UMA TORTURA CHAMADA ASSÉDIO

Sexual Harassment at work

“Eu era alegre como um rio,
Um bicho, um bando de pardais,
Como um galo, quando havia,
Quando havia galos, noites e quintais. 
Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz.”

In: Galos, Noites e Quintais – de Belchior

A bela e jovem médica chega à sala do diretor do hospital para saber acerca do pedido de aumento que formulara a seu chefe imediato há quase dois meses. Estranhara o convite, pois jamais havia tido qualquer espécie de contato com aquele senhor até o momento.

Entrou e, imediatamente, foi convidada a sentar-se do outro lado da mesa.

Logo de saída, e sem nenhum rodeio, o CEO iniciou seu rosário de gracejos:

–  Você realmente é uma linda mulher.

Entre enojada e estupefata, a garota de 26 anos olhou para o homem sem entender. Fora aquilo uma piada? Uma brincadeira fora de prumo, quem sabe?

Mas, não. Ele não só não parou por ali como resolveu exibir todo o seu repertório de impropriedades como se falasse sobre a previsão do tempo da semana.

– Pois é. Você é uma mulher muito bonita. E não sou só eu que acho isso. Todos aqui comentam. O modo de se vestir, de andar, sua classe…. nem parece médica.

A moça permaneceu perplexa e paralisada. Custou para entender que aquilo era uma cantada. Esdrúxula, totalmente grosseira e descabida, mas uma cantada. E proferida por um velho feio e grotesco.

Entre uma frase e outra, a declaração de que, sim, ela teria o aumento almejado porque era, de fato, uma profissional de peso, uma especialista naquilo que fazia, além de ser muito querida e respeitada pelos colegas e residentes.

Ainda que continuasse a elogiá-la, não parou de falar sobre as outras médicas que apadrinhara, com quantas vivera casos de amor? Perdera a conta. Disse ainda que seu casamento há muito terminara e que continuava buscando o amor de mulheres como ela – esquecendo-se, aparentemente, de que tinha 67 anos, continuava casado e era um pai de ‘família’ que já possuía muitos netos.

Quando proferiu a fatídica frase: “O que você pensa em relacionar-se com alguém como eu?”, a moça, recuperada do susto e do asco, conseguiu responder, enquanto se levantava:

– Nenhum aumento valeria passar por isto. Passe bem.

Desnecessário dizer que não houve aumento de salário, mas uma demissão imediata e sem justificativa. Afinal, ela não caíra na nojenta cantada do sujeito como, infelizmente, muitas colegas se sentiram forçadas a fazer.

Lá fora, entrou no banheiro e chorou o nojo e a raiva contida enquanto imaginava uma forma de sair o mais rápido possível daquele lugar.

Porém, este desfecho está muito longe de ser a regra, mas sim a raríssima exceção dentro de um feroz e competitivo mercado de trabalho perverso, posto que essa essa e outras experiências são muito mais comuns e cotidianas do que poderiam supor nossas vãs consciências.

Lamentavelmente, muitas investidas de cunho claramente sexual são subestimadas e, desta forma, lançadas ao universo da “normalidade”.

Conheço uma ótima atriz que até hoje carrega um trauma desenvolvido há muitos anos, quando teve o desprazer de contracenar, como atriz iniciante e num papel secundário, com um conhecidíssimo ator brasileiro que atuava muito no cinema e nas novelas de televisão, falecido há pouco tempo.

Durante os 10 meses em que foi obrigada a trabalhar com o insano protagonista, ela precisou não apenas suportar suas neuroses histriônicas – já que ele também era diretor do espetáculo – como conviver com seu puro e medíocre exibicionismo que se expressava nas incontáveis vezes em que, nas cenas em que permanecia sentado em uma mesa onde, protegido pela localização no palco e a toalha da mesa, exibia o membro para as “colegas de trabalho”.

O mais revoltante, segundo a atriz, era ver as demais profissionais, mais velhas e experientes que ela, divertindo-se com aquilo enquanto fingiam não perceber o ato para depois, na coxia, caírem na gargalhada.

Confessa que perdeu a conta das vezes em que era nítido o fato de que o asqueroso ator se masturbava para manter o membro ereto durante a obscura cena, ao mesmo tempo em que falava normalmente o texto.

Na época ela nem pensou em denunciar seu evidente constrangimento porque sabia que não só seria chamada de pudica e ‘atrasada’ como, certamente, perderia o lugar naquilo que costumavam chamar da “vanguarda do teatro”.

Também foram inúmeras as tentativas deste mesmo ator, logo depois das apresentações, em lhe oferecer caronas enquanto descia a mão por suas costas sem, para tanto, solicitar alguma permissão – dando a entender uma intimidade que jamais tiveram ou, posteriormente, teriam – e o que a fazia sempre esconder-se no banheiro aguardando que ele fosse embora.

Saiu desta fase profundamente ferida e ultrajada e jamais superou a dor de sentir-se tão completamente aviltada.

Existem evidências dando conta de qual qualidade de ambiente de trabalho tem o poder de promover este comportamento de risco: empresas ou empreendimentos com alta intensidade de trabalho ou horários atípicos e desumanos; que carreguem uma carga emocional significativa; que contribuam para uma baixa autonomia no trabalho; que mantenham um baixo apoio social e onde as relações estejam corrompidas pela falta de respeito e pela competição exacerbada; onde haja ausência de motivação, o que, num conjunto cruel, alimenta uma insuportável insegurança pessoal e/ou socioeconômica.

É fundamental registrar que esta forma de agonia está absolutamente relacionada aos fenômenos de estresse, depressão e ansiedade.

Longe de ser um simples e inocente flerte, assédio sexual é um ato de violência que devasta a autoestima da vítima.

A realidade é que existe uma gama incomensurável deste tipo de descaramento no meio profissional porque, infelizmente, alguns abusadores têm muita criatividade.

No Canadá, por exemplo, onde existem estudos bastante sérios sobre o tema, mais de um quarto dos habitantes afirma ter sido vítima de assédio sexual no trabalho – de acordo com uma pesquisa nacional conduzida pelo Angus Reid Institute em novembro de 2014.

Além disso, um em cada cinco canadenses diz que o assédio ultrapassou insinuações, chegando mesmo ao toque sexual.

E, como esperado, 80% dos entrevistados da pesquisa, realizada online entre 1.500 trabalhadores e ex-trabalhadores canadenses, não relatou o assédio aos seus empregadores por medo de perder seus empregos, de ser desacreditado ou de ter, de algum jeito, sua carreira afetada por este drama.

Toda vez que há uma recessão, há ainda menos queixas de assédio, porque as vítimas têm muito medo do desemprego.

Muitas vezes, há uma sensação de que todos enxergam aquilo como uma “brincadeira” e, por isso, a vítima se sente incapaz de falar por medo de ser marcada como ‘sem senso de humor’, ou ‘uma criadora de problemas’.

E, evidentemente, o assediador sabe disto. E se aproveita bem da situação, como bom covarde que é.

E, assim, o assédio nem sempre é feito abertamente. Muitas vezes é bem sutil, sem nenhuma testemunha – o que dificulta a obtenção de evidências.

Os autores são muitas vezes muito mais velhos e mais ‘experientes’ do que as vítimas e, em muitos casos, estão mesmo em uma posição de responsabilidade sobre eles, tornando a denúncia, por vezes, impossível para aqueles que estão sendo assediados.

Logo, trata-se de um crime quase invisível para o qual precisamos dar visibilidade.

Imaginem o que acontece no Brasil onde este tipo de violação é simplesmente endêmico e corre livre e solto dentro e fora das empresas?

Crucial compreendermos que sofrer assédio sexual é deparar-se com um comportamento erótico indesejado, manifestado ocasional ou repetidamente e que tenha consequências negativas sobre a vítima.

Nas empresas aparece através de contato físico indesejável, tais como toques, apertões, ser roçado por alguém de propósito, etc. Também envolve olhares insistentes e, particularmente, dirigidos às partes íntimas; comentários inadequados de natureza sexual; observações sobre o corpo da vítima ou sua aparência; piadas que menosprezam identidade ou orientação sexual; perguntas íntimas; assobios; solicitação de favores sexuais indesejados; exibição de material pornográfico; etc.

O assédio sexual é a imposição de uma pessoa, de forma reiterada, através de observações ou comportamento de conteúdo sexual que SEMPRE prejudicam dignidade alheia por conta de sua degradante ou humilhante essência e criam circunstâncias hostis ou ofensivas. É uma perseguição atroz e corrosiva.

Também é percebida como assédio sexual, ainda que não seja de modo claro ou repetitivo, qualquer sugestão com o propósito real ou aparente de obtenção de um ato sexual para si ou para um terceiro.

Sabe aquela “brincadeirinha inocente”?

As leis aqui no Brasil deveriam amparar as mulheres que são as vítimas majoritárias desta conduta punindo, de maneira concreta, todo ato de assédio quer seja ele cometido por um colega, por um professor, um médico, um diretor,  um superior hierárquico ou um desconhecido.

Diversos países como Argentina, Portugal, Bélgica, Índia, Peru e Reino Unido, dentre outros, já preveem e tipificam este crime e possuem penas bem severas, chegando a prisões de até 7 anos.

É mais do que hora de começar a levar o assédio no local de trabalho a sério, ouvir com muita atenção as vítimas e, acima de tudo, colocar a culpa firmemente no lugar que lhe pertence: com o perpetrador do abuso. No mínimo, um psicopata. Um criminoso.

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