O AUTOCONHECIMENTO EVITARIA MUITAS TRAGÉDIAS

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“E a gente vive junto,
E a gente se dá bem,
Não desejamos mal a quase ninguém.
E a gente vai à luta,
E conhece a dor,
Consideramos justa toda forma de amor.”

In: Toda Forma de Amor – de Lulu Santos

Estou para ver sofrimento mais inútil do que este provocado pela “aversão” à homossexualidade.

Os homofóbicos deveriam urgentemente praticar uma completa e sincera autorreflexão.

É o que sugere, aliás, um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology que afirma que é muito possível encontrar, dentre os indivíduos mais hostis em relação aos gays ou que mantêm fortes opiniões contra suas existências, pessoas que possuam profundos desejos em relação ao mesmo sexo, embora busquem desesperadamente negar.

O preconceito, segundo os pesquisadores, também pode resultar de pais autoritários, particularmente aqueles com visões também homofóbicas.

O estudo mostra que se você tem esse tipo de reação visceral em relação a um grupo gay, primeiramente deveria perguntar a si mesmo (a): “– Por que me sinto assim?”

E é exatamente isto o que propõe o coautor do estudo e professor de psicologia da Universidade de Rochester, Richard Ryan.

Porque, desta forma, essas emoções intensas serviriam como um apelo à autorreflexão. E ao autoconhecimento.

A pesquisa, publicada na edição de abril de 2012, e bastante atual, revelou as nuances dentro deste tipo de preconceito que, levado ao extremo, pode alcançar consequências terríveis. Por isto ele é hoje considerado um dos 10 comportamentos humanos mais destrutivos.

Muitas vezes as pessoas sentem-se ameaçadas por gays e lésbicas porque temem seus próprios impulsos. Além disso, aqueles que oprimem os outros muito provavelmente foram ou ainda são vítimas da opressão. Logo, aquilo que não “toleram”, na verdade, demonstra o que não conseguem aceitar em si mesmos.

O estudo, que envolveu estudantes universitários da Alemanha e dos Estados Unidos, revelou haver uma significativa contradição entre o que eles afirmavam acerca de sua sexualidade e sua implícita orientação sexual.

Os participantes também indicaram seu próprio nível de homofobia, tanto explícito quanto implícito. Numa tarefa de preenchimento de frases, eles escreviam as três primeiras palavras que lhes viessem à mente. Em algum momento, no meio deste teste, os alunos se depararam com a palavra “gay”. A partir daí foi possível observar o quanto isto afetou a quantidade de palavras agressivas usadas a contar deste registro.

Os estudantes que indicaram vir de famílias autoritárias mostraram maior discrepância entre as duas medidas de orientação sexual.

Em uma sociedade que se deseja predominantemente heterossexual, conhecer a si mesmo pode ser um desafio para muitos indivíduos gays“, disse Netta Weinstein, professora da Universidade de Essex, no Reino Unido. E conclui:

Mas em famílias controladoras e homofóbicas, assumir uma orientação sexual ‘minoritária’ pode ser aterrorizante.

Os participantes que relataram sua heterossexualidade, ainda que tenham escondido seus desejos em relação ao mesmo sexo, também foram os mais propensos a mostrar hostilidade em relação aos indivíduos gays, incluindo as reconhecidas atitudes homofóbicas, o endosso de políticas contra gays e todos os tipos de discriminações além do apoio a punições mais severas para homossexuais.

A pesquisa pôde ajudar a explicar os fundamentos das intimidações praticadas pelos homofóbicos e seus crimes de ódio, como observaram os pesquisadores.

A homofobia pode finalmente ser observada como um indicador do próprio conflito interno da pessoa com sua orientação sexual. Este conflito íntimo pode ser claramente visto nos casos em que figuras públicas declaradamente homofóbicas são descobertas envolvidas em atos com o mesmo sexo, afirmaram os estudiosos. 

Em 2010, o proeminente ativista anti-gay e cofundador do ultra conservador Conselho de Pesquisa da Família, George Rekers, foi visto, fotografado e denunciado durante suas férias acompanhado por um jovem rapaz contratado por ele em um site gay.

Nós rimos ou zombamos de tal hipocrisia flagrante, mas de uma forma real, essas pessoas muitas vezes podem ser vítimas da repressão e experimentar sentimentos exagerados de ameaça“, disse Ryan. “A homofobia não é motivo de riso porque pode ter consequências trágicas“. Como são os casos de tantos assassinatos.

Mas por que tantas figuras políticas e religiosas que lutam contra os direitos dos homossexuais são frequentemente implicadas em encontros sexuais com parceiros do mesmo sexo?

O pregador e líder evangélico Ted Haggard – casado, pai de cinco filhos e conhecido por sua luta contra o casamento gay – pregava que a homossexualidade era um pecado, mas precisou renunciar em 2006, após um escândalo envolvendo um garoto de programas com quem também consumia metanfetaminas; Larry Craig, um senador dos Estados Unidos que se opôs à inclusão da orientação sexual na legislação sobre crimes de ódio, foi preso por suspeita de conduta lasciva em um banheiro masculino e Glenn Murphy Jr., líder da Convenção Republicana Jovem e um oponente do casamento homossexual, foi acusado de agressão sexual contra um outro homem.

Javier Armando Pascagaza, líder e fundador da Fundación Marido y Mujer, ONG colombiana que defende a manutenção da “família tradicional” e luta contra o casamento homoafetivo – além de também ter conseguido anular vários destes enlaces – foi ‘acusado’ de ser gay por um ex-colega do seminário da Companhia de Jesus, que Javier cursou visando tornar-se padre jesuíta.

George Rekers, conhecido ativista anti-gay, psicológo e cofundador do Family Research Council – uma organização conservadora que milita contra os direitos LGBT – foi pego com um garoto de programa do site Rentboy.com, em maio de 2010, registrado por câmeras enquanto voltava de uma viagem pela Europa. O jornal Miami New Times publicou o ‘escândalo’ mostrando a história.

O brasileiro Sérgio Viula, casado por 14 anos e pai de dois filhos, foi um pastor batista e líder do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia) que condena a homossexualidade afirmando que “Deus condena a intimidade entre iguais” e declara o objetivo de “curar gays” ensinando-os a reprimir sua sexualidade. Ocorre que em 2002 Viula, cansado de tentar sem sucesso reprimir sua atração por homens, abandonou o movimento e assumiu sua homossexualidade.

O empresário e congressista americano David Dreier começou na política em 1978 aos 25 anos e fez uma carreira de sucesso até se aposentar em 2013. Foi um grande opositor dos direitos LGBT até que o público descobriu o que todo o Congresso americano já sabia: havia um envolvimento amoroso entre Dreier e seu chefe de gabinete, David, e ambos viviam juntos no sul da Califórnia há muitos anos.

O republicano Steve Wiles sempre foi um forte opositor à união entre casais homossexuais americanos. Porém, em maio de 2014 a imprensa noticiou que ele trabalhara durante anos como drag queen num clube gay da Carolina do Norte utilizando o nome de Miss Mona Sinclair.

Há menos de um ano, o americano Omar Mateen matou 49 pessoas numa boate frequentada pelo público LBGT de Orlando. Logo depois, foi revelado que o atirador visitava o local com frequência e também se utilizava de aplicativos para encontros gays.

Uma tese bastante crível é que os impulsos homossexuais, quando reprimidos por vergonha ou medo, podem ser expressos como homofobia. Freud famoso chamou este processo de uma “formação reativa” – a batalha furiosa contra o símbolo exterior de sentimentos que estão internamente sendo sufocados. 

É uma teoria convincente – e há muito persistem razões científicas para nela acreditar. A citada edição do Journal of Personality and Social Psychology fornece evidências empíricas de que a homofobia pode resultar, em grande parte, da supressão do desejo pelo mesmo sexo.

Mas é importante enfatizar o óbvio: nem todos os que se desagradam com a homossexualidade são gays que sentem secretamente atração pelo mesmo sexo. 

Mas é possível inferir que aqueles que feroz e insanamente lutam contra os LGBTs sejam, provavelmente, indivíduos lutando contra aspectos de si mesmos, tendo sido eles próprios vítimas da opressão e da falta de aceitação.

A vergonha de ser homossexual interiorizando a homofobia.

Como outros grupos estigmatizados, gays e lésbicas são, em muitos aspectos, filhos de uma espécie de vergonha seletiva. A vergonha é um sentimento de vulnerabilidade universalmente disponível, mas não universalmente compartilhado entre os indivíduos e as categorias de indivíduos. Somos teoricamente iguais perante a vergonha, mas no mundo social real, alguns são mais “iguais” do que outros.

A vergonha é um dos mecanismos mais poderosos através dos quais a ordem social pretende se “manter” e manter a todos sob seu poder, seja para impedir o que “normal” se afaste do “caminho certo” ou empurrando o “anormal” para se esconder e permanecer invisível.

Mais radicalmente, a vergonha acerca da homossexualidade expõe a crença no mito de que há, de fato, nas dobras do corpo ou nas profundezas da consciência, um “algo” para se esconder ou se revelar – e o que é exatamente convidado para se envergonhar.

Da vergonha para o orgulho.

Por isso o orgulho sentido por gays,  lésbicas e demais gêneros, parece refletir uma compreensão de que, enfim, sua invisibilidade por ‘vergonha’ foi uma das principais maneiras que se exerceu sobre eles a dominação tanto simbólica quanto dolorosamente concreta.

A construção da identidade “gay”, tanto pessoal como coletiva, trabalha especificamente para resistir a este mecanismo cínico e perverso. O orgulho gay é o primeiro passo para a reapropriação da identidade homossexual que irá inverter o estigma com honradez, bem como ajudar no caminho entre o privado e o público, desarmando o insulto inicial que alega propriedade de uma ‘verdade’ que foi designada pela camada da sociedade que não se envergonha de ser injusta, hostil, preconceituosa e intolerante.

Esta comunidade mobilizada, então, torna-se um refúgio e uma proteção para os seus integrantes a fim de reconstruir sua dignidade longe das abstrações que, quando internalizadas e ligadas entre si, geram ódios, vergonha e falta de (auto) aceitação.

Portanto, lembre-se: mais amor, por favor. Sempre. E aceite o outro como ele é. Aceite-se assim também. Sem tirar nem pôr. Aqui e agora. Já.

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