CORAÇÃO DE ESTUDANTE

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“Quero falar de uma coisa,
Adivinha onde ela anda,
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar.
Pode estar aqui do lado,
Bem mais perto que pensamos,
A folha da juventude
É o nome certo desse amor.

Coração de estudante,
Há que se cuidar da vida,
Há que se cuidar do mundo,
Tomar conta da amizade.
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho,
Verdes, planta e sentimento,
Folhas, coração,
Juventude e fé.”

In: Coração de Estudante – de Milton nascimento

Aqui deste lugar onde hoje só é possível enxergar prédios e fios de alta tensão, naquele tempo se podia ver o céu. E viver parecia valer a pena porque, acima de qualquer coisa, tínhamos um futuro pelo qual sonhar e lutar.

Pega-pega, esconde-esconde, ciranda, passa-anel, amarelinha, gato-mia e cabra-cega, dentre tantas, eram algumas das brincadeiras que faziam parte do nosso existir e da nossa infância enquanto crianças zeladas pelos imprescindíveis cuidados – que todas mereciam e ainda hoje deveriam merecer.

Nossa diversão na rua que ficava dentro de um espaço que nos era familiar e onde muitos se conheciam e sabiam que podiam se apoiar, era farta de camaradagens. Nossos pais jantavam sentados conosco à mesa, nossa comida era saborosa e o saudável suco de frutas conseguia nos apetecer.

Nossos professores se dedicavam exclusivamente ao reconhecido e grandioso ofício de nos ensinar e, para isto, ganhavam um bom salário. Tanto que, na maior parte dos casos, davam aulas apenas nas escolas onde escolhiam trabalhar.

Desta forma, passei por incríveis escolas públicas e fui aprovada em dois vestibulares para uma universidade estadual.

Experiência totalmente diferente desta que é possível percebermos hoje em relação ao ensino público no Brasil. Inalcançável? E como chegamos a tamanha ruína?

Segundo um grupo de professores, algo de muito impressionante e assustador acontece com a escola pública atualmente. E um destes aspectos refere-se a certa prática conhecida entre eles como a política das Portas Trancadas.

Provavelmente por conta da falta de funcionários (que há muito não são contratados), muitas escolas decidiram trancafiar os alunos dentro de suas salas assim como manter os banheiros também trancados. Tudo ali, muitas vezes, possui grades no lugar de portas ou janelas.

Ouço de uma das professoras um relato espantoso: há alguns dias um aluno feriu-se com um estilete durante a aula. Desesperada, ela pediu aos gritos que alguém destravasse a porta. Disse que só foi socorrida cerca de quinze minutos depois e que agora sofre de um estado permanente de pânico para manter-se dentro das salas, uma vez que todas continuam sendo travadas. Por fora.

Outra docente conta que já viu alunos fazerem suas necessidades fisiológicas nas calças porque não houve tempo hábil até que conseguissem alcançar o vaso sanitário!

Aparentemente tanto esta quanto as demais mudanças na rotina escolar fazem parte do evidente processo de desumanização da escola assim como do corte visceral da conexão entre ela e o mundo que a rodeia.

As administrações escolares justificam serem estas tentativas modos de “dominar” os alunos e os professores que, segundo elas, devem  aprender a obedecer a rigidez dos horários estipulados para entradas e saídas.

Nem um minuto a menos, nem um minuto a mais. Entendeu? Nem eu.

Outra professora confessa que o primeiro dia letivo é, de fato, o primeiro dia de aula. E a primeira reunião entre os professores só acontecerá muitos dias depois. O que significa que não existe qualquer tipo de contato ou relação entre professores, direção e alunos anterior a esta data. Não existe a esperada e necessária preparação pedagógica.

Logo, não existe nada.

Professores sem tempo nem condições de se reciclar. Alunos desmotivados e sem o menor estímulo para estudar. A educação virou uma panaceia inútil que não remedia coisa alguma. Muito menos a ignorância e a desinformação que assola gerações de brasileiros.

Há, estranhamente, uma espécie de “naturalização” deste formato escolar atual. Por mais antinatural que seja. É como se as escolas brasileiras sempre tivessem sido desse jeito. Não eram. E o que é ainda mais assustador: existe uma multidão de pessoas que tem consciência disto, teme isto, mas não consegue falar sobre isto com NINGUÉM.

Tudo porque quando o professor questiona este estado de coisas numa reunião, por exemplo, é classificado como um chato e passa a ser pressionado pelos colegas – que acham “perda de tempo” este tipo de discussão  – e pela direção, que não deseja ser criticada.

Professores desumanizados e desumanizadores – mesmo que as escolas públicas admitam uma média de 45 a 50 alunos dentro de parcos 25 ou 30 metros quadrados de área, ou ainda que um laboratório seja transformado em duas salas de aulas – parecem não perceber a perda de algo mais importante que um espaço de pesquisa: sua própria humanidade.

Neste caso real, pouco tempo depois, apareceu um grave vazamento e uma rachadura no meio das salas. Em três semanas, além de terem perdido o laboratório de ciências, os alunos amargaram a perda das duas classes também. Este lugar, logo após, transformou-se num mero depósito de tranqueiras. E como se guardam inutilidades nas escolas! – exclamou a professora indignada.

Hoje, acima deste laboratório rachado, existem outras duas salas de aulas com 48 alunos abrigados em cada uma. E se ambas desabarem?

Um mestre conta que na sua escola foi a pequena biblioteca que virou uma sala de aula. Perdeu-se a biblioteca. Tempos depois, ocorreu um misterioso incêndio nesta sala que ainda guardava alguns livros jogados em um canto. Descobriram, posteriormente, que a queima havia ocorrido por conta dos papéis que ficavam diariamente expostos ao sol e que o evento fora causado por uma combustão espontânea.

Muitas das antigas escolas que abrigavam crianças e grupos escolares, hoje abrigam jovens adultos – uma vez que contemplam o ensino médio – sem terem passado por uma mínima reformar qualquer!

Desta forma, as salas de aulas passaram a operar praticamente como penitenciárias que funcionam como depósitos humanos e onde os jovens precisam se revezar para “ocuparem” seus exíguos ambientes.

Existe uma lista de alunos (onde os professores precisam pregar folhas avulsas já que os diários só comportam 55 nomes) que fica completa somente nos dias de avaliação – que é quando as cadeiras chegam a ponto de encostarem na lousa da sala, sem ceder espaço para uma mísera fileira a mais.

Os professores perguntam o óbvio:

Com tantos prédios, que antes eram fábricas, vazios, por exemplo, por que não se constroem dentro deles escolas? Nem mesmo se considerarmos que 80% da educação básica no Brasil é pública?

Segundo o site da própria Globo Brasil contabilizou-se 38 milhões de matrículas na rede pública estadual e municipal. Os dados integram o Censo Escolar de 2015

Que trabalho pedagógico é possível desta forma, ainda levando em conta as relações humanas totalmente degradadas? Como afirma a professora:

Se para a classe média é ruim, para os mais pobres é ainda pior. As crianças e os jovens ficam largados a maior parte do tempo. Expostos a toda sorte de problemas e perigos. Não almoçam mais. Tomam lanches quando podem, comem porcarias, porque não existe ninguém em casa para lhes oferecer um prato de comida. O mesmo homem que é capaz de construir um microcomputador é incapaz de educar seus descendentes. De plantar e de colher aquilo que precisa comer. De lutar para obter mais qualidade de vida. De compreender que a alimentação saudável é uma insubstituível e fundamental poupança de vida.

Desta forma, as coisas adquirem um caráter fetichista, quase mágico e irreal: ninguém sabe como nada é feito e, muito menos, de onde as coisas vêm.

A produção de tudo é tão absolutamente distante de cada um de nós que quando aparece um vídeo mostrando algo sendo produzido as pessoas ficam encantadas, hipnotizadas, como se aquilo fosse algo supra humano e não simplesmente fruto do trabalho humano. 

Do mesmo jeito desconhecem a história de seu povo e da sua nação

Numa visita a uma aldeia do Xingu, onde todos os membros produzem tudo, um estudante foi indagado por um índio: quem fez a sua calça? Seu sapato? Este seu boné? E o garoto, aturdido, descobriu que não sabia fazer nada. Não sabia sequer explicar como tudo aquilo que usava era confeccionado.

Por outro lado, os alunos percebem claramente o total descaso para com o seu futuro e a resposta que conseguem produzir, diante do que sentem como uma total violência, também é a “VIOLÊNCIA”.

Desabafa a professora, chocada:

As pessoas boas, no sentido humano, estão morrendo no sentido físico. Adoecem porque não conseguem encontrar saídas e assumem o “fracasso” como algo individual, como culpa. E esta tragédia está alcançando todos de uma forma geral e irrestrita. A esmagadora maioria dos brasileiros está comendo menos, se divertindo menos, passando menos tempo com seus familiares, com seus amigos. Vivendo com menos alegria. E a qualidade daquilo que experimentam em vida está piorando e tornando todos um bando de desesperançados infelizes.

E conclui:

Todos precisamos entender que é necessário produzir mais amizade, mais afeto, mais solidariedade, mais união. A soberba precisa ser convertida em solidariedade. As crianças hoje em dia sequer dividem a comida que têm. Todas vibram na escassez. Precisamos resgatar o sentido de comunidade, discutir e ressignificar nossos valores que foram barbarizados com a falta de laços comunitários, de bairros e de relações mais afetivas.

Segundo o educador Luciano Lima:

A esperança para tempos tão difíceis talvez seja a convicção de que o que nos impede de implodir enquanto humanidade é aquilo que em física chamamos de MATÉRIA NEGRA. Matéria, porque é possível medir sua existência por meio da força gravitacional que ela exerce. E é escura porque não emite nenhuma luz. São partículas (átomos e moléculas) que não compõem outros corpos sólidos. São elas que, de alguma maneira, conservam o equilíbrio no universo mantendo a repulsão e a atração num nível semelhante – mesmo que não possam ser vistas. Dentro das relações humanas muito provavelmente existam também estas redes invisíveis que mantêm um tipo parecido de equilíbrio. Todos nós sentimos isto de maneira muito inconsciente e intuitiva. 

Afinal, convenhamos: se a maioria de nós fosse formada por seres cruéis ou meros psicopatas, a humanidade já teria sido destruída.

Mas é preciso nos lembrarmos sempre: os jovens são a ESPERANÇA e não o perigo. E é exatamente isto o que precisamos defender neste momento. Nossos jovens estudantes que ainda possuem vigor para lutar a favor da esperança. E os educadores que ainda mantêm o afeto vivo em seus corações.

Que vivam os estudantes!

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2 pensamentos sobre “CORAÇÃO DE ESTUDANTE

  1. Excelente analise. Eu me formei no ensino médio em escola pública, e tenho orgulho disso, pois me serviu de base, para posteriormente frequentar o ensino superior, atingindo meus objetivos. É triste ver a atual situação degradante do nosso ensino.

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