UM DIA, UM ADEUS

 

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“Um dia um adeus,
Eu indo embora,
Quanta loucura

Por tão pouca aventura.
Agora entendo,
Que andei perdido,
O que que eu faço

pra você me perdoar.”

In: Um Dia, Um Adeus – de Guilherme Arantes

 

Não havia mais qualquer caminho, nem mesmo um mísero atalho capaz de levá-la para bem longe daquele amor tão ansiado e, ao mesmo tempo, tão mal consumado. Ali parada, coração frenético pulsando desalinhado num compasso que, assim como seus pensamentos, se misturavam desordenadamente diante daquele inesperado flagrante, Júlia teve tempo apenas de se esconder atrás da primeira e providencial banca de revistas avistada.

Levantou a gola da capa de chuva que usava encolhendo, ao mesmo tempo, seu pescoço até que as próprias orelhas parecessem camufladas. E nesse gesto desesperado que lhe conferiu o ar de fugitiva criminosa, viu passar diante de si, abrigados num amplo e refinado guarda-chuva, um elegante e vistoso casal aninhado num terno e aconchegante abraço.

Não pôde deixar de sentir uma amarga mistura de êxtase e raiva. Jamais imaginara que um reencontro como aquele aconteceria, muito menos daquela forma. Presumira que seu ex-namorado tivesse se mudado definitivamente para a Itália, tão logo se separaram. Este era, aliás, um de seus planos mais definidos. “Plano de fuga”, como Júlia costumava chamá-lo.

E, assim, passado tanto tempo, já acreditava esquecido todo e qualquer sentimento que outrora nutrira por aquele homem inteligente e sagaz, alto e meio gordinho, de cabelos loiros sempre em desalinho.

Tarde demais para descobrir que seus afetos estavam ali apenas adormecidos. Afinal, que outro sentimento justificaria a misteriosa e indomada cólera que naquele instante se sobrelevara ao deparar-se com uma mulher colada ao corpo daquele homem fazendo-a sentir uma quase indomável vontade de simplesmente esganá-la?

Que tremor era aquele que lhe acometia as mãos gélidas e gotejadas de um suor úmido que nem sequer o calor do bolso do casaco sob a grossa capa conseguia aquecer de nenhuma forma?

Que retumbar era aquele a ensurdecer-lhe os ouvidos, fazendo-a viver a desagradável sensação de ter um coração a bombear litros de sangue dentro da própria cabeça?

Enfim, que outro sentimento, que não o amor surpreendente e recalcitrante, para justificar tamanho nó na garganta e a incontrolável vontade de chorar?

Enquanto tentava refazer-se de algum modo, seus olhos teimavam em acompanhar o casal que ainda aguardava o farol de pedestre na esquina ao lado. Num lampejo de crescente loucura, saiu do seu abrigo e, sem pensar duas vezes, viu-se ao lado do par que parecia quase perfeito. Procurou olhar na direção oposta ciente que, desta maneira, não seria reconhecida. Ainda pode ouvir a mulher, que avaliou muito mais jovem que ela, carinhosamente chamar seu namorado, seu ex-namorado Francisco, seu homem ainda tão amado, de Kiko? Neste instante sentiu o coração petrificar-se.

Afinal, era esse o apelido com o qual a ele se referira durante anos. E ninguém, nem mesmo a família ou os melhores amigo, jamais o fizera. Sentiu ainda mais ira quando a viu afagar a mão dele com carinho enquanto lhe dava um beijo barulhento na bochecha, coisa que ele sempre detestara. Demonstrações de afeto em público eram sempre, e invariavelmente, por ele rechaçadas.

Mas naquele momento, enquanto atravessavam a rua desviando-se alegremente das inúmeras poças de água, Kiko ria contente ao mesmo tempo em que puxava animadamente a moça pelo braço.

Júlia observou a cena atônita. E, estranhamente, continuou a seguir o casal sem o menor entendimento do que estava fazendo ou para onde tamanha insensatez poderia levá-la. Lembrou-se, então, da última cena passada, de uma discussão sem sentido que protagonizara com Kiko, em um dia muito parecido com aquele. E, assim, sem que pudesse impedir, o pensamento voltou anos no calendário da sua tão prodigiosa quanto malfadada memória.

Chovia muito, tanto quanto naquela tarde. Os termômetros indicavam quedas bruscas na temperatura e tal fato era alardeado pelas emissoras de televisões e pelas rádios. Mesmo assim, obstinadamente, eles decidiram seguir viagem. Fazia muito frio. O mês de julho apenas terminava quando as pessimistas previsões de tempo se espalharam.

A inesperada invernia pegara a todos de surpresa fazendo com que casacões, luvas, cachecóis, boinas e polainas, ou seja, todo o arsenal de inverno descesse do armário para ocupar as principais  gavetas de roupas ao mesmo tempo em que casacos, capas e blusas de lã desaparecessem de todas as lojas da cidade.

No entanto, haviam decidido que mesmo que chovesse canivete naquele céu de agosto, esta seria a verdadeira lua de mel a eles destinada.

Depois de um namoro de quase dois anos, Júlia sabia que precisavam daquele período a sós. Muito do tempo deles havia sido despendido entre obrigações familiares, viagens acompanhadas dos filhos do primeiro casamento de ambos, dos amigos e parentes, reuniões e festas sempre repletas, na amoir parte, dos conhecidos de Kiko e das tarefas que lhes eram impostas em nome de salvaguardar um futuro que, de fato, nunca logravam alcançar.

Lembrou-se que sua queixa sempre se remetia ao fato de que a imprescindível dose de intimidade, acompanhada da necessária medida de privacidade, era uma realidade quase nunca experimentada dentro do seu relacionamento com ele. Não que ela não fizesse todo o esforço neste sentido.

Aliás, toda a intimidade por eles vivenciada era fruto de sua insistência em preservá-la, mesmo que em detrimento do contato com seus próprios filhos.

Ocorre, no entanto, que Kiko não realizava tal exercício com a mesma frequência. E, ainda por cima, reclamava da falta da presença mais constante de Júlia em sua vida. Só depois, bem depois, foi que ela entendeu que esse era mais um das nem sempre explícitas manifestações do egoísmo dele. Enquanto seus encontros contemplassem a presença de seus parentes e de seus próprios filhos, tudo estaria caminhando na direção certa. Para ele. Foi quando Júlia decidiu que, ansiando uma atitude recíproca e verdadeira, deveria cobrar do seu amado na mesma medida em que se sentia cobrada.

Passados alguns dias, Kiko convidou-a para uma viagem prometendo que teriam “uma conversa bastante séria a respeito do relacionamento” conforme registrara num bilhete deixado em sua caixa de correio.  Ela, então, aceitou confiante de que o amor de ambos indicaria o melhor caminho a ser tomado.

E assim foi nos três primeiros dias de viagem. Hospedaram-se num hotel romântico e confortável, fizeram caminhadas de mãos dadas, divertiram-se como a muito não faziam, juraram amor eterno enquanto saboreavam o melhor vinho da cidade. E tudo corria bem até que no quarto dia, uma segunda-feira fria e cinzenta, enquanto tomava um chá quente na recepção, Júlia foi surpreendida pela chegada da irmã mais velha de Kiko acompanhada do marido e  de um outro casal. Este fora, por sinal, até aquele dia, um fato bastante corriqueiro nas viagens deles. Presenças tão inesperadas quanto indesejáveis que Júlia acolhia como se tudo obedecesse a um enfadonho enredo muito pouco original. Perdera a conta das vezes em que, sozinha e aborrecida num canto, se entediara com as mesmas conversas e as velhas piadas.

Ocorreu, porém, que ao invés de uma calorosa recepção que tentaria disfarçar sua patente irritação, ela resolveu olhar cada um bem nos olhos e, sem titubear, declarou: “ – Perdoem-me a honestidade, mas essa é uma viagem muito importante pra gente. Necessitamos muito deste tempo sozinhos. Desta forma, não se chateiem, mas não desejo nenhum de vocês aqui nesse momento. Espero que possam me entender e que não se magoem se eu pedir que se retirem apenas por hoje”.

E diante do sepulcral silêncio que se instalou entre todos os atônitos olhares, Júlia apenas aguardou o inevitável. Atrás de si sentiu a presença recém-chegada de Kiko, respiração ofegante, incrédulo e assustado com o que acabara de ouvir. Parecia pensar em voz alta.

Não. Aquilo só podia ser uma piada. Imaginar que alguém deliberadamente e em sã consciência admitiria a mísera ideia de desalojar algum parente ou qualquer amigo seu era simplesmente intolerável. Aquela mulher ali na sua frente, arrojada e determinada, não tinha a menor noção de onde acabara de se meter. Com que direito falara tudo aquilo? Quem ela imaginava ser?

E, sem que Júlia tivesse tempo de explicar seus motivos claros, sua centena de razões irretorquíveis, suas percepções irrefutáveis, viu-se diante de um olhar cheio de ódio que jamais identificara naqueles olhos castanhos que tanto amava.

Kiko puxou-a pelo braço em direção do elevador e sem que houvesse tempo para nenhum diálogo, de um jeito frio, informou que quem partiria naquela hora seriam os dois para terminarem definitivamente o relacionamento.

E, passado tanto tempo, ela ainda conseguia recordar-se do gosto amargo das lágrimas e dos soluços que lhe destroçaram a alma. Lembrou-se da chuva fina que  caia enquanto voltavam para o quarto como robôs. Refizeram as malas em silêncio, tomaram a estrada, no caminho de volta, sem trocar nenhuma palavra.

Júlia passou a viagem à espreita de um gesto de carinho, de uma aproximação afetuosa. E, então, num derradeiro e aflito esforço, pediu desculpas sem, no entanto, sentir-se culpada. Kiko, friamente, respondeu que precisava ficar quieto e sozinho por algum tempo. Deixou-a em casa sem acenar qualquer esperança e, desta forma, Júlia entendeu que atravessara uma passagem perigosa e definitiva.

Nunca mais se viram a partir deste dia. Ele jamais retornou-lhe os inúmeros telefonemas ou respondeu-lhe as dezenas de mensagens enviadas.

Até que um dia ela desistiu de tentar, parou de chorar e voltou a sorrir para a vida. Mudou de endereço, de número de telefone e trocou seu endereço virtual. E, desta forma, passaram-se dias, meses e anos. Repletos de sol e de lua, chuvas e calor. Kiko passou e apareceu Marcelo com quem, tempos depois, casou-se acreditando que o passado estava superado.

Até aquela fatídica tarde chuvosa.

E foi com olhar perdido no passado que avistou o par de olhos castanhos claros que agora desconcertados a miravam. Guarda-chuvas nas mãos, ele sussurrou algo nos ouvidos da moça e atravessou a rua em direção à Júlia que se quedara paralisada.

Parou na sua frente, sorriu timidamente e falou:

Logo depois daquela nossa horrível viagem, viajei para a Itália por quatro meses e não aguentei sua falta. Voltei e procurei por você por toda a parte e por muito tempo. Tentei de tudo achando mesmo que não ia suportar a dor do seu desaparecimento. Daí soube do seu casamento. Queria dizer que desejo pra você toda a felicidade do mundo, Jú, ainda que tenha certeza de que a minha estava escrita para ser vivida do seu lado.

Dito isto, deu-lhe um leve beijo nos lábios, virou-se e correu em direção da moça que pacientemente o aguardava. Abraçou-a e seguiu adiante. Para bem longe de Júlia. E pela última vez.

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