DESRESPEITO MASTER

Imagem Movimento Ratatouille

“O que está sendo feito
Pode ser de outro jeito.
O que já se fez é bem feito,
O que está sendo feito
Pode não estar direito.

In: Respeito – de Arnaldo Antunes

Creio que da televisão, de modo geral, podemos esperar todo o mal possível. E desde que ela persista anacrônica e obscura como hoje é, precisamos tomar muito cuidado. Principalmente se considerarmos que ela é muito eficaz, especialmente para construir uma falsa ideia da realidade mais específica e, também, do mundo como um todo, além de uma percepção distorcida da história.

Em um estudo publicado no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical, os pesquisadores de Cambridge encontraram uma relação significativa entre as horas passadas na frente da televisão e o declínio no desempenho acadêmico, por exemplo.

A televisão, os jogos de computador e o uso da internet foram prejudiciais ao desempenho acadêmico, mas a exibição na TV foi a mais prejudicial“, disse a pesquisadora Kirsten Corder, do Centro de Pesquisas. “Podemos inferir que o aumento do tempo de exibição pode levar a um desempenho acadêmico mais fraco“.

E é em meio deste perigoso caldo que surgiu há tempos, inspirado num modelo criado no Reino Unido em 1990 e relançado em 2005, os “shows de talentos” que ignoram o valor intrínseco das coisas e das pessoas, através do espetáculo pueril onde persiste a arrogância de um e a humilhação do outro que, aparentemente, está em busca de algo que simbolize o lugar de algum destaque no mundo. Independente da degradação, do rebaixamento e submissão a que tenha de se submeter.

Tive um professor de Ciências no ginásio, chamado Gérson, que se sobressaía dos demais por conta de suas tiradas incrivelmente bem-humoradas, além do sarcasmo todo próprio com o qual nos ensinava – ávidos e entusiasmados adolescentes que éramos – a refletir sobre as mais diversas e complexas questões da vida como, por exemplo, a importância de nos mantermos dentro de relações respeitosas junto aos nossos pares.

Lembro-me que, certa vez, nos contou uma história na qual piamente acreditei até desconfiar tratar-se de uma lenda. De toda forma, ela nos deixou um precioso recado: o de jamais admitirmos que alguém nos ofenda ou tente nos subestimar em nome de qualquer tipo de prepotência ou ignorância. Deste jeito, e apenas assim, cresceremos para a vida de maneira íntegra e honrada.

A lenda:

Tratava-se de um professor de matemática que, irritado diante de uma resposta equivocada do aluno, abre a porta e grita ao bedel:– Ô fulano, traz aqui um prato de capim para um asno!Ao que o aluno, prontamente, completa:– E um cafezinho para mim, por favor!

Esta breve e singular passagem nos fez entender que não existia nenhuma razão capaz de sustentar que aquele tipo de ofensa devesse ser suportado. Não. O aluno não admitiria ser chamado de burro pelo ‘mestre’. E sim. Tinha todo o direito de devolver-lhe a ofensa como um bumerangue carregado do mesmo e venenoso petardo.

Estes e outros exemplos construíram em mim um senso muito claro de limites e de tolerância em relação a tudo. Aprendi que nem eu poderia adentrar, sem ser convocada, o terreno delicado da privacidade alheia e nem qualquer pessoa teria autorização de se aproximar, sem convites, do meu espaço de intimidade.

E, definitivamente, não é nada disto o vemos nos mais diversos programas de televisão. Principalmente naqueles dedicados ao que deveria ser a um nobre e enriquecedor exercício da gastronomia através da valorização da arte culinária.

A profusão de programas autointitulados qualquer coisa que lembre Master ou Chef é absolutamente assustadora. Mas, no fundo, nada mais são do que exemplares obtusos desta milenar arte humana. Simples, afetuosa e necessária. Apenas isto. Combinado?

Vale lembrar que a palavra “chef” vem do francês que, por sua vez, vem do latim caput, “cabeça”, “líder”. Ainda segundo a wikipédia: “chef se refere também à pessoa que cozinha profissionalmente para outras pessoas. O termo também é para descrever qualquer pessoa que cozinha para viver e, tradicionalmente, a um profissional qualificado que tem grande proficiência em todos os aspectos da preparação da comida”.

E comer é uma das necessidades básicas de todo e qualquer ser humano, certo? Por isso, quem faz a comida poder ser qualquer um de nós, confere? Carregue ela – a comida – conceitos insólitos, justificativas mirabolantes, temperos extravagantes, “referências” enigmáticas ou apenas reles vontades mortais.

Cozinheiro. Com muito orgulho, anota aí. E só.

Portanto, não servindo para ensinar coisa alguma, esses programas são ainda péssimos exemplos da falta de respeito e de educação que se espalham mundo afora. Um modo muito perigoso de banalizar a violência na sua forma mais pura e nada sutil. Muito danosa, aliás. Aquela que percorre os relacionamentos interpessoais travestida de “pedagogia”, solidariedade ou desejo de ‘melhorar’ o outro. Tão diferente do nosso professor Gérson, não?

Pois estes homens e mulheres, histéricos enraivecidos, gritam, xingam, humilham e nada ensinam de útil ou valoroso. Nem uma mísera receita sequer! Ali o que se vê claramente é o odioso exercício do rebaixamento moral do outro que eles ‘entendem’ como em posição inferior.

Neste caso, pouco importa se são incitados a isto, se faz parte do contrato de trabalho junto a uma produção perversa ou se esta atitude dá tanto ibope quanto um esquartejamento televisionado ao vivo. Pouco importa, afinal, quem manda e quem obedece posto que todos saem perdendo.

Afirmo, com muita convicção, que a humilhação fere tanto a honra quanto a dignidade da pessoa a quem se pretende atingir. E não apenas ela, mas também todos os demais que estejam envolvidos nesta ‘prática’. Quando um dos insensíveis “chefs” resolve rebaixar o “candidato” porque – de acordo que o seu peculiar e estranhíssimo ponto de vista – este errou em alguma manobra ou na escolha de algum ingrediente, ele não só atinge e incomoda todos os demais ali presentes na cena.

São igualmente alcançados não apenas o alvo da maldade, mas os outros concorrentes, os assistentes de palco, o cameraman, o editor e o incauto espectador que ali se encontra sem ter noção do mal que esta experiência pode causar à sua natureza essencialmente humana.

A humilhação – apresentada em rede nacional – além de estimular atitudes sádicas de quem sabe que ofendendo um ofenderá os demais, irradiando, assim, o pavor entre todos os que, inocentemente, acreditam que no final ganharão algo além do aniquilamento da autoestima e do autorrespeito – ensina também o desvalorização enquanto regra geral, o que só ajuda a destruir a possibilidade de construirmos vínculos de confiança e de amor mais produtivos e saudáveis.

Logo, este tipo de programa (sendo encenação ou não, o que duvido muito do ponto de vista dos candidatos que nele se inscrevem) torna-se exemplo nefasto para o desenvolvimento de uma sociedade mais solidária, mais amorosa, menos intimidadora e doente.

De minha parte, evito assisti-los porque me fazem mal e porque não me permito esquecer de que a humilhação é uma das armas mais eficazes utilizadas nas guerras. E não anseio por guerras. Quero a PAZ.

Então, proponho que você preste bastante atenção nas coisas que sente ao assistir a um deles. Tirando a sensação de alívio proporcionada pelo “antes ele do que eu“, tente perceber o que os conflitos estimulados por estes sujeitos provocam em você. Daí, com certeza, você terá um melhor parâmetro para descobrir se deve mudar de canal, desligar a tv ou, quem sabe, procurar um livro para ler.

E depois jantar num lugar onde os cozinheiros trabalhem num clima de serenidade e envolvidos por um ambiente que transpire acolhimento. Simplesmente assim.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

 

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