AS VÁRIAS MORTES DO AMOR

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Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão.

In: Embarcação– de Francis Hime

Talvez o maior obstáculo enfrentado por todos os relacionamentos amorosos seja a coragem de aceitar que algo ali definitivamente acabou. Não apenas a magia inicial se extinguiu, mas também a pressa para (re)encontrar seu(sua) parceiro(a). Quando foi mesmo que tudo se tornou tão triste?

Quando nós não gostamos de fazer algo, tudo sobre aquilo parece errado. Da mesma forma, quando deixamos de gostar do nosso parceiro, torna-se impossível aproveitar o tempo que tivermos juntos, não é?

Quantos destes sinais existem em seu relacionamento? Qualquer um destes é prenúncio de que algo está acontecendo. Portanto, não o subestime.

A verdade é que o amor tem uma capacidade singular de morrer aos pouquinhos e, muitas vezes, de forma tão silenciosa que os envolvidos podem mesmo não perceber.

Pode começar com uma pequena desatenção. O namorado que esquece a namorada no meio de uma festa enquanto se diverte com os amigos de turma. Ou a namorada que conversa animadamente com o melhor amigo esquecendo que o companheiro, alheio a tudo, não fez parte da maioria das passagens ali relembradas.

Pode acontecer num evento qualquer quando um simplesmente se esquece de apresentar o outro. Ou quando resolve ficar do lado de um parente numa discussão familiar que se entrincheira para delimitar o espaço consolidado que se pretende defender.

Já vi filhos magoarem os pais para comprovarem uma cumplicidade doentia com suas parceiras. O contrário também acontece e sempre provoca dor.

E não se trata apenas do amor entre um casal, mas, também, do amor que envolve amigos, parentes e até mesmo parceiros eventuais.

O amor define o seu fim justamente na ausência do imprescindível gesto amoroso e da necessária palavra de conforto ou no silêncio incômodo que se revela num momento onde as atitudes de apoio seriam essenciais.

O afeto termina exatamente no ponto em que o abandono se anuncia de maneira implacável.

O maior problema destas mortes lentas, graduais e corrosivas é que vão deixando marcas indeléveis que tomam o lugar daquilo que antes era forjado no afeto e no carinho, como ferro quente sobre a pele fina.

Ouço tanto sobre amores findos que desejam se afirmar como se ainda permanecessem vivos, que me pego pensando de quem esperam esconder a ruína; se dos próprios olhos ou se dos atentos e julgadores olhares alheios.

– Olhem, prestem atenção! Não estou só. Minha relação deu certo! Ninguém aqui pensa em desistir!  

Quantas pessoas só se aceitam se estiverem correspondendo às expectativas dos outros criando, assim, uma armadilha da qual acreditam que jamais poderão escapar? E esta sensação de fracasso pessoal provoca sentimentos de rancor e desprezo não só em relação ao companheiro, mas principalmente para consigo mesmas.

Quem não se ama ou não se preza e admira, será incapaz de desenvolver sentimentos plenos e gratificantes em relação aos outros.

E, assim, vejo amores que já morreram teimando em ressuscitar, vagando para lá e para cá feito cadáveres insepultos de uma relação que um dia, quem sabe, existiu.

Morte anunciada, muitas vezes, lá no começo da relação e levada adiante por pura vaidade ou simples teimosia.

São tão tristes de se avistar que, se pudesse, eu diria:

Vai, coragem! Afasta de você esta desesperança e esta frustação doída e tente ser o que deseja. Ao menos uma vez na vida, seja de verdade! Experimente SER!

Vejo casais jovens, casais velhos, pessoas que não se amam mais fingindo uma felicidade que não sentem e me pergunto: pra que fazem isto, afinal?

Será que têm tanta certeza de outras vidas a ponto de gastar a atual naquilo que lhes faz tamanho mal?

O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa não duvidava do ódio que, potencialmente, um casamento seria capaz de desenvolver e ampliar:

“Já vi casais cuja única finalidade na vida era infernizar e torturar o outro o tempo todo, em cada frase, em cada olhar. O horror dos horrores. Só dois prisioneiros vitalícios obrigados a morar para sempre na mesma cela poderiam desenvolver sentimentos tão terríveis; e só dois que se proibiram de admitir outra pessoa ou qualquer outra atividade na própria vida chegam a esse ponto de miséria moral e de degradação recíproca.”

Somos, afinal, seres ímpares e únicos e todas as parcerias experimentadas deveriam nos acrescentar habilidades humanas – além de um bom bocado de felicidade – e não nos oprimir, nos destituindo dos aspectos mais belos e produtivos da nossa verdadeira e maravilhosa humanidade.

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