PRECISAMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO

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“Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não, 
Pode ser a gota d’água.”

In: Gota d’Água – de Chico Buarque

Suicídio é um tema que sempre esteve presente na minha vida profissional. Há alguns dias recebi uma mensagem que, com a devida autorização, reproduzo a seguir:

Minha mãe tentou se matar. Logo depois de entrar na menopausa, diante de um casamento que chegara ao estágio descendente da mais pura tolerância, infeliz, com dois filhos criados e uma filha adolescente cheia de questionamentos e disputas naturais entre meninas e suas mães, ela não suportava mais viver.”

“Chorava pelos cantos, cada vez mais isolada. Mas disfarçava muito bem sua inquietude e sua aflição em público. Minha irmã mais jovem, mergulhada na própria vida repleta de descobertas, não conseguiu enxergar nada.”

“Eu e meu irmão mais velho, cheios de coisas para fazer, também não”

“Meu pai, desprovido de um olhar mais fraterno e enxergando aquela mulher, que reclamava de tudo e a toda hora, como uma pessoa a ser evitada, não enxergou o óbvio.”

“Então um dia, ela escreveu uma carta. Entre comprimidos e goles de bebida, vinho ou whisky, não sei, registrou frases desconexas das quais apenas uma se sobressaiu: ‘Viver…. pra que?’ ”

 “Apenas depois das lavagens estomacais, internações em clínicas de repouso e de sua dolorosa volta à vida, foi que percebemos que ali, na fraqueza daquela que sempre fora uma vigorosa e exuberante mulher, residia uma força incrível que foi capaz de nos reagrupar dentro de uma nova realidade: a de que estávamos todos deixando nossa humanidade esvair-se em prol de obter algum ‘sucesso’ na vida – sucesso este que não nos levaria à nada que não fosse nosso próprio desterro.

“Penso que, apesar de todo sofrimento, esta tenha sido uma possibilidade única de retomarmos nossos mais sólidos e imprescindíveis vínculos que, no final, nos salvou a todos.”

Lembrando que este é apenas um dos inúmeros depoimentos que ultimamente venho recebendo, comecei a prestar mais atenção a este estado generalizado de descrença e de desilusão que anda alcançando tanto os muito jovens quanto os mais velhos em nossa sociedade.

Ouço muitas queixas sobre ausência de perspectivas, de dinheiro, de afeto, de solidariedade, de emprego e de esperança num futuro melhor, entre outras sentimentos que remetem ao abandono e a solidão. E me preocupa este quadro de depressão generalizada alcançando tanta gente.

De acordo com um recente relatório da OMS a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. O país com maior número de mortes é a Índia.

Este mesmo levantamento aponta o Brasil como o oitavo país com mais suicídios neste triste páreo. A cada 45 minutos uma pessoa se mata no Brasil.

Ou seja, em nosso país, todos os dias, trinta e duas pessoas consumam sua intenção de tirar a própria vida. Mas o número de casos pode ser muito maior – isto porque muitos não são esclarecidos ou são encobertos pelos familiares.

Não obstante sua prevalência na camada com idade superior a 50 anos, a prática suicida vem aumentando significativamente entre jovens e adultos dos 14 aos 30 anos de idade.

É, de fato, uma estatística impressionante esta que aponta os muito jovens dentre os potenciais suicidas em nosso país. O psiquiatra Geraldo Possendoro afirma não ser raro que muitas pessoas deprimidas – e não tratadas – estejam entre as vítimas desta epidemia, além de também estarem propensas a se utilizarem do álcool e das drogas a fim de atenuarem a angústia que sentem.

De qualquer maneira é muito importante observar que o suicida pode emitir sinais do seu sofrimento, por vezes, durante muito tempo.

Alguns aparentam uma irritabilidade aparentemente incompreensível, acompanhada de um profundo estado de tristeza e, também, de sentimentos de medo e de culpa. Outros, de repente, começam a se despedir dos amigos e familiares, colocam suas coisas em ordem, parecendo terem alcançado uma súbita melhora no seu estado depressivo.

No entanto, trata-se de uma “falsa calmaria” que pode estar a um passo do desfecho fatídico.

Os sintomas que podem servir de alerta para o fato de que um indivíduo está pensando em suicídio coincidem frequentemente com os da depressão. 

Eles geralmente variam, mas é importante ressaltar que os indivíduos depressivos são perfeitamente tratáveis – desde que diagnosticados.

Normalmente, a tomada de decisão se dá de maneira gradual e, portanto, pode passar despercebida. Mesmo a própria pessoa pode assumir que está apenas passando por uma “transição normal da vida”, onde os relacionamentos e as experiências não são tão interessantes ou emocionantes como uma vez foram.

Isso nunca é verdade.

Depressão e pensamentos suicidas podem ser provocados por uma variedade de causas, incluindo retrocessos ou decepções na vida, perdas diversas, divórcio ou rupturas de vínculos amorosos, estresse emocional, perdas financeiras, doenças médicas, histórico familiar ou genético, desemprego, traumas, pessimismo, baixa autoestima, condições físicas ou mentais, etc.

Qualquer uma dessas causas ou uma combinação de várias delas pode contribuir para a depressão porque trazem desespero e desesperança quando não compartilhadas.

Depressão ou pensamentos de suicídio podem afetar qualquer um. A notícia encorajadora é que a depressão é totalmente controlável e os pensamentos de suicídio podem ser transformados em pensamentos de esperança. 

No entanto, para descobrir o diagnóstico e opções de tratamento em potencial, é preciso conversar com amigos, familiares e profissionais da área psi.

É preciso entender – e acreditar – que existem ajuda e esperança disponíveis. Muitas pessoas que vivem com depressão ou pensamentos de suicídio acreditam que estarão “presas” dentro deste círculo para sempre. Isto não é verdadeiro. Todas as situações e circunstâncias podem ser transformadas. Tudo pode melhorar. 

Mas o primeiro e mais importante passo sempre será decidir buscar tratamento e apoio e isto fará toda a diferença.

E quais são os sinais de alerta?

Tentar ajudar alguém, neste sentido, depende da nossa capacidade de reconhecer as pessoas que estão em perigo e podem estar em risco. Existem algumas chaves que podem ser percebidas por todos que se interessem por aquele ser humano em sofrimento. Algumas delas:

1 – Ideação (pensamentos suicidas) – fala muito no tema e procura informações/notícias a respeito;

2 – Abuso de substâncias – começa a beber demais, fumar demais e usar drogas em abundância;

3 – Sensação de inutilidade – comenta que não serve para nada, que nada do que faz é bom e em nada se sai bem;

4 – Ansiedade constante – apresenta medos difusos e frequentes;

5 – Sentimento de falta de perspectivas – perde o interesse em atividades que anteriormente apreciava; não tem mais vontade de recomeçar ou começar coisas;

6 – Sensação de desesperança e de desamparo – ainda que existam pessoas dispostas a fornecer apoio, não percebe qualquer sinal de empatia; seu mundo encontra-se sombrio e ameaçador;

7 – Falta de espaço para o consolo – quando não percebe sequer suas necessidades emocionais; não permite mais a aproximação das pessoas que antes lhe eram caras;

8 – Raiva – diante do seu isolamento passa a enxergar o mundo como algo assustador e as pessoas como ameaças potenciais; transforma-se numa pessoa muito agitada propensa a atos/respostas agressivos ou violentos;

9 – Imprudência em diversos aspectos da vida – dirige perigosamente; adota hábitos sexuais promíscuos; deixa de medicar-se; alimenta-se mal; abandona o autocuidado e negligencia suas necessidades básicas;

10 – Mudanças dramáticas de humor – a pessoa antes satisfeita e tranquila transforma-se em alguém predominantemente impaciente e impulsivo.

11 – Mudanças pessoais bruscas – perde ou ganha peso rápido demais; sente-se cansado a maior parte do tempo; muda drasticamente hábitos alimentares e de sono;

Existem, ainda, outros comportamentos a serem percebidos e que podem sugerir que alguém está em risco de suicídio que incluem algumas expressões verbais diretas e indiretas como: “Eu não quero mais viver“, “Não há mais nada para viver“, “As pessoas ficarão melhor sem mim“, etc.

No entanto, esta realidade continua a ser largamente ignorada.

Para os amigos e famílias resta o sentimento de perda que é agravado pela sensação de que algo poderia ter sido feito: “como não fomos capazes de detectar que isso iria acontecer?”

Culpa e tristeza ficam misturados à desolação que, em geral, é vivida em silêncio numa martírio onde sobram perguntas e faltam respostas. São as outras vítimas. E sobreviventes também precisam de ajuda para avançar. E não existem somente mortes por suicídio. É preciso contabilizar as tentativas sem ‘sucesso’.

As mulheres predominam nas tentativas e homens nas ações concluídas. E isto parece não chamar a atenção dos estudiosos nem dos humanistas. O que, certamente, indica que algo de muito ruim está acontecendo com o Brasil e com nossas relações dentro desta sociedade.

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