A DOENÇA E O SEU SIMBOLISMO

Imagem Movimento Rio Descendo Sob Sol

“Quero um montão de tábuas e um motor de pano, 
Pra passear meu corpo e adormecer meu sono 
Na esburacada estrada do oceano. 
Aportarei meu barco apenas de ano em ano, 
E onde houver silêncio eu ficarei cantando 
Pra não deixar morrer o gesto humano. 
Entenderei as águas e os peixes passando 
E se me perguntarem pra onde vou e quando, 
Responderei: apenas navegando, apenas navegando….”

In: O Navegante – de Sidney Miller

Toda doença, de uma maneira geral, pode ser encarada como a expressão mais pungente do que escolhi chamar de dor da alma e, nesse sentido, trazer em si uma metáfora a ser desvendada.

Ela surge como um meio do indivíduo fazer frente ao seu conflito interior, esquecendo-se de outras possibilidades menos danosas. A doença viria preencher algum vazio na vida do paciente, como um jeito de comunicar ao mundo o seu sofrimento.

Esta questão levanta outra reflexão subjacente no que se refere ao risco de levar o doente a se considerar responsável pela própria doença. Aparentemente, nossa cultura não admite que tenhamos controle sobre muitos eventos – principalmente aqueles que dizem respeito às nossas próprias existências. Isto porque também não existe espaço para que o sofrimento emocional seja levado a sério. Preferimos pensar que o sujeito só fica deprimido quando não reage, quando é ‘fraco psicologicamente’.

Seria muito importante que despertássemos para o fato de que a doença do nosso organismo pode ser, muitas vezes, uma forma absolutamente pessoal e, no fundo, esclarecedora dele expressar seu sofrimento emocional.

Em estados depressivos, por exemplo, nosso organismo perde a capacidade de reconhecer e dar combate às células malignas, as quais podem passar a se reproduzir livremente. Existem estudos que apontam claramente neste sentido. Ou seja: é possível criar uma relação de causa e efeito entre muitos casos de câncer e sentimentos de desesperança profunda e/ou reação a perdas recentes e significativas.

Interessante observar que existe um perfil predominante amável, generoso e bondoso nos pacientes de câncer – o que sugere que tal dose de generosidade pode estar, na realidade, relacionada à baixa dose de autoestima. Pode, na mesma medida, significar que estas pessoas não se admiram ou não se amam o bastante para sentirem-se em harmonia consigo e com o entorno. E a exagerada bondade seria uma alternativa vital  capaz de fazê-las receberem, em contrapartida, uma réstia do afeto e do amor de que tanto precisam.

O paciente de câncer, então, pode ser uma pessoa que já estaria vivenciando um desespero contido, encoberto e disfarçado para as demais pessoas. Condescendente e gentil por fora, mas todo insatisfação, desolamento e fúria por dentro.

Nosso corpo produziria, então, substâncias, como os neurotransmissores, que tem uma clara ação sobre os órgãos e são comandados pelo psiquismo. Na verdade, seriam  a ponte entre o sofrimento emocional e o mau funcionamento do organismo.

O câncer seria, assim, o fruto de uma profunda tristeza interiorizada. O indivíduo que “faz” um câncer, como regra geral, andava muito bem aparente e exteriormente. Mas todas as mágoas, todas as angústias, estavam e ainda estão ali interiorizadas e lhe  corroendo por dentro.

Acredito que o paciente portador de câncer comumente assimila e/ou reprime os sentimentos hostis tendo dificuldade de exprimir qualquer emoção relacionada à raiva ou ao rancor.

Está escondido por detrás da “fachada” bondosa, perpetuada numa calma e numa tolerância exageradas. Em alguns casos, é capaz de “morrer pela pátria” ou de brigar por causas gerais e coletivas. Em outros, esconde-se da realidade fingindo que nada é como de fato se apresenta.

Em ambos, porém, é incapaz de tornar-se hostil na defesa de suas necessidades ou direitos pessoais. Não sabe exigir nada para si. Provavelmente esta alienação no que tange às suas próprias necessidades e seus mais primitivos anseios, caracteriza seu (único) modo de se relacionar com o mundo. Modo este que lhe consome a vida tanto o quanto a doença lhe consome o organismo.

A doença parece ser, então, quase que a única possibilidade existencial para este indivíduo realizar-se. Na mesma medida, a doença também o auxiliaria a livrar-se de si mesmo, do fardo de sua própria existência, mergulhado que está em uma vida esvaziada de satisfação verdadeira, de algo que dê significado ao simples fato de enfrentar o cotidiano com esperança e entusiasmo.

Logo, a paz interior, necessariamente relacionada ao amor pela vida e pelo mundo, torna a vida muito mais plena para ser vivida. E o homem pode alcançar isto desde que busque a compreensão mais genuína e sincera do que vive, do que deseja e do que pode vivenciar, aceitando a realidade sem fantasiá-la, sem amaldiçoá-la, serenamente e com a consciência tranquila.

A capacidade de amar a todos indistintamente, ou seja, tanto as pessoas quanto a natureza, é o melhor caminho que dispomos – desde que mergulhado no ato generoso de amar o amor por si e cuidando de escolher os melhores objetos nos quais depositar este precioso sentimento.

Eu acrescentaria ainda que tanto este amor amplo quanto o amor individualizado, ou seja, aquele realizado junto ao parceiro desejado, o companheiro que acolhe e abraça, com o qual possa haver troca de carinho e de afeto, de amor genuíno e entregue, formam o grande BÁLSAMO capaz de cuidar, curar e salvar toda a vida do deserto e da desesperança mortais.

E só assim, creio, percebendo a importância do amor como antídoto, no melhor e mais esplendoroso sentido, alcançaremos a compreensão da nossa angústia existencial e caminharemos em direção da saúde e da felicidade.

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