SOBRE BRUXAS E FADAS

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“Descobrir da onde veio a vida,
Por onde entrei deve haver uma saída;
Mas tudo fica sustentado pela fé,
Na verdade ninguém sabe o que é.

Meninas são bruxas e fadas,
Palhaço é um homem todo pintado de piadas….
Céu azul é o telhado do mundo inteiro,
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro.”

In: Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou – de O Teatro Mágico

 

 

Na última semana recebi uma matéria onde, em meio a duras críticas a um líder político, destacava-se uma estranha avaliação acerca da esposa dele que ali era chamada de bruxa.

O texto  descrevia esta senhora como dona de uma personalidade forte e dominadora e aproveitava para levantar conjecturas sobre sua responsabilidade na transformação do companheiro (no trânsito que teria sido percorrido do bem até o mal), chegando a ponto de afirmar que era ela quem comandava a família e o governo – este último protagonizado exclusivamente pelo marido.

É bastante provável que os responsáveis pelo conteúdo “jornalístico” tentassem nos fazer acreditar que tanto a família quanto o governo seriam formados por um bando de criaturas ingênuas e, desta forma, submetido ao controle de uma mulher fria e poderosíssima.

Só que não.

O artigo pecava por um flagrante e indisfaçado “(m)achismo”. Chamar uma figura controversa e degenerada de “bruxa” como uma forma de ofendê-la torna-se, em si, um verdadeiro ultraje às autênticas bruxas da nossa história. E uma ofensa geral contra todas as mulheres.

Sabemos que as mulheres denominadas bruxas na Idade Média eram justamente aquelas consideradas hereges porque não seguiam os dogmas do catolicismo pregado pela Igreja.

Nos povoados mergulhados em muitas superstições (na França do século 15, por exemplo) existem registros de que algumas epidemias que alcançavam seus habitantes chegaram a gerar um tipo de histeria coletiva onde a população culpava e caçava mulheres – fossem elas curandeiras, parteiras, cozinheiras ou apenas místicas – como culpadas pelas doenças. Estas mulheres (e alguns homens também) depois de presas eram levadas às fogueiras. Logo, tratava-se de preconceito explícito, injustificado e irracional.

Há registros dando conta de que milhares de pessoas foram executadas acusadas de bruxaria; queimadas por ensandecidos que acreditavam no poder “purificador” das chamas.

O certo é que, inspirados pela inveja e atração que estas mulheres provocavam, seus detratores espalhavam que elas teriam firmado um “pacto com o demônio”.

Por conta de reunirem-se para a troca de conhecimentos sobre ervas, terapêuticas nativas, partos, questões humanas e pessoais, eram acusadas de possuírem “poderes sobre-humanos” capazes de provocar todo o tipo de problemas – de doenças, desequilíbrios mentais e espirituais até epidemias, calamidades e fenômenos da natureza.

Mas a verdade é que o povo desgraçadamente sofrido aproveitava destes momentos para aliviar toda sorte de tensão reprimida e, desta forma, a estes seres humanos e sensíveis eram destinadas todas as palavras de ódio, todos os sentimentos mais grotescos e desumanos.

Este tipo de atitude é o que Freud classificou como deslocamento – que é um mecanismo de defesa que desloca determinadas ações de um alvo desejado para um alvo substituto. E isto ocorre quando existem razões para que o verdadeiro alvo não esteja “disponível” já que contra ele qualquer tipo de crítica está terminantemente proibido.

De 1450 a 1750 (ou seja, por 300 anos), pouca gente teve coragem de se opor a esta mentalidade que era repetida em tom de ameaça pelos pregadores católicos e durante os sermões proferidos pelos protestantes logo depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero no século XVI.

Logo, a “bruxaria” transformou-se – da mesma forma que os eventos reais como chuva, frio, calor e as doenças – em algo profundamente “real” além de ligado à natureza feminina.

Ainda que em Portugal e na Espanha as perseguições se concentrassem nos cristãos novos e judeus, no restante da Europa o número de mulheres chegou a atingir mais de 75% dos casos. Na atual Bélgica (antigo condado de Namur) o gênero feminino alcançou 90% destes casos de perseguição. Calcula-se a existência de cerca de 100.000 processos contra mulheres e de 60.000 vidas perdidas em meio às chamas. 

Cito, aqui, um pedacinho de um belo trabalho acadêmico acerca do tema:

“Ao analisarmos o contexto histórico da Idade Média, vemos que bruxas eram as parteiras, as enfermeiras e as assistentes. Conheciam e entendiam sobre o emprego de plantas medicinais para curar enfermidades e epidemias nas comunidades em que viviam e, conseqüentemente, eram portadoras de um elevado poder social. Estas mulheres eram, muitas vezes, a única possibilidade de atendimento médico para mulheres e pessoas pobres. Elas foram por um longo período médicas sem título. Aprendiam o ofício umas com as outras e passavam esse conhecimento para suas filhas, vizinhas e amigas.

Segundo afirmam EHERENREICH & ENGLISH (1984, S. 13), as bruxas não surgiram espontaneamente, mas foram fruto de uma campanha de terror realizada pela classe dominante. Poucas dessas mulheres realmente pertenciam à bruxaria, porém, criou-se uma histeria generalizada na população, de forma que muitas das mulheres acusadas passavam a acreditar que eram mesmo bruxas e que possuíam um “pacto com o demônio”.

O estereótipo das bruxas era caracterizado, principalmente, por mulheres de aparência desagradável ou com alguma deficiência física, idosas, mentalmente perturbadas, mas também por mulheres bonitas que haviam ferido o ego de poderosos ou que despertavam desejos em padres celibatários ou homens casados.

Com a ascensão da Igreja Católica, o patriarcado imperou, até mesmo porque Jesus era um homem. Neste contexto, tudo o que a mulher tentava realizar, por conta própria, era visto como uma imoralidade (ALAMBERT, Ano II: 7). Os costumes pagãos que adoravam deuses e deusas, passaram a ser considerados uma ameaça. Em 1233, o papa Gregório IX instituiu o Tribunal Católico Romano, conhecido como “Inquisição” ou “Tribunal do Santo Ofício”, que tinha o objetivo de terminar com a heresia e com os que não praticavam o catolicismo. Em 1320 a Igreja declarou oficialmente que a bruxaria e a antiga religião dos pagãos representavam uma ameaça ao cristianismo, iniciando-se assim, lentamente, a perseguição aos hereges.

A “caça às bruxas” coincidiu com grandes mudanças sociais em curso na Europa. A nova conjuntura gerou instabilidade e descentralização no poder da Igreja. Além disso, a Europa foi assolada neste período por muitas guerras, cruzadas, pragas e revoltas camponesas, e se buscava culpados para tudo isso. Sendo assim, não foi difícil para a Igreja encontrar motivos para a perseguição das bruxas.

Para reconquistar o centro das atenções e o poder, a Igreja Católica efetivou a conhecida “caça às bruxas”. Com o apoio do Estado, criou tribunais, os chamados “Tribunais da Inquisição” ou “Tribunais do Santo Ofício”, os quais perseguiam, julgavam e condenavam todas as pessoas que representavam algum tipo de ameaça às doutrinas cristãs. As penas variavam entre a prisão temporária até a morte na fogueira.”

Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/053/53angelin.htm

Aqui permitam-me um pequeno parêntese: Isto tudo precisa nos lembrar o que ocorre hoje em dia em nosso país em relação as ditas “minorias”.

Portanto, a mulher do texto citado logo no início desta postagem pode ser TUDO. Menos uma bruxa.

E quanto as fadas? Ah…. posso garantir que estas não possuem nem uma ínfima parte do resplendor e da grandeza dessas nossas bravas e fantásticas mulheres. Mas prometo falar sobre elas em um próximo post. Combinado?

QUE VIVAN LAS BRUJAS!!!!

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