COMO RECONHECER UM PSICOPATA

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“Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá.
Tem gente que machuca os outros,
Tem gente que não sabe amar.
Tem gente enganando a gente,
Veja a nossa vida como está.
Mas eu sei que um dia a gente aprende.
Se você quiser alguém em quem confiar,
Confie em si mesmo.
Quem acredita sempre alcança!”

In: Mais Uma Vez – Renato Russo

 

Você conhece algum psicopata? 

Pois bem. É possível que você acredite que possa identificar um deles a partir dos lampejos de maldade lançados por seu olhar ensandecido, da suástica gravada em seu antebraço ou, ainda, da sua estranha mania de enaltecer assassinatos e serial killers no meio de uma conversa durante o jantar.

No entanto, é preciso que você saiba que este tipo de manifestação é a exceção e não a regra.

Psicopatas são capazes de fingirem-se de pessoas absolutamente normais e insuspeitas. Podem até parecer um desses príncipes encantados saídos dos contos de fadas.

Sim. Porque grande parte desses indivíduos desenvolve uma capacidade impressionante de criar inúmeros artifícios a fim de encobrir suas condutas que, como eles sabem, jamais serão socialmente aceitas.

Podem parecer bons filhos e bons maridos. Pais zelosos. Vizinhos educados. Amigos generosos. Cidadãos conscientes de seus deveres. Gente do bem.

Mas possuem duas características que, quase sempre, não têm a menor condição de esconder: a frieza, muitas vezes disfarçada de “timidez exagerada” e o distanciamento, por vezes confundido com “excesso de polidez”, que mantêm em relação àqueles que façam ou não parte de seu círculo mais próximo. Suas expressões faciais parecem meio que congeladas e utilizam-se muito do vocabulário formal. A maioria tem uma inteligência acima da média. Seus disfarces funcionam tão bem que de fato imprimem um indiscutível tom de naturalidade à suas existências obscuras e nefastas.

Foi o psiquiatra norte-americano Hervey Clekley que, com seu livro A Máscara da Sanidade (1941), desvendou os mecanismos presentes nestes tipos que, com muita frequência, se mostram particularmente agradáveis e aparentemente ‘normais’. Foi o primeiro a afirmar categoricamente que eles são incapazes de se importar com o sofrimento que suas ações infligem aos outros.

Para entender de maneira clara e bastante didática as características mais surpreendentes destes indivíduos, recomendo uma famosa película argentina produzida em 2015 cujo sucesso superou o de Relatos Selvagens.

Trata-se de O Clã (“El Clan”), que conta a história verídica de uma família da classe média alta argentina que nos anos 80 ficou famosa por sequestrar empresários, receber os resgates exigidos e, ainda assim, matá-los – sem esquecer que eram escolhidos dentre os conhecidos de sua família.

Tudo isto por trás de uma impressionante fachada de normalidade familiar.

Arquimedes Puccio, o patriarca que liderava o clã com mão de ferro, era um contador público ligado ao Ex-Side (Secretaria de Inteligência) e fazia parte do grupo de extrema-direita Tacuara e do Triplo A (Aliança Argentina Anticomunista).

Na verdade, depois descobriu-se que ele não tinha qualquer ideologia e que se utilizava da política exclusivamente para encobrir a finalidade econômica de seus sequestros.

Era um homem sádico e calculista que tratava suas vítimas com requintes de crueldade e, depois, executava-as sem dó nem piedade. 

O cativeiro utilizado era o sótão e o porão de sua própria casa e, aparentemente, seus filhos mais novos não faziam ideia do que passava no local.

Este psicopata ensinou à sua família que o indivíduo tem todo direito de buscar o próprio prazer, custe o que custar – e acima de qualquer coisa. Desta forma pretendia criar a própria linhagem de psicopatas.

O único filho – dentre os cinco – que decidiu fugir ao perceber o que ocorria nas sombras da bela morada foi o caçula dos rapazes. O que demonstra que é possível desvencilhar-se de uma estrutura perversa – desde que haja uma réstia de princípios verdadeiramente humanos.

Em 1985, com a prisão do grupo, a população argentina ficou perplexa e indignada diante da descoberta desta família que costumava rezar diariamente antes de cada refeição. Afinal, o país ainda se recuperava da ditadura militar (1976-1983) que ceifou a vida de mais de 30 mil pessoas.

Mas o que temos de mais perturbador neste exemplo é o fato de que o mundo, efetivamente, pode estar sendo dirigido por psicopatas deste calibre.

Também é fundamental reconhecer que muitas pessoas se sentem atraídas por estas figuras porque, de fato, parecem ser bons tomadores de decisões além de líderes aparentemente confiantes e confiáveis – o que não é o mesmo que dizer que tomam as decisões certas ou que sejam grandes líderes.

Afinal, todo psicopata é alguém com níveis insignificantes de empatia, amor e remorso.

O que equivale dizer que ele basicamente não sente nada pelos outros. Mesmo que finja sentir e seja bastante convincente nesta farsa. Aliás, lembre-se de que a esmagadora maioria deles consegue ser eficiente no quesito simulação.

É até possível que sinta emoções na forma biológica, mas psicologicamente seus transtornos de personalidade o impedem de sentir qualquer coisa que se refira ao afeto. Ou seja: ele não se sente afetado por ninguém ou por nada além dos seus próprios e, muitas vezes, terríveis desejos.

É importante não confundi-los com os  exploradores, parasitas, aproveitadores, interesseiros e os arrogantes egoístas que se utilizam dos psicopatas na realização do “trabalho sujo”, porque nestes primeiros, oriundos de espécimes sub-humanas, ainda sobrevivem alguns raros traços de benevolência dirigidos exclusivamente aos entes com os quais conseguem manter laços mais estreitos. Mas o resultado da união de ambos será sempre, e inevitavelmente, dantesco.

Portanto, em resumo, o psicopata é aquele cidadão que não tem NENHUM sentimento em relação ao outro. E este ‘outro’ – que pode ser um filho, um amigo, um desconhecido, tanto faz – torna-se mero objeto a serviço de satisfazer suas ambições. Não há nenhuma preocupação com o destino da vítima, nenhuma expressão de apreço ou arrependimento. Em circunstância alguma.

Essa falta de empatia explica o fato dele não obedecer a nenhum código moral e, portanto, não observar limites para usar ou ferir outras pessoas física e moralmente. Daí a sua periculosidade.

O psicopata nunca admite culpa. Mesmo que finja reconhecê-la.

Trapaças, manipulações e violência são algumas das “armas” utilizadas pelos psicopatas para que para cada coisa se encaixe nas suas vontades. E ele odiará e tentará aniquilar todos os que criem dificuldades ou se neguem a auxiliá-lo.

Um traço  típico do psicopata é o de desvalorizar o outro para valorizar a si próprio.

Por conta do seu narcisismo, sua irritabilidade e seus recursos paranoicos, em algum momento ele será ferido em sua susceptibilidade e isto, fatalmente, fará com que seus instintos mais terríveis se aflorem – como num mecanismo de defesa.

O problema é que, diferente do neurótico comum, o psicopata vai reagir de forma totalmente destrutiva e letal.

Este provavelmente seja o motivo pelo qual ele fique socialmente isolado – ainda que cercado de pessoas. Quer dizer: pode manter-se próximo fisicamente dos outros embora emocionalmente apartado.

Logo, os psicopatas são pessoas que se irritam rapidamente – quando resolvem se irritar. Seu caráter irascível é uma das explicações para esta faceta. Não gostam de ser confrontados e, normalmente, procuram cercar-se de pessoas que jamais os enfrentem e, acima de tudo, os admirem ou os invejem.

A experiência consciente da raiva, no processo psicopata, normalmente leva à violência frente a ausência de estruturação do superego.

Uma pessoa com psicopatia está ciente dos danos que causa. Para garantir que os outros façam o que ele quer, ele usa e abusa da mentira. Há uma real intenção de manipular para atingir o que deseja. Só assim o psicopata consegue dominar e satisfazer sua personalidade narcisista.

Psicopatas não são sensíveis e são incapazes de se deixar levar pelos sentimentos humanos. Estas singularidades os fazem facilmente controlar seus medos e impulsos em público, fazendo com que pareçam carregar duas faces – a pública e a privada. Sabem lidar muito bem com as palavras tornando-as bastante convincentes.

Diante da frieza com que sempre tratam quaisquer conflitos, podem ser facilmente encontrados também entre grandes e poderosos empresários, políticos, pastores, médicos, militares, gente ocupando altos escalões na pirâmide sócio-econômica de um país, etc. Ou seja, assumindo posições nas quais exercem o corrosivo poder que tanto almejam.

O problema, evidentemente, encontra-se no que fazem com este poder em detrimento de todos. Porque, afinal, um psicopata não guarda qualquer resquício de humanidade dentro de si.

Um estudo afirma que uma entre cada 30 pessoas desenvolve este transtorno e que 70% dos psicopatas são do sexo masculino e 30% do sexo feminino. Outros gêneros ainda não entraram nesta estatística. E, finalmente, que deles existiriam cerca de cinco milhões apenas  no Brasil.

Os seres verdadeiramente humanos necessitam – a bem da sobrevivência da raça humana – identificar estes seres desprovidos de humanidade para que sejam combatidos posto que, com seus desmandos e suas selvagerias, promovem saques, guerras, desigualdades, injustiças e sofrimentos atrozes.

E, então, depois deste breve apanhado você pode categoricamente afirmar que desconhece a existência de alguns destes psicopatas espalhados e vivendo em paz por aí?

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