E VOCÊ, JÁ DUVIDOU DE ALGUMA CERTEZA HOJE?

 

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“Da sombra eu tiro o meu sol,
E de fio da canção
Amarro essa certeza,
De saber que cada passo
Não é fuga nem defesa,
Não é ferrugem no aço,
É uma outra beleza
Feita de talho e de corte.”

In: Canto Latino – de Milton Nascimento

Por que tantas pessoas têm crenças que parecem tão claramente falsas? 

Recentemente uma pesquisa revelou que mais de 80 milhões de americanos acreditam que somos visitados por seres de outros planetas, enquanto outros estudos mostram que milhões de pessoas também acreditam em fantasmas, percepção extrassensorial e, claro, abduções alienígenas. A estatística ficou mais ou menos assim: Fantasmas (55%), Aliens (51%), UFOs (42%), Anjos (27%) e algum Deus (25%).

Os estudiosos afirmam que a maioria dessas crenças são claramente falsas e todas elas partilham de um princípio comum. Provavelmente quando o primeiro ser humano percebeu que poderia fazer o fogo esfregando dois gravetos.

No clássico de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”, quando Alice diz para a Rainha Branca que ela não pode acreditar em coisas impossíveis, ouve como resposta: “Atrevo-me a dizer que você não teve muita prática”. E ainda:

“Isso é impossível? Só se você acreditar que é! Às vezes eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã!
Um: Há uma porção para te encolher
Dois: Um bolo que pode te fazer crescer
Três: Animais que podem falar
Quatro: Gatos que podem desaparecer
Cinco: Um lugar chamado País da Maravilhas
Seis: Eu posso…”

Crenças nascem a partir de uma característica exclusivamente humana. Sozinhos no mundo animal, os seres humanos buscavam entender todos os mecanismos que envolviam – e ainda envolvem – o binômio causa e efeito – o que certamente, e em última análise, nos levou à invenção de ferramentas, ao rápido crescimento da tecnologia sofisticada, e, claro, às crenças.

Mesmo os primeiros seres humanos entendiam que muitos eventos que moldavam suas vidas resultavam de causas específicas. Portanto, calcularam que sempre deveria haver uma causa por trás de cada evento.

Pesquisando esse tema, o biólogo Lewis Wolpert chegou ao surgimento da religião. Afirmou que o ser humano precisou crer na existência de algum propósito por trás de tudo, uma causa última na existência do homem e do universo.

Wolpert é um ateu declarado que confessa que não está tentando converter ninguém ao ateísmo. E sua premissa básica é simples. Nós todos sabemos que muitas pessoas, se não nós mesmos, possuem algumas crenças que são verdadeiros absurdos, ou pelo menos grosseiramente carentes de provas. Por quê?

Tudo vai nos levar de volta ao nosso primeiro personagem – aquele que esfregou os dois gravetos.

Nenhum outro animal tem estrutura mental capaz de compreender a lei da causa e efeito, diz Wolpert. Os chimpanzés, macacos e os notoriamente inteligentes corvos da Nova Caledônia chegaram perto, mas não chegarão ‘lá’.

Segundo o estudioso e educador Luciano Lima, o que nos distanciou dos outros animais foi justamente a nossa capacidade de conversar e, desta maneira, de nos combinarmos. O animalzinho que será abatido só sentirá medo desta possibilidade no momento em que puder observar seu semelhante sendo sacrificado. Nenhum outro animal consegue passar experiências ou “contar” histórias passadas e, muito menos, se organizar para vencer dificuldades comuns.

Mas algumas coisas mais complexas ou difíceis de compreender de maneira racional, também levam alguns seres humanos a criar aquilo que Wolpert e outros cientistas resolveram chamar de a “máquina de crenças” funcionando dentro de nossos cérebros.

E muito provavelmente seja esta “máquina” que tem feito tanta gente em nosso país acreditar nos verdadeiros psicopatas que andam usurpando o rumo da nossa história.

Uma vez que buscamos acreditar que há uma razão para tudo, isto também nos deixa predispostos a acreditar em algumas coisas para as quais há pouca ou nenhuma evidência. Se certa crença faz sentido fora de um evento que apresenta uma outra forma sem sentido, então deve ser verdade, não é?

Desde que Sigmund Freud desvendou muitos dos segredos do subconsciente, grande parte dos cientistas passou a defender que muitas de nossas crenças estão fora do nosso controle porque são moldadas a partir de percepções ora desconhecidas posto que enterradas no interior do nosso psiquismo. 

Pesquisadores que estudam a psicologia e a neurociência da religião estão ajudando a explicar porque tais crenças são tão duradouras. Eles estão descobrindo que a religião pode, de fato, ser um subproduto do modo como nosso cérebro trabalha, obedecendo a tendências cognitivas para buscar a ordem do caos, para antropomorfizar nosso ambiente e acreditar que o mundo ao nosso redor foi criado para nosso uso.

E, assim, ele deixa de parecer tão hostil como tantas vezes representa ser.

Crianças pequenas, por exemplo, tendem a acreditar que mesmo os aspectos triviais do mundo natural foram criados com um propósito. Se você perguntar à elas por que algumas pedras são pontudas, por exemplo, elas podem dizer algo como: “É para que os animais não se sentem sobre elas e as quebrem“. Se você perguntar-lhes por que os rios existem, eles dizem que é para que possamos nadar ou pescar.

Os adultos também tendem a procurar um sentido em tudo, particularmente durante períodos de incerteza.

Segundo um estudo coordenado pela revista Science, as pessoas estariam mais propensas a ver padrões em uma exposição aleatória de pontos se os pesquisadores os preparassem primeiro para sentir que não tinham nenhum controle sobre eles.

Esse achado sugeriu que as pessoas sempre estarão preparadas para ver sinais e padrões no mundo à sua volta, conforme concluíram os pesquisadores.

Quem possui sensação de descontrole “tem mais probabilidade de perceber uma série de padrões ilusórios”, escreveram os psicólogos Jennifer A. Whitson e Adam D. Galinsky, autores do estudo, que concluíram: “O aumento na percepção de padrões tem uma base motivacional ligada à necessidade de estruturar o mundo numa forma simplificada e mais fácil de manejar.” 

Na mesma medida, o hábito é uma ação que fazemos regularmente, muitas vezes sem pensar. É apenas o que fazemos. Se fazemos uma ação e nos sentimos bem ou obtemos os resultados desejados, escolhemos refazê-la repetidamente. Alguns hábitos são benéficos e alguns podem ser prejudiciais. Se é prejudicial, geralmente é chamado de vício. Se é benéfico, é chamado de uma boa disciplina. Nosso dia está cheio de pequenos “hábitos” que fazemos inconscientemente. Assim, nossos hábitos se tornam quem nós somos, ou eles se tornam nosso caráter.

Por conta disto é que, tantas vezes, preferimos nos encastelar em convicções mesmo que saibamos o quão frágeis são e ainda que duvidemos delas.

É bem possível que o façamos para não destoarmos do grupo ao qual escolhemos pertencer. Outras vezes, apenas para não aborrecermos pessoas próximas e que queremos continuar admirando ou, ainda, porque nos sentimos pressionados a não questionar ou duvidar.

Mas admito que talvez as pessoas só acreditem mesmo no que querem acreditar.

O astrônomo Carl Sagan tinha uma fórmula maravilhosa para medir a veracidade de qualquer crença:

“Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Na ausência de evidências extraordinárias há excelentes razões para ser cético sobre as afirmações”. 

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