QUANTAS MULHERES SERÃO ASSASSINADAS AINDA HOJE?

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“Eu que tenho medo até de suas mãos…
Mas o ódio cega e você não percebe,
Mas o ódio cega.

E eu que tenho medo até do seu olhar…
Mas o ódio cega e você não percebe,
Mas o ódio cega.

A lembrança do silêncio daquelas tardes…
Daquelas tardes.
A vergonha do espelho naquelas marcas…
Naquelas marcas.
Havia algo de insano naqueles olhos,
Olhos insanos…
Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar…”

In: Camila, Camila – de Nenhum de Nós

 

A jovem mulher acreditava que tudo havia sido superado. Seu ex-companheiro finalmente entendera que a relação entre os dois não lhes traria mais qualquer tipo de benefício além da dor que muitos estragos causara. Os ciúmes exagerados dele pareciam finalmente controlados e ela sentia, pela primeira vez em tantos anos, uma paz que jamais concebera para si.

Pensamento sereno e corpo relaxado. O dia fora tranquilo e sentia-se animada para receber a visita aguardada para logo mais. Seu novo pretendente era, realmente, um homem incrivelmente atencioso e delicado. Fazia tempo que não se sentia feliz  e disposta a convidar alguém para sua casa. Desfrutar da companhia de quem não desejava pressioná-la e nem forçá-la a nada parecia algo simplesmente animador

No entanto, assim que ele chegou ambos perceberam que o vinho há muito guardado estava com a rolha estufada. Péssimo sinal até para quem não entendia muito desta arte. Pediram, então, outra garrafa para um destes serviços de entrega. E aproveitaram para conversar um pouco mais, e com grande entusiasmo, sobre viagens e projetos de vida. O entregador chegou e ela autorizou que ele subisse até o apartamento. A campainha tocou e o rapaz correu para abrir a porta. Atrás do entregador surgiu um homem encapuzado.

“Todos no chão!” grita ele.

Foi quando Mara ouviu um barulho intenso ao mesmo tempo em que sentiu uma forte pressão dentro do corpo. Mais um estampido seco ecoou, desta vez,  por dentro de sua cabeça. A luz apagou-se e, num instante, a vida desenrolou-se em ritmo alucinante diante dos olhos cuja vida, em poucos segundos, se esvairia para sempre.

Sua história, seu irmão, sua mãe, seu pai, seus amigos, sua família…. uma vida inteira passando feito um rolo desgovernado sobre o qual perdera todo o controle.

Não. Não desejava ir embora. Não queria partir. Tinha tantos sonhos, tantos projetos. Estudar, se formar, casar, criar uma família afetuosa, viajar. Estar perto dos seus. Amar e ser amada como sempre sonhara… sentir a vida, enfim, cumprir seu ritual sagrado.

Ser feliz parecia tão simples.

Mas Mara Silveira não pode seguir. Teve sua trajetória brutalmente interrompida naquela madrugada, justamente pelo ex-companheiro no qual confiara a ponto de retirar a ordem de restrição poucos dias antes de ser, por ele, assassinada.

Hoje seu frio assassino, Hugo Alexandre Gabrich, encontra-se preso em Belo Horizonte. Além de ter assassinado Edna Amaralina Silveira, ele também tentou matar o empresário de 42 anos que a acompanhava e que, agora, encontra-se paraplégico por conta dos ferimentos.

No Brasil, segundo o IBGE, mais de UM MILHÃO de mulheres são agredidas anualmente. O espantoso é que cerca de 85% delas preferem não registrar a queixa. 

De acordo com uma recente pesquisa, ocorrem em média 5.572 assassinatos de mulheres a cada ano, 464 a cada mês, 15,3 a cada dia ou uma morte a cada hora e meia. O Brasil é o quinto colocado no ranking mundial deste tipo de crime.

As mortes de mulheres decorrentes do fato de serem mulheres, são denominadas feminicídios ou femicídios. Estes crimes são geralmente executados por homens – parceiros ou ex-parceiros – e resultam dos abusos crescentes cometidos dentro do próprio lar e que, por isso, ‘ninguém vê’.

Mas estes números podem ser muito maiores já que a enorme maioria dos episódios de violência contra a mulher sequer chegam a ser denunciados.

Estas situações de perigo que, via de regra, as mulheres subestimam e não percebem na sua real dimensão (“afinal”, acreditam elas, “que homem seria capaz de matar a mãe dos seus filhos? ”ou “a mulher que jura amar?”) transformam o domicílio familiar no local onde ocorre a maior parte dos casos.

E isto nos coloca uma suposição: dado que ainda convivia com um inimigo desta ordem, é bastante provável que a jovem e bela Mara, assim como fazem grande parte das vítimas, escondesse de todas as pessoas, e até dos amigos mais próximos, as ‘pequenas’ e cotidianas brutalidades que permanecia sofrendo.

Para a mulher, de maneira geral, persiste ainda a ideia romântica de que aquele homem com o qual namorou ou com quem se casou, e  que foi o depositário de todo o amor que podia oferecer, zelará por sua segurança e integridade física e pessoal – independente de quaisquer conflitos. Por isto, muitas vezes, mentem para esconder as marcas das agressões. Sentem vergonha por não serem capazes de, com seu amor, controlar a fúria assassinada do marido, ou namorado, no qual tanto acreditaram.

Recebo no consultório, há anos, mulheres casadas com tais predadores. Estes, invariavelmente, apresentam-se como homens carismáticos, inteligentes e divertidos. Para o público, mostram sua faceta mais simpática – o que torna a percepção de sua psicopatia ainda mais difícil.

Algumas só se dão conta de todo o mal quando percebem nos filhos os mesmos comportamentos do pai – ou quando, por vezes, passam a agir assim contra elas próprias.

Portanto, é certo que a mulher leva muito tempo para perceber que aquelas mal disfarçadas manifestações agressivas, assim como as reações desproporcionais do companheiro, fazem parte de um caminho sem volta. Isto porque a violência dos homens tende a criar um contexto envolvendo medo e controle

E quando uma esposa/namorada – que acredita estar inserida no que todos esperam ver como casamento/namoro ideal – não deseja mostrar suas mazelas, creiam, ninguém vai mesmo conseguir avistar qualquer pista.

Por alguma razão estranhíssima, no entanto, quando estes crimes repulsivos e covardes (uma vez que usam de forças contra as quais a mulher não tem mesmo qualquer possibilidade de defesa) vêm à tona, continuam sendo chamados de “crimes passionais”.

Suspeito que esta denominação esteja a serviço de, descaradamente, manter a impressão de que o motivo que leva um homem a matar uma mulher seja ‘simplesmente’ a paixão –  que, segundo o dicionário Michaelis, significa também: o “movimento impetuoso da alma para o bem ou para o mal”.

Ainda hoje, para que a mulher se submeta à vontade do denominado “pater familias”, deve desprover-se de autonomia e encarnar toda sorte de “virtudes femininas”, tais como: subserviência, obediência cega, silêncio, fidelidade, pureza, humildade e, também, um certo grau de pobreza intelectual – mesmo que seja inteligente e perspicaz.

Preste bastante atenção. Esta espécie de sentimento justificado como ‘motivador’ de crimes tão hediondos e brutais é o alimento ácido da alma pretensiosa, egoísta, egocêntrica e vaidosa. É tudo, menos amor. É o ódio que não tolera defeitos, inseguranças ou negações; é aquele que, mesmo sem dar, exige receber sendo exclusivo e único receptador.

A vítima deste tipo de ódio, camuflado de “paixão”, nada mais é do que um mero objeto que este ser altamente perverso quer possuir mesmo que saiba que fere e faz sangrar, uma vez que escolheu acreditar que protegerá a própria e frágil virilidade negando na companheira a possibilidade de existir de maneira mais íntegra e realizada.

Desta forma, cabe-nos, então, perguntar:

A quantas mortes de Mara Silveira, Mariana de Araújo Costa, Gleice Kelly dos Santos, Ana Carolina Amorim, Gerusa Percílio, Tânia Aguillar, Anelise Gross Guimarães, Talita Brenda Ferreira, Simone Maldonado, Mércia Nakashima, Patrícia Longo, Sandra Gomide, Eliane de Grammont, Ângela Diniz, Bárbara Carreiro, Camila Duarte, Cenir de Freitas, Salete Cavalheiro, Luciana Feliciano, Dora Siqueira, Jucimara Martins, Andreia Vasconcelos Moura, Luiza Straub Araújo, Cícera Alves de Sena, Regiane Alves de Almeida, Alzenir de Oliveira Santos, Izabella Cazado, Adriana Pessoa, Amanda Bueno, Maria Islaine de Morais, Hettyany Veras, Juliana Paiva Martins, Solange Campos da Silva, Rosemary Justino, Geni Pereira Soares, Suellen Pereira da Costa, Andreia Bezerra Nóbrega, Leda Marta, Clícia Alcântara, Miriam Roselene Gabe, Mayara de Jesus Silva e de tantas outras centenas de milhares – quase invisíveis – teremos de assistir até que suas memórias consigam alcançar alguma paz?

Quantas mulheres ainda terão de morrer nas mãos de seus algozes para que possamos entender que isto não pode mais continuar acontecendo nas sombras de uma sociedade cega e ainda profundamente machista como a nossa teima em permanecer?

Estamos diante de uma situação que não reconhece a realidade da mulher em nosso país e, desta forma, alimenta a continuidade deste feroz exercício de violência.

Não existem estatísticas dando conta da porcentagem de homens condenados por estupro no Brasil. Mas se na França – onde estes dados são catalogados – apenas 1,5% dos estupradores são condenados, o que os impedirá que esta horda, além deste crime, cometa também homicídios?

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