvolvem uma profunda fobia de estar sozinho ou calados

Conseguir viver o silêncio tornou-se uma necessidade física e mental. A prática inclui aprender a ouvir e a encontrar a voz do inconsciente, extraindo, então, os pensamentos que dele vêm para confrontar com aqueles que vêm de fora. Aprender a governar os pensamentos e não mais sofrer por conta deles.

Refletir é um pouco como se transformar em transmissor que fica entre o eu inconsciente, a consciência e tudo aquilo que a rodeia. É restaurar, de alguma forma, a comunicação entre estas instâncias e, também, desenvolver a capacidade de transferir nossos pensamentos mais lúcidos – resultados da mediação do inconsciente e consciente – para nossa razão mais pura e sincera.

Paradoxalmente é neste “vir e ir” que residirá nosso “fazer” mais consistente e, assim, consciente.

Reconectar-se consigo mesmo no ato reflexivo resultará em inúmeros benefícios: aliviar a exaustão mental causada pelo caos e confusão resultantes dos conflitos externos a nós (ainda que estes nos atinjam humana e diretamente), desenvolver a intuição – a força irresistível que nos leva a agir na direção certa – sair da situação de emergência e recuperar “seu” tempo, esclarecendo suas ideias para uma melhor tomada de decisão e para superar os aparentes opostos entre o ‘bem’ e o ‘mal’ a fim de entender, acalmar, encontrar a serenidade para viver mais integralmente.

Isto é, de alguma forma, aceitar a ideia de “ter tempo” para si em detrimento de correr atrás de respostas fáceis posto que sem profundidade.

Silêncio é essencialmente uma expressão de um estado interno. Mas pensar que o silêncio é resolvido no simples silêncio dos lábios é uma banalização da sua real complexidade, é uma compreensão da aparência externa, superficial, formal. 

Ele tem, de fato, diferentes graus. Começa como verdade, mas nem sempre prossegue verdadeiro. Podemos silenciar a boca e permanecermos barulhento em nosso interior; podemos dar a palavra a fim de ouvirmos outras pessoas, mas ainda nos conservarmos entretidos com nossa própria intimidade; podemos silenciar os pensamentos e preenche-los com o nosso coração em alvoroço. 

O silêncio, como facilitador da recaptura de si mesmo, pode ser considerado “relacionamento”. Imagine uma conversa sem pausas silenciosas: impossível, porque não seria uma conversa, mas apenas um enfadonho monólogo. 

Imagine um gesto que se comunica sem a ajuda de palavras: o silêncio é seu berço, o caminho que carrega o significado da comunicação. 

O silêncio também é o tempo para edificar a relação entre duas pessoas. Por este motivo, não deve ser entendido como o instrumento por trás do qual se entrincheirar e se esconder, mas, pelo contrário, a garantia de que se está diante do outro de maneira plena.

E esta percepção é crucial para qualquer relacionamento, assim como para a relação terapêutica, onde somos chamados a “ouvir” aqueles que parecem não terem mais nada a dizer e nele se refugiam.

E, então, não está na hora de fazermos mais silêncio a fim de aquietarmos nossos corações e mentes sem pressa? Para, só assim, termos mais convicção acerca do que sentimos e falamos? Que tal experimentarmos isto agora?

 

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