E QUANDO NARCISO QUEBRAR O ESPELHO?

Imagem Movimento No Espelho

“Fumo de rolo, arreio de cangalha
Eu tenho pra vender, quem quer comprar?
Bolo de milho, broa e cocada
Eu tenho pra vender, quem quer comprar?
Pé de moleque, alecrim, canela,
Moleque sai daqui me deixa trabalhar.
E Zé saiu correndo pra feira dos pássaros
E foi pássaro voando pra todo lugar.

In: Feira de Mangaio – de Sivuca

O mundo contemporâneo passa por diversas transformações que nos afetam tanto física quanto psicologicamente. Se há alguns anos precisávamos nos levantar inúmeras vezes do sofá para alcançar o botão da televisão – o que nos obrigava a pensar e repensar sobre nossas escolhas – hoje basta um suave toque no controle remoto.

O que deveria nos trazer comodidade e prazer, na verdade, nos tornou um grupo muito estranho que repete cegamente comportamentos condicionados – dissociados e dolorosamente inúteis – que, na maior parte das vezes, nos afastam da crítica e da reflexão sobre tudo o que nos cerca.

Estamos nos convertendo rapidamente numa sociedade doente, ansiosa, em permanente estado de alerta, descomprometida e sem ideais – muito embora, plena de desejos por experiências e percepções diversas, excitantes e, paradoxalmente, superficiais.

O espaço para o debate inteligente sobre preocupações comuns aos cidadãos foi ocupado por disputas dogmáticas e descabidas que, na maior parte das vezes, reproduzem inconscientemente escusos e mal-disfarçados interesses políticos e financeiros de uma minoria que nem precisa se fazer claramente representada.

Afinal, hoje em dia, basta meia hora de televisão para converter qualquer cidadão desavisado num mero e apatetado repetidor de farsas manipuladas. 

Para o historiador Watson Christopher Lasch (autor de, entre outros, “A Cultura do Narcisismo”), o conceito psicanalítico de narcisismo é perfeitamente adequado para fornecer um bom diagnóstico dos nossos tempos se considerarmos que neste atual mundo globalizado – e igualmente brutalizado – inexistem projetos comuns: o que aponta para o reforço do investimento no bem-estar individual como única opção real e definitiva.

Segundo Lasch, a sociedade contemporânea criou condições para a ocorrência do narcisismo exacerbado. O narcisista se caracteriza pela desconfiança generalizada, superficialidade emocional, medo de intimidade, hipocondria, pseudo autopercepção, horror à velhice e à morte.  É descrente em relação à possibilidade de modificar o futuro, despreza o passado e vive para o aqui e o agora.

Desta forma, então, toda a dedicação do indivíduo se volta para o presente – o que, por si só, denota a perda da noção de processo histórico.

A relação com as tradições são sumariamente cortadas, como se estas fossem um entrave para a “modernidade exagerada” que o alucinado desenvolvimento tecnológico deseja impor. Desqualifica-se o velho e o passado. Da mesma maneira, o futuro é colocado em suspensão uma vez que não existem boas expectativas para alterações positivas (do ponto de vista da maioria da população), nem segurança suficiente nas organizações sociais e políticas, além do sempre presente medo das violências urbanas, guerras, dos atentados, desastres ecológicos ou nucleares.

Vivemos como se estivéssemos por um fio. Ou no fio da navalha. Entre o seguro e o contingente; o poder e a submissão; o controle exagerado e a indiferença absoluta; a força extremada e a vulnerabilidade total. As relações pessoais tornaram-se instáveis e precárias. E, o que é pior, percebidas como altamente ameaçadoras. Passamos a desconhecer o significado da confiança e da lealdade, assim como o da solidariedade, esperança, afeto e amizade.

Para nos sentirmos parte do todo, contraditoriamente, abandonamos o simples. Tentamos parecer deuses inalcançáveis e sobre-humanos. Mas mesmo os deuses necessitam dos demais seres mortais para ratificar sua onipotência. E como eles não sobrevivem sem audiência, convencem-se da necessidade de estarem incessantemente conectados ao alegórico mundo virtual que se contrapõe, de maneira superlativa, à realidade. Precisam chamar a atenção de algum jeito – seja pela falta, seja pelo excesso.

Daí, a crescente demanda por apenas parecer feliz e realizado – mesmo que se esteja longe de sentir-se de tal modo. Afinal, a vida não admite edição nem fotoshop. Não podemos escolher em que ângulo nosso interlocutor deve nos enxergar. Nem nossa mais atraente fachada. Não nos é facultado lapidar, cortar, sombrear ou clarear nossa imagem na vida concreta que, assim, parece se tornar cada vez mais difícil e desanimadora. 

Tal vivência acaba por produzir uma neurose caracterizada por uma escassez de perspectivas e de significados. O indivíduo contemporâneo deposita nos meros objetos toda sua significação. Na casa que conquistou, na poupança que garantiu, na obra que edificou, nas coisas que comprou. E, diante de uma eventual perda destes símbolos, ele passa a considerar-se inadequado, inábil, fraco, ignorante e vulnerável. E, na falta de valores como justiça social e continuidade histórica, a ética do “sobreviver, custe o que custar” passa a nortear a cultura narcísica – que nada mais é do que uma resposta emocionalmente desorganizada frente às pressões e angústias do mundo atual cujo modelo, definitivamente, contribui com a sensação de carência de sentido.

E, por isso, o indivíduo aterroriza-se frente a perspectiva de vivência dos medos, das aflições, das perdas e dos lutos. Sentimentos reais. Consequentemente, fixa-se na aparências das coisas, assim como de seu valor comercial, glorificando a alienação e a indiferença, tantas vezes amparadas pelo uso excessivo de toda a sorte de drogas lícitas e, principalmente, ilícitas. Quanto mais drogas, mais esvaziamento interno e mais sofrimento. Quanto mais bagagens virtuais e irreais, menos vivências originais.

Não nos esqueçamos, porém, que a angústia, o medo e o desespero são sentimentos que nos possibilitam reproduzir a genuína condição humana e que nos impelem na direção da experiência autêntica enquanto seres humanos livres, ímpares e potencialmente transformadores.

Portanto, que tal quebrarmos estes malfadados espelhos nos quais insistentemente nos miramos todos os dias para, finalmente, olharmos diretamente nos olhos das pessoas ao nosso redor a fim de enxergamos alguma verdade ou, quem sabe, sua ausência?

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3 pensamentos sobre “E QUANDO NARCISO QUEBRAR O ESPELHO?

  1. Gostei muito da relação deste texto com o da depressao.Achei que minha prepotencia de fazer tudo do meu jeito aliado a um profissional que garantia que eu dava conta quase me matou com minha onipotencia.Quiz fazer do meu jeito e desprezei a experiencia acumulada de quem me aconselhava a procurar ajuda.O passado versus o aqui e agora que eu achava que controlava.Quase morri de depressao e quase como narciso olhando no lago morri afogado.Parabens e obrigado.

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