PARA NOVOS ABISMOS, NOVOS CAMINHOS

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“Cantador não escolhe o seu cantar,
Canta o mundo que vê.
E pro mundo que vi meu canto é dor,
Mas é forte pra espantar a morte;
Pra todos ouvirem a minha voz,
Mesmo longe…

In: Cantador – de Dori Caymmi

 Muita gente anda se perguntando: o que fazer nesse momento tão insólito, confuso e desolador?

Ora, num país com tantos desacertos e tamanha miséria não podemos nos dar o luxo do pessimismo. É preciso manter acesa a chama da esperança nos aquecendo a todo instante. Necessitamos ser otimistas. Olhar adiante com alegria e entusiasmo – porque é só para a frente que devem seguir nossos passos. E, para tanto, é imprescindível não ter pressa.

Há um abismo entre nossa história, como país colonizado e submetido aos desmandos das várias metrópoles que se foram alternando no alvissareiro posto, e a possibilidade de nos tornarmos uma civilização definitivamente independente e verdadeiramente humanizada.

Tal dicotomia, aparentemente, resulta dos acontecimentos históricos e dramáticos que nos envolveram desde o princípio da colonização e que fizeram desmoronar quaisquer possibilidades de construirmos uma identidade nacional, um amor fidedigno ao que entendemos ser “pátria” e uma teia consistente de boas relações sociais e, consequentemente, pessoais.

Como sobreviventes de guerra, nos mantemos dentro de uma arena onde os conflitos são cotidianos e impregnam todas as nossas relações interpessoais. E é este ambiente competitivo, hostil, indiferente, perverso e, basicamente, insano, que nos conserva muito distantes dos laços da fraternidade, amizade, solidariedade – mais comuns nas sociedades que não viveram guerras declaradas ou veladas que são igualmente desumanizadoras.

Logo, perdemos um mundo possível para vivermos em uma espécie de dimensão transitória, em um limbo onde tudo ainda está por vir, ser e acontecer.

Enquanto nação precisamos resolver as questões de base que conceberam evidentes e profundas desigualdades que não são mais passíveis de serem camufladas.

Nossa sociedade criou condições terrivelmente favoráveis para as injustiças, os preconceitos de todas as ordens, os ódios de diversas matizes, as discriminações e os piores racismos.

Desta forma, as novas e atuais gerações se ressentem muito da falta de saberes e de experiências consistentes acerca de laços de afetos, companheirismos e camaradagens.

Muito bom seria se os intelectuais, os formadores de opinião (seja lá o que isto signifique), os astutos, os peritos, os estudiosos e os cientistas – que permanecem comodamente trancados dentro de suas salas, escondidos em suas academias empertigadas, realizando pesquisas encomendadas por interesses privados, esperando honras e prêmios, certos de que estão cheios das sabedorias que, longe do povo, não servem para absolutamente nada – funcionassem, neste emblemático momento, como uma ponte ou uma espécie de contrabandistas dos conhecimentos de uma lado para o outro.

Talvez, desta forma, abandonassem seus longínquos castelos e viessem testar suas (vãs?) teorias no meio da sua gente. E, assim, uma nova ciência se forjaria a partir desta preciosa matéria prima.

Mas, como não podemos esperar tal deferência  – ao menos neste momento – vamos pensar no que é possível fazer com aquilo que foi conquistado e que, a qualquer momento, pode ser perdido.

Sabemos que tudo se transforma de dentro para fora. Não existe nenhuma outra maneira de fazer nascer um ser, uma história, uma pátria.

É preciso começar lá do começo – onde éramos animais gregários, fortemente adaptáveis e, de forma absoluta, intrinsecamente afetivos e solidários.

Tecer nossa rede de relações fundamentada nas necessidades básicas de sobrevivência da espécie que envolvem proteção, cuidado mútuo, empatia, observação, criação, benevolência, amor e, acima de tudo, na intuição que urge ser resgatada.

Todos os laços podem ser fortalecidos pela imprescindível semente da confiança – substrato indispensável para a construção da coletividade baseada na igualdade e na fraternidade.

Mas, como disse o poeta Walt Whitman: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma.”

Descontando o temor e a incerteza – sentimentos que quase nos compõem integralmente, com bons motivos para tanto – fora a ambição que impulsiona o desejo de estar acima dos outros, de ser mais e maior que tudo o que nos cerca e, sem considerar, ainda, a sedução pelo poder e o orgulho exacerbado que nos domina, temos ainda uma maravilhosa capacidade humana de nos amarmos com atenção e ternura.

Vamos entender que “nossa pátria” nasce na nossa família (seja de sangue ou não, isto pouco importa, creia) que, por sua vez, nasce a partir dos laços que estabelecemos com nossos semelhantes. Não existe outra sequência possível.

Se observarmos que a razão da paz que nosso país parecia representar se assenta sobre coisas que não conhecemos, entenderemos que é para isso que servem as competições, a falta de parceria e amizade, as drogas, o circo dos políticos, as novelas e os programas de auditório que humilham sua assistência. Para que ninguém descubra os autênticos demônios e nem abra a “caixa de pandora”.

Se nos concentrarmos no que realmente importa, ou seja, em construirmos relações pessoais afetivas e profundas que possam criar vínculos de confianças, teremos condições de reencontrar um fio da meada.

Por isso, a receita é bem simples: não se impressionar com as flácidas dimensões das coisas. Elas podem se esvaziar rapidamente. Num segundo, tudo pode mudar. Para o bem e para o mal. E você, sabe de que lado vai estar?

Por isto a importância de reter o que sobressai da espessa bruma oriunda dos gazes vorazes emanados pelas armas nas mãos das milícias ferozes.

Conversar muito, reunir mais, trocar impressões e ideias. Ler, debater, estudar e refletir. Desenvolver laços, sair da frente do computador e do celular para experimentar o revolucionário e verdadeiro contato humano. Abraçar não apenas causas, rixas ou reivindicações mas, sobretudo, os parceiros dessa nossa tão breve jornada.

Que desta magnífica experiência se crie uma estrutura mais ampla de relações humanas porque apenas estas serão capazes de sustentar e defender justos ideais e, assim, transformar nosso país em um lugar onde se possa desejar viver – com orgulho e apreço.

E lembre-se: sempre existirá uma saída para além de qualquer escuridão. 

 

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