POR QUE TEMOS TANDO MEDO DE MORRER?

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“A dor na carne e na alma, a calma a se propagar,
A durar dia após dia, a varar noite, a dormir,
A ver o amor a vir a ser, a ter e a tornar
A amanhecer de novo e de novo um novo dia…
Isso às vezes me agonia, às vezes me faz chorar
In: Não Tenho Medo da Vida – de Gilberto Gil

A grande maioria dos nossos receios não nasce com a gente, mas é aprendida através de experiências traumáticas ou enquanto observamos as reações das pessoas mais próximas diante dos seus próprios medos.

Assim, o medo pode aparecer na infância e ficar impresso automaticamente em nosso inconsciente.

Como Freud bem registrou, se decidirmos conscientemente ignorar nossos medos, o corpo nos trairá através da angústia ou da doença- uma vez que que ele tem a sua própria memória – e se decidirmos ‘apagar’ nossos traumas, ele tratará de nos fazer lembrar, uma vez que esta angústia se transformará em uma tensão física que não terá condição de ser elaborada conscientemente.

Todo o afeto de uma tensão recalcada será deslocado e, desta forma irreconhecível, reaparecerá transformado em uma doença ou numa angústia que aparentemente não terá um motivo.

Logo, o medo tem a vantagem de ser claramente focado num objeto. É quase um “avanço” em relação à angústia. De alguma forma, todo o medo tem uma função estruturante. Introduz uma ‘ordem’ na desordem das nossas emoções mais difusas.

Diante disto, a morte – fonte das nossas maiores angústias – longe de ser uma mera abstração, permanece como um tema do qual, invariavelmente, tentamos fugir como se acontecesse apenas com o outro ou na família de alguém.

Por ser quase sempre encarada sob o enganoso filtro do pretenso ‘distanciamento’, sua reflexão foge tanto do círculo das conversas gerais quanto das preocupações de ordem acadêmica ou educacional. Nos acostumamos a aprender sobre os mais diversos temas: história, geologia, matemática, psicologia, etc. Enfim, é interminável a lista de coisas que podemos estudar, experimentar, questionar, aprofundar e aprimorar. Mas no que se refere à nossa finitude, quase nada é seriamente debatido ou aprendido no dia a dia, nas academias ou, mesmo, desenvolvido e assimilado como parte natural da vivência humana.

Para o senso comum, parece que ninguém morre e só interessa o que e quem vivo permanece. Para a sociedade de consumo nada se desintegra. Nem a vida e nem, muito menos, a juventude que se cristaliza nas dissimuladas aparências de imortalidade que, alucinadamente, muitos imaginam poder adquirir.

Envelhecer e morrer, portanto, é para os fortes!

Porque os fracos acreditam na fraude representada pela promessa de uma inalcançável vida eterna e pela ilusão da inesgotável e constante continuidade do que somos, do que fazemos e do que deixaremos para uma tal ‘posteridade’ da qual não temos certeza nem controle.

Bobagens que só tentam encobrir o fato irrefutável de que morreremos um dia. E que isto, diferente de tudo o que experimentamos, é totalmente garantido.

Segundo Paulo Dalgalarrondo, psiquiatra e autor de diversas obras sobre saúde mental, o medo é uma emoção humana e “não uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer.

De acordo com seu grau de extensão pode ser considerado: 1. Prudência; 2. Cautela; 3. Alarme; 4. Ansiedade; 5. Pânico (medo intenso); 6. Terror (medo intensíssimo).

Em relação à morte podemos inferir que o medo se encontra entre os graus 4 e 6, o que significa que lidamos muito mal com sua existência enquanto parte natural da vida. Mas a questão que envolve o medo da morte é justamente o fato dele se tornar desproporcional, irracional e limitante. Logo, a ameaça de perder a vida pode tornar-se tão central e aterrorizante que o fóbico passa a evitar toda e qualquer situação que se apresente enquanto uma potencial ameaça à sua integridade.

Em menor ou maior grau, muitos de nós acabamos por comprometermos a vida pessoal e social em função disso. Esta constatação me leva a concluir que a morte, desde sempre, foi e continua sendo negligenciada e considerada um tabu uma vez que permanece associada ao sofrimento e a angústia. E os temores de experimentar esta inescapável experiência são deflagradores de sofrimentos físicos além de reações fisiológicas e orgânicas marcantes que contribuem para alterar a capacidade e a autonomia do ser.

Frente a isto, não é de se estranhar que uma palestra dirigida a médicos e estudantes de medicina tenha levado tantos deles à lágrimas. O assunto? “Cuidados Paliativos Para o Doente Terminal.”

Nela, a médica geriatra Ana Cláudia Quintana Arantes aponta, com muita delicadeza e sensibilidade, para esta incompreensível lacuna e afirma que, quando tratada com clareza, destemor e respeito, a perspectiva da morte pode oferecer um momento muito precioso de significação e de finalização de diversos aspectos da vida. Afinal, quem não deseja falar aquela verdade a alguém? Ou confessar algo que considera importante? Ou ensinar uma coisa que descobriu e que jamais dividiu com outros? Quem não deseja finalizar algo ou falar com alguma pessoa – ainda que pela derradeira vez?

Então, o silêncio e as mentiras que, por vezes, acompanham este momento, impedem que muitas coisas importantes sejam sentidas, vividas e faladas. Um ato final tolhido pelo medo dos que ficam – mas que também experimentarão isto na própria pele, ainda que prefiram se enganar.

E, assim, a doutora Ana Cláudia observa: Os cuidados paliativos são absolutamente necessários para a viabilidade de uma boa qualidade de vida na finitude humana. Ter alguém que se importe com seu sofrimento no fim da vida é uma dessas coisas que trazem muita paz e conforto para quem está morrendo e para seus familiares. Todo mundo precisa desse trabalho pois todo mundo vai morrer um dia.”

E continua:

“No Brasil, nove em dez pessoas vão morrer de morte anunciada, ou seja, de doença degenerativa ou câncer. Numa edição do “The Economist” sobre índice de qualidade de morte pelo mundo em 2010, numa análise comparativa de 40 países, o Brasil ficou em 38º lugar. Como o terceiro pior país do mundo em qualidade de assistência à morte e eu penso que a responsabilidade maior para mudar isso é dos médicos. Poderíamos dizer que seja responsabilidade também da sociedade brasileira, ainda extremamente imatura frente a essa realidade. 

A grande dificuldade que a gente tem no Brasil é que não se fala sobre a doença para o paciente. Não se fala de morte nas rodas de conversa. Por que não somos preparados para morrer? As pessoas precisam saber que não há fracasso diante das doenças terminais… é preciso ter respeito pela grandeza do ser humano que enfrenta sua morte. O verdadeiro herói não é aquele que quer fugir na hora do encontro com sua morte, mas sim aquele que a reconhece como sua maior sabedoria. 

Hoje, mais de um milhão de brasileiros morrem a cada ano. E a grande maioria morre com grande sofrimento. Um dia seremos parte desta estatística, nossos amados serão parte desses números. E que histórias de últimos dias contarão a nosso respeito? Do que lembraremos dos últimos momentos de quem amamos tanto? O que fazemos com o tempo que temos hoje antes que a morte chegue? ” 

Afinal, entender que tudo isto que existe agora um dia não existirá mais – independente do que somos ou do que temos – não é uma verdade desoladora. É apenas uma evidência elementar. E aceitar esta evidência que nos revela a transitoriedade da nossa própria existência pode transformar este instante atual de vida, este nosso “agora”, em algo extraordinário a ser vivido com intenso e verdadeiro encantamento.

E que tal pensar mais serenamente sobre isso? Amanhã? E por que não agora?

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