APESAR DE TUDO…. É POSSÍVEL MUDAR.

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“A Igreja conheceu o Inconsciente através do pecado.
A  psicanálise conheceu o Inconsciente através da neurose e da psicose.
Mas há um outro jeito: o dos poetas. Os poetas conheceram o Inconsciente através da Beleza. Para eles, no centro do inconsciente está um jardim. Alguém o fechou, é bem verdade. A chave se perdeu. Mas ele pode ser aberto….
O universo – os desenhos de Chagall o provam – tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o paraíso.

In: Sobre o Tempo e a Eternidade – de Rubem Alves

 

Os mecanismos inconscientes controlam a maior parte dos nossos comportamentos, nossas escolhas, nossas emoções e nossas decisões, como têm demonstrado muitas experiências em psicologia. A consciência é apenas a ponta do iceberg de processos cognitivos.

O melhor papel do nosso inconsciente – caso o levássemos realmente a sério – seria fazer-nos viver com o melhor de nossas habilidades, ou seja, com base no que aprendemos através de nossas experiências de vida, e afastar-nos de tudo aquilo que deveríamos saber que não nos fará bem.

Este é o seu aspecto mais surpreendente e benevolente, ao contrário do que suspeitam as crenças mais arcaicas.

Entretanto, algumas pessoas têm medo do seu inconsciente e negam esta parte importante de seu psiquismo, agravando ainda mais suas próprias dificuldades. As causas destes receios são variadas e podemos considerá-las enquanto medo do desconhecido – ainda que este seja a imagem refletida em nosso espelho.

Se não formos portadores de distúrbios mentais, transtornos de personalidade ou algum tipo de psicose ou de psicopatia, nossas intenções inconscientes serão sempre boas do ponto de vista do cuidado com a nossa autodefesa.

Porque o inconsciente é um reservatório inesgotável de sabedoria e conhecimento sobre nós mesmos – isto se prestarmos a atenção necessária a diversas pistas fornecidas por nossos pensamentos recorrentes, medos, sonhos e, também, atos falhos.

A forma mais danosa com a qual nosso inconsciente se expressa é repetindo tudo aquilo que apreendemos a partir do nosso nascimento e no decorrer dos anos subsequentes. De maneira consistente e cadenciada, repetimos atitudes, pensamentos, concepções, gostos, preferências ‘pessoais’, orientações políticas, opiniões e por aí vamos.

Feito uma pulsão – como Freud nomeava o impulso gerado por uma energia interna em direção a um determinado comportamento – a repetição é basicamente uma força extraordinária da qual não se consegue fugir enquanto não for devidamente compreendida.

O inconsciente é, então, uma energia excepcional que nos arremessa no sentido das escolhas que fazemos em nossas vidas, desde os amigos, passando por nossa profissão chegando até na pessoa que elegeremos como nossa parceira de vida. Tantas vezes quantas forem as tentativas.

A questão crucial reside justamente no fato de que tais escolhas são decididas a partir de processos que desconhecemos, muito embora busquemos acreditar que sejam exclusivas e racionais e que partam de conclusões individuais.

Estas “escolhas” tem esta marcante característica: sua ampla maioria se baseia nas impressões inconscientemente registradas e que nos impulsionam a reproduzir gestos, modos, gostos, práticas e pontos de vistas que não são absolutamente genuínos ou pessoais.

Logo, podemos afirmar que o inconsciente tem o poder de nos levar a repetir incessantemente modelos que juramos ser nossos, como a maneira de nos vestirmos, o jeito de nos comportarmos, como nos vinculamos amorosamente, com quem escolhemos conviver, as opiniões que defenderemos com unhas e dentes até eventualmente nos darmos conta de que as unhas e os dentes nem sequer eram da gente.

Então, como um rio desenfreado e que não conseguimos dominar, nossas compulsões muitas vezes deságuam num lugar do qual nem sequer imaginamos o nome. Por isto, tantas vezes, os filhos reeditam os mesmos medos e infortúnios nos quais viram papai e mamãe mergulhados por anos a fio.

Sem se darem conta, filhas escolhem companheiros muito parecidos com suas figuras paternas internalizadas. E, nelas, tentam remendar o que viram de errado. Com os filhos, ocorre exatamente o mesmo.

Conheci um homem que casou com uma mulher que parecia ser o oposto de tudo aquilo que temia e reconhecia em sua própria mãe – uma mulher que se transformou em sua dependente desde a morte do pai tendo ele, desta forma, sido obrigado a cuidar dela além de assumir todos as obrigações e despesas da casa . Desta forma, aos 36 anos de idade, quando conheceu uma moça livre, independente, que morava sozinha desde os vinte anos, cuidando de suas coisas e de seus projetos, não titubeou e, desta forma, casaram-se quatro meses depois, mesmo contra a vontade da genitora que reclamava do “excesso de independência” da futura nora.

Pouco tempo se passou para que Marcos percebesse que por trás daquela fachada de pura autonomia e de uma ousadia, por vezes, até agressiva, existia uma mulher insegura e carente que exagerava na aparência emancipada justamente para negar o modelo de uma mãe dependente que também buscava contestar.

Com o tempo – pouco tempo, por sinal – Marieta começou a revelar suas inseguranças e mazelas como Marcos jamais suspeitara. Não suportava ficar sozinha, queria que tudo o que os dois fizessem fosse junto e, quando resolveu ter um filho, entregou-o para o pai cuidar pois não dava conta nem de si mesma.

Logo, aquelas duas pessoas se transformaram em múltiplas e estranhas personalidades que agora tentavam reencontrar o caminho de volta pra casa.

De um lado, a mulher que tentava escapar do modelo feminino de dependência e submissão atrelado ao modelo masculino e machista envergado pelo próprio pai. De outro lado, o homem que tentava se esquivar de mulheres dependentes que procuravam homens que cuidassem delas.

Deu tudo errado, como bem podem perceber. Pois, na cegueira representada pelo não-olhar com certa distância e – por que não? –  um certo escárnio os papéis desempenhados pelos nosso pais, acabamos inevitavelmente repetindo o que mais tememos.

O inconsciente é mesmo muito esperto, jamais duvidem disto. Copiamos mesmo quando temos certeza de que estamos desconstruindo padrões e fazendo tudo ao contrário.

Muitos de nós reprisamos nossos modelos porque neles nos sentimos seguros e também porque esperamos garantir o amor parental que julgamos insubstituível. Muitos de nós os repetimos ainda que buscando a (aparente) oposição – e mesmo quando pressentimos que ela encobre a existência daquilo que desejamos negar.

De uma forma ou de outra, penso que tais identificações podem produzir coisas muito boas e produtivas em nossas vidas se fizermos um sincero exercício de observação crítica, mesmo que sem os julgamentos que tanto tememos.

Olhar com honestidade para a experiência que nos forjou enquanto seres humanos pode trazer luz à todos os nossos verdadeiros temores e desacertos nos dando condições para experimentar novas possibilidades além de magníficos voos independentes, ainda que solitários.

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